Adriana Moreira/Estadão
Adriana Moreira/Estadão

Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2016 | 00h50

Entre uma curva e outra, a névoa densa que nos acompanhava pela Serra do Rio do Rastro abria apenas algumas brechas, tal qual o trailer de um filme, que aguça a curiosidade sem revelar o final. Às vezes, surgiam picos escarpados e paredões de pedra; em outras, parecia que o vale se revelaria, mas a neblina acabava por encobrir novamente a paisagem. Conforme subíamos, o visibilidade piorava, até que ultrapassamos a barreira das nuvens. Os picos apareceram e, finalmente, foi possível parar em um dos mirantes. A 1.421 metros de altitude, um tapete branco parecia se estender sob nossos pés, deixando transparecer em pontos estratégicos o serpentear da estrada.

Cartão-postal da Serra Catarinense, a estrada que corta a Serra do Rio do Rastro (SC-390) tem 284 curvas em seus 23 quilômetros entre as cidades de Lauro Muller, ao nível do mar, e Bom Jardim da Serra, no alto da montanha. Não é o único caminho para a região, mas, certamente, é o mais bonito. Só não deve ser feito à noite ou com chuva, já que deslizamentos não são incomuns. O ideal é sair cedo, pegar a estrada com calma e parar em quantos mirantes quiser. Caso o clima não esteja favorável, prefira ir pela BR-282.

Nesta época do ano, o frio é uma das principais atrações da região – e se a neve der as caras, melhor ainda. Quando passamos por São Joaquim, semana passada, a expectativa era de que ela aparecesse no último fim de semana. Dito e feito: bastou nosso grupo deixar a cidade para a neve cair, bela e faceira. Mas não é só a possibilidade de observar a paisagem coberta de flocos brancos que atrai os turistas. Vinhos de altitude, muitos deles premiados, se tornaram uma atração deliciosa e indispensável em São Joaquim. 

Urubici, por sua vez, encanta aqueles que não dispensam o contato com a natureza. Cachoeiras, trilhas e formações rochosas atraem quem gosta de aventura, enquanto Bom Jardim da Serra é pura contemplação. Há três cânions visitáveis na região, que se unem aos Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul.

Para combinar as três cidades em um roteiro, não tenha pressa. Agasalhe-se bem, vá cantando como Roberto Carlos, “Eu prefiro as curvas...”, e aproveite cada uma delas para perceber os diversos ângulos dessa paisagem única.

Como ir à Serra Catarinense

De Florianópolis, siga pela BR-101 até Tubarão e depois, pegue a SC-390 rumo a Bom Jardim da Serra. São 3h30 de viagem Outra opção é via BR-282 e SC-416 

 

Passeios

São Joaquim: Na Trilha Certa (natrilhacerta.com.br); Urubici: Caminhos da Serra (49-9153-1392); Bom Jardim da Serra: Tribo da Serra (tribodaserraeco.com.br)

Esticadas

Florianópolis

Embora o aeroporto de Lages receba voos da Azul, saídos de Campinas, é provável que você chegue pelo aeroporto de Florianópolis. Uma ótima desculpa para passar um ou dois dias na cidade – nos dias quentes, a pedida são as praias, claro, mas no frio vale visitar o Mercado Público, a Casa da Alfândega e os restaurantes de Ribeirão da Ilha.

Santo Amaro da Imperatriz 

Quem vai para a região pela BR-282 passa pela cidade de águas termais, distante 38 km de Florianópolis. Aquecidas naturalmente a 39 graus, as águas têm propriedades terapêuticas – e são usadas nas piscinas e spas de hotéis da região, como o Plaza Caldas da Imperatriz. Aproveite para fazer passeios pela área de Mata Atlântica ou, em dias quentes, curta o rafting do Rio Cubatão.

Gramado e Canela

Quem tem tempo de sobra – e gosta de dirigir – pode seguir até a Serra Gaúcha, em uma viagem que dura de 4h30 a 5 horas. Gramado e Canela, mais turísticas e repletas de opções de restaurantes, hotéis e entretenimento, têm perfil bem diferente das cidades da Serra Catarinense – que, por sua vez, guardam uma atraente rusticidade.

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Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2016 | 00h45

O 4X4 cruzou o pequeno centrinho de Bom Jardim da Serra, cidade com pouco mais de 4 mil habitantes, rumo ao Cânion das Laranjeiras. Até lá, seria cerca de 1 hora de carro e mais uma caminhada de 2,5 km em um trajeto um pouco mais longo, mas sem tantas subidas e descidas quanto a outra opção de trilha. 

