Paulo Saldaña|Estadão
Paulo Saldaña|Estadão

No Marrocos, entre a rota das mil maravilhas e o deserto do Saara

O longo trajeto mostra mais da cultura berbere e a chegada ao acampamento no deserto é celebrada com música, dança e janta

Paulo Saldaña, O Estado de S.Paulo

01 Março 2016 | 14h20

OUARZAZATE - Para chegar às dunas é preciso embarcar em uma viagem de carro que leva quase 10 horas desde Marrakesh. São cerca de 1,5 mil quilômetros, ida e volta. Mas a recompensa não está só no fim.

O primeiro desafio é atravessar a Cordilheira do Atlas, que corta o Marrocos no sentido da latitude e vai até a Tunísia, passando pela Argélia. As boas estradas são tortuosas, com pista à beira de desfiladeiros, o que dá frio na barriga, mas oferece vistas lindas de vales e montanhas. Sobe-se a 2,3 mil metros de altitude.

Pelo caminho, vilarejos de tom ocre encravados na beira das montanhas, vigiados pelos minaretes das mesquitas. Mulheres de véu lavam roupa na beira dos rios, pastores de ovelhas tocam a vida em silêncio entre pedras e terra. Sinais de fumaça nas montanhas acusam a presença de pequenos grupos nômades que ainda vivem por ali, dizem os guias.

De Marrakesh a Ouarzazate são cerca de quatro horas na estrada. Durma uma noite. Dali em diante começa a chamada Rota das Mil Kasbahs, as casas fortificadas de origem berbere usadas tradicionalmente para a defesa da população contra as tribos subsaarianas. São edifícios com vários pisos, em formato retangular, com torres de vigilância nos quatro cantos. Um conjunto de várias kasbahs forma um ksar.

No centro de Ouarzazate está o Ksar Taourirt, onde até 1956 viviam um califa com quatro mulheres oficiais e outras dez concubinas – além de quase 200 pessoas próximas. É um dos poucos ksares em que é possível ver ornamentos berberes nas paredes externas, em formas geométricas e padronizadas.

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Perto dali, no Vale do Ounila, o Aït Benhaddou é o ksar mais impressionante do Marrocos. Um conjunto de kasbahs de adobe dos mais antigos e grandiosos, classificado como Patrimônio da Humanidade. Seria clichê dizer que estamos em um cenário de filme se nesta cidade não tivessem sido filmadas cenas de Lawrence da Arábia (1962), Gladiador (2000) e parte da série Game of Thrones.

Cheios de pose. De volta à estrada em direção a Merzouga – mais seis horas de carro –, outra parada é o mirante de onde se avista todo o oásis de Tinghir: montanhas, ruínas de casas de terra, o verde do palmeiral e um céu azul uniforme. Ali, o vendedor Said, com seu véu azul da tribo touareg, e seu dromedário Jimi Hendrix posam para fotos em um mirante na estrada. E cobram por isso.

Passamos ainda pelas íngremes Gargantas de Todra, montanhas que se esticam em volta de um pacato riacho. No corredor formado por dois paredões altos, de 300 metros, cabem apenas o rio e a estrada. Local bom para a prática de escalada, mas também para admiração cheia de preguiça.

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EM ERFOUD, AVENTURA ENTRE DUNAS E ESTRELAS

Acaba o asfalto e, por 40 minutos desde o centrinho de Erfoud, a viagem é como um rali, costurando as pedras e deixando poeira para trás. Sacolejando dentro de um 4x4, você vê as primeiras dunas do deserto de Merzouga se aproximando, grandiosas e imponentes.

A subida ao topo das dunas é no lombo dos camelos postos em fileira. O sol desenha formas com nossas sombras na areia alaranjada. De lenço enrolado na cabeça, fico entre a sensação de desbravador do deserto e personagem de um filme pouco verossímil.

Quem está em busca de um cenário para fotos espirituosas não vai se decepcionar. Mas no alto da montanha de areia, diante da imensidão que se espalha e o pôr do sol que pede silêncio e muda as cores ao redor, o pensamento vai longe. Sentado na areia, é hora de apreciar a simplicidade dos grandes momentos.

Passaremos a noite em barracas. Dez tendas de tecido estão dispostas em torno de 25 tapetes com uma grande fogueira no meio. Somos recebidos por músicos inspirados, tocando e dançando temas árabes e berberes. Em roda, quem não dança segura… o chá de hortelã. Os anfitriões fazem passos invocados, como um break do deserto. Aprendemos uma tal dança do camelo, sempre com um pezinho para a frente.

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A temperatura cai abruptamente e o frio gela os ossos. Pede-se mais chá de hortelã ou vinho marroquino – honesto – para pôr em dia o papo furado em torno da fogueira. Na tenda principal, o jantar começa com uma sopa de tomate, nabo e curry. Depois vêm o carneiro assado e o cuscuz.

Cada barraca tem cama confortável (com muitos cobertores), banheiro e chuveiro quente. Mas a melhor pedida é olhar para o alto. Acho que eu nem sabia que havia tantas estrelas no céu. Em menos de 20 minutos sentado nas dunas, a poucos metros das tendas, duas estrelas cadentes fazem valer ainda mais encarar o frio e a escuridão. O programa todo, rota em veículo 4x4, jantar e pernoite na barraca, sai por 200 euros por pessoa: xaluca.com.

SÃO COSTUMES

Clima. O tempo é sempre seco e o nariz sofre. A melhor época para viajar é entre outubro e maio, do outono à primavera. Em dezembro, quando estive no Marrocos, os dias estavam quentes sem exagero e as noites frias. 

Compras. Quando for às compras – uma tentação diante de tantos itens diferentes – encha-se de disposição para barganhar. Sim, chega uma hora que cansa. Mas é a cultura local, e não se surpreenda ao conseguir comprar por menos da metade do preço inicial.

‘Dress code’. Não esqueça de comprar um lenço para enrolar na cabeça e entrar no clima. Nas próprias barracas os vendedores ensinam como vestir.

Feminino. Quase nunca se ouvem as vozes das mulheres locais, que usam véus e não gostam de ser fotografadas. Para mulheres estrangeiras, é de bom tom evitar decotes e saias curtas.

Álcool. Nem todos os bares e restaurantes vendem bebida alcoólica. Se houver cerveja no cardápio, atenção: pode ser que seja sem álcool. Não saia bebendo na rua.

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SAIBA MAIS

1. Como ir: SP-Casablanca-SP direto com Royal Air Maroc em um Boeing 767-300 bastante usado que atrasou na ida e na volta, por R$ 3 mil. Pelo mesmo valor médio, com conexão, Iberia e TAP levam a Marrakesh.

2. Visto: não é exigidos dos turistas brasileiros. A segurança no aeroporto é rígida.

3. Moeda: 1 dirham vale R$ 0,40; euros são bem aceitos.

4. Hospedagem: em tons de terra, o luxuoso Kenzi Menara, onde me hospedei, está a dez minutos de carro da medina. A piscina e os mosaicos de ladrilhos quebram a monotonia cromática (desde 106 euros).

*O repórter viajou a convite do Turismo do Marrocos.

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