Diego Moura|Estadão
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No Pará, um roteiro pela Ilha de Marajó

Descubra como chegar, a melhor época para ir e quais os lugares imperdíveis para visitar neste canto peculiar da Amazônia

Diego Moura/Estadão, O Estado de S. Paulo

09 Fevereiro 2016 | 05h00

SOURE - O sol já ia alto quando nos preparávamos para desembarcar na Ilha de Marajó, na pequena cidade de Salvaterra. À primeira vista, um lugar inóspito. Do barco, vê-se apenas um porto de atracação de cimento cercado por um lamaçal. Ali perto, um porco se divertia tranquilo no chiqueiro, sob a sombra de uma palafita. 

À segunda vista, a Ilha de Marajó é incrível: o calor amazônico grudento – mais 500 quilômetros para cima e chegamos à linha do Equador –, os búfalos que pastam nas esquinas das ruas poeirentas, o culto ao açaí in natura, consumido sem açúcar, granola ou banana, mas com farinha de tapioca e fatias de peixe seco, o povo atencioso, tudo embebido pelo cheiro da maresia. 

É uma terra envolta em sensações. Suas atrações compõem um roteiro para além do turismo de massa, do tipo que entope estradas no feriado prolongado. É preciso experimentar, descalçar os sapatos de concreto das grandes cidades e vestir a bota do vaqueiro, para encarar os 40 mil quilômetros quadrados de Floresta Amazônica da maior ilha do Brasil e maior ilha fluviomarítima do mundo, ali, no tríplice encontro do desemboque dos rios Amazonas e Tocantins com o Oceano Atlântico. 

São pouco mais de três horas de barco, partindo de Belém, até Salvaterra. A embarcação zarpa da capital paraense duas vezes por dia: às 6h30 e às 15 horas, de segunda a sábado, e às 15 horas no domingo – normalmente, a volta mantém os horários. No entanto, por via das dúvidas, sempre cheque antes. Em geral, as passagens já estão inclusas no pacote contratado, mas é bom saber que dá pra atravessar a Baía de Marajó no assento comum – de plástico duro e sem ar condicionado, R$ 35 – ou com mais conforto na “área vip” (R$ 45), que tem poltrona estofada reclinável, ar condicionado e televisão. 

Esse é um ponto importante, aliás. Dá pra ser aventureiro e criar seu próprio roteiro sem agências? Dá. O site Tour Pará, da Secretaria de Turismo do Estado, indica as cidades e o que fazer nelas em termos de passeios, onde se hospedar e onde comer. Entretanto, também é apresentada uma lista com 15 agências de viagem que oferecem pacotes abertos e fechados. A velha história: contratar uma agência elimina uma porção de eventuais problemas logísticos, especialmente se seu roteiro vai além da dobradinha Belém-Marajó (há pacotes a partir de R$ 1.500, sem passagens aéreas). Vai da escolha de cada um. 

Desembarcamos em Salvaterra. Até Soure temos meia hora de ônibus, com uma pequena travessia de balsa. Vamos lá?

5 dicas