Embora a noite tivesse sido gelada, o dia amanheceu ensolarado. Um sinal de que a melhor opção seria se vestir em camadas para não passar calor conforme as temperaturas subissem. 

Antes de deixar o carro, Chico, guia da Tribo da Serra que acompanhou nosso grupo, oferece galochas. “Alguns trechos têm muita lama, é melhor”, aconselhou. Acatei, e, logo no começo da trilha, percebi que a escolha tinha sido acertada. Não demorou muito para a bota da minha colega atolar e eu mergulhar o pé em outra poça, logo à frente. Graças às galochas, os pés seguiram sequinhos.

Depois do trecho de lama, há um grande descampado. Faz calor – leve água, você vai precisar. Vacas e bois encaram nosso grupo perto de um riacho. Trocamos olhares desconfiados e cada um seguiu seu caminho. Melhor assim.

Ao longe, era possível ver que a neblina cobria boa parte do cânion. “Mas está ventando, as nuvens estão indo e vindo, vamos ver como será quando chegarmos lá perto”, explicou Chico. Caminhamos de dedos cruzados, torcendo para enxergar alguma coisa na chegada. 

O nevoeiro parecia bailar à nossa frente. Em certo momento, até o grupo de araucárias à beira do abismo estava encoberta. Em outro, a imensidão do cânion se mostrava sem pudores, e a vista alcançava longe, em direção ao litoral.

Seguimos caminhando pela encosta. Num ponto específico, Chico convidou: “Pode deitar aqui e olhar para baixo”. O coração sambava no peito, mas me arrastei como orientava o guia e olhei lá para baixo, num vale que parecia não ter fim. Um a um, todos do grupo fizeram o mesmo – e eu pedi para repetir a experiência. Na segunda vez, o cenário era diferente: as nuvens dançavam sob meus olhos, e os paredões já não eram tão visíveis. Mas a beleza continuava ali. 

Para encerrar o passeio, um lanche com vista privilegiada, enquanto as nuvens brincavam ao nosso lado, em seu infinito balé.

Outras vistas. Além do Laranjeiras, há outros dois cânions a serem visitados em Bom Jardim. O do Funil é para os fãs de trekking, com 14 quilômetros de ida e volta, enquanto o da Ronda não exige tanto esforço físico, já que é possível chegar de 4X4 até bem próximo do cânion – ou a cavalo, no caso dos hóspedes do Rio do Rastro Ecoresort, onde ficamos. 

Integrante da associação Roteiros de Charme, a propriedade, vizinha ao mirante da Serra do Rio do Rastro, tem apenas 19 chalés e muitos mimos para os clientes. Espumante de boas-vindas, chocolate no travesseiro, ammenities L’Occitane e chá da tarde, além do café da manhã incluído, fazem parte do aconchego dedicado aos hóspedes. Frio, só do lado de fora: dentro dos chalés, aquecimento central, lareira, lençol elétrico e jacuzzi. Diárias a partir de R$ 690 o casal; riodorastro.com.br.

À beira da serra. Mesmo para quem não pretende percorrer os cânions da região, é difícil fugir da vocação contemplativa da cidade. O mirante de onde se vê todas as curvas da Serra do Rio do Rastro dá as boas-vindas aos viajantes, que não economizam nas selfies ao se deparar com a paisagem.

Como o vento gelado não dá trégua, dê uma passadinha no café Mensageiro da Montanha, ali mesmo. Com chocolates quentes e cafés preparados de diversas maneiras (escolhi um com licor e chantilly, R$ 12), guarda um pouco da história da região. Há diversas fotos antigas que mostram a estrada antes de ser asfaltada, quando os carteiros percorriam o trajeto entre Bom Jardim e Lauro Müller em mulas. 

“Meu sogro, seu Tobias, era o verdadeiro mensageiro da montanha. Ele trabalhou como carteiro muito antes da pavimentação da via”, relata Sandra Vieira Padilha, dona da casa. Boa de papo, ela adora contar as histórias do passado para os turistas. “Tenho umas ótimas. E eu falo pouco, sabe...”, diz, caindo na risada.

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Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2016 | 00h40

É só nevar em São Joaquim para a tevê fazer uma transmissão ao lado do termômetro na praça central da cidade, marcando temperaturas negativas enquanto turistas acenam ou tentam esculpir algo parecido a um boneco de neve. Logicamente eu adoraria participar desse momento, mas São Pedro não quis colaborar com meu grupo e mandou os floquinhos gelados para a cidade justamente um dia depois de nossa partida, na semana passada. Revés de turista, quem nunca viveu algo semelhante?

Foi a neve, afinal, que colocou São Joaquim no mapa do turismo, antes mesmo de a cidade estar preparada. Com apenas 24 mil habitantes, a agricultura sempre foi sua principal atividade, especialmente a produção de maçã. Mas a fama de ser um dos poucos pontos do Brasil com ocorrência de neve aguçou a curiosidade dos viajantes. Agora, a cidade passa por uma repaginação, com reforma de ruas e calçadas para ficar ainda mais atraente.

Por outro lado, a neve já não é o único motivo para visitar São Joaquim. A produção de vinhos de altitude de qualidade começou a chamar a atenção – e ir às vinícolas degustá-los se tornou indispensável na cidade.

A Villa Francioni (villafrancioni.com.br) impressiona já na chegada. No alto de uma colina, cercada de vinhedos, a casa principal mistura linhas clássicas de antigas fazendas com ares contemporâneos. Manoel Dilor Freitas, fundador da marca, era um apaixonado por artes, e isso se nota nos detalhes do projeto arquitetônico: tijolinhos aparentes de demolições; antiguidades; quadros e mosaicos nas paredes; vitrais coloridos. “Ele colocou um pouco de si em cada detalhe, mas morreu antes de provar os vinhos, em 2004”, conta o guia Eduardo Sobânia, da agência Na Trilha Certa.

A visita é realizada em grupos de até 50 pessoas, o que torna o processo impessoal, mas nem por isso desinteressante. Um guia conduz o grupo pelos cinco andares do prédio, construído de maneira a aproveitar a gravidade na produção dos vinhos. Depois de observar cada etapa, a hora mais esperada: a degustação. Os rótulos da Villa Francione têm como característica a mistura de uvas – caso do Michelli, considerado o mais nobre da empresa, feito com cabernet sauvignon, sangiovese e merlot. Dos R$ 40 pagos pela visita, R$ 30 viram desconto na hora de comprar as garrafas, que têm preço médio de R$ 50. Agende antes de ir.

Aconchego. Proposta bem diferente tem a Monte Agudo (monteagudo.com.br), vinícola familiar e aconchegante, que propõe refeições harmonizadas com os (ótimos) vinhos produzidos ali. Fomos recebidos por Carolina, filha de um dos fundadores da empresa, com um sorriso e uma garrafa de espumante rosé em mãos. O salão é pequeno, com espaço para não mais que dez mesas, envidraçado e com vista para os vinhedos, plantados a 1.280 metros de altitude. 

Carolina percorre as mesas conversando com os clientes, explicando sobre os vinhos e o menu, que muda todo mês para aproveitar a sazonalidade dos ingredientes. Há duas opções de entrada, prato principal e sobremesa para os comensais escolherem um de cada – e ela harmoniza as bebidas de acordo com as escolhas. Comi sopa de abóbora com gorgonzola, truta com purê de batata doce e torta de maçã desconstruída de sobremesa (mas me arrependi um pouco de não ter escolhido os churros com doce de leite, que saem quentinhos). No almoço ou no jantar, a refeição custa R$ 140 por pessoa. Se preferir, é possível assistir ao pôr do sol degustando vinhos enquanto petisca na tábua de frios, por R$ 55.

Não visitamos, mas também foram recomendadas a Villagio Bassetti (villaggiobassetti.com.br; visita a R$ 40, abatidos na compra de vinhos), além da recém-inaugurada Leone di Venezia (leonedivenezia.com.br), que produz vinhos em pequenos volumes (até 25 mil litros por safra). 

Antes de dormir. “Ai, vocês chegaram tarde, mas espera que a mãe já vai fritar pastel quentinho pra vocês.” Foi assim que fomos recebidos para um jantar leve não na casa de uma tia, mas no Boulevard Café Colonial (Rua Manoel Joaquim Pinto, 12), em frente à praça principal de São Joaquim. Isadora atende a clientela no salão acolhedor, enquanto sua mãe, Maria, prepara doces e salgados, bolos, sopas, cafés, chocolates e sucos.

Os cafés com bufê livre são comuns na região. No de Isadora, custa R$ 30, com suco, café, chocolate incluído – e o alto-astral vem de brinde. “Cês não querem chocolate quente? A mãe prepara num instante! Ai, então espera que a gente vai esquentar a sopa pra vocês. Um suquinho, quer? Tem abacaxi com hortelã, fresquinho, a mãe faz na hora!” 

Comi sopa de capelete in brodo, tomei suco, comi o pastel quentinho e duas variedades de bolo, tudo delicioso. Na hora da despedida, Isadora se desculpou: “Que pena que vocês vieram tarde e já não tinha a rosquinha de coalhada (espécie de pão de queijo). Mas olha, dá uma ligadinha e avisa que vocês vêm que eu preparo uma fornada quentinha!”. Pode deixar, Isadora.

TRÊS VINHOS PARA TRAZER NA MALA (OU PROVAR AQUI)

Cave Pericó Rosé Brut

R$ 62 no Madrid

Este espumante rosé foge da regra ao usar um corte de 70% de Cabernet Sauvignon e 30% de Merlot, duas variedades que se adaptaram bem à serra. O resultado é uma bela coloração salmão clara, aromas de frutas vermelhas (cereja) e tropicais (goiaba) e boa estrutura.

Villa Francioni Joaquim Tinto

R$ 62 na Vinhos e Sabores

Bom para o dia a dia, este corte de Cabernet Sauvignon (50%) e Merlot (50%) de Bom

Retiro do Sul (SC) estagia por dez meses em barricas de carvalho francês novas. Vai bem com carne de cordeiro e com massas ao molho de funghi.

Quinta da Neve Pinot Noir 2011

R$ 126,50 na Decanter

Fieto com uvas cultivadas a 1200 metros de altitude, este Pinot Noir é fresco e delicado, com baixo teor alcoólico e muita versatilidade. Tem bons aromas frutados (frutas vermelhas frescas), corpo leve e foge do estilo ultra-amadeirado. Ideal para o clima tropical.

 

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Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2016 | 00h35

Urubici parece concentrar todos os humores da mãe natureza. As paisagens únicas, de formações rochosas e cachoeiras estonteantes, são o retrato da felicidade da matriarca. Mas há dias em que ela destila toda sua ira, com fortes tempestades, nevoeiros intensos e até neve, colocando à prova os nervos de quem a desafia.

É do Morro da Igreja, a 1.800 metros de altitude, que se pode observar toda a inspiração da natureza, em uma vista 360° das belezas da região. Ali foi registrada a temperatura mais baixa do Brasil: 17,8 graus negativos, em 1996. Mesmo quando não bate recordes, o frio ali é respeitável nessa época do ano – quem chega cedo encontra resquícios de geada. Vá prevenido em qualquer estação, já que o vento é sempre intenso. 

Principal atração turística de Urubici, o Morro fica dentro do Parque Nacional de São Joaquim e tem visitação controlada. A autorização é grátis e deve ser pedida para o ICMBio, pelo telefone (49) 3278-4994 ou por e-mail: agendamentoparque@hotmail.com. Vá de carro: a estrada está em boas condições e, lá do alto, tem-se uma boa vista da Pedra Furada, outro cartão-postal da cidade.

De carro também se chega ao mirante da Cascata do Avencal, com seus impressionantes 100 metros de altura. Há trilhas para observá-la de baixo e, para os corajosos, uma tirolesa passa por cima da queda d’água (R$ 30). A cachoeira fica em uma propriedade particular, no km 34 da SC-430 – cobra-se R$ 5 por veículo de entrada. Outra cascata, a Véu de Noiva, também fica em uma área privada, na Estrada do Morro da Igreja, com ingresso de R$ 5 e acesso por uma caminhada fácil, de 100 metros. 

Curiosidades. No centro da cidade, o posto de gasolina tem um atrativo extra. João Martins transformou um carro Falcon 1960 no caixa do estabelecimento. Os faróis estão sempre acessos e, por dentro, o painel se mostra impecável. É como se o carro estivesse pronto para voltar a rodar. Além disso, há um barzinho na parte interna, que remonta aos antigos dinners americanos.

Vale ainda dar uma paradinha na Igreja Matriz, inaugurada em 1973 e com arquitetura curiosa. Idealizada pelo padre José Alberto Espíndola, ela tem três entradas semelhantes à principal, além de vitrais repletos de simbolismos. 

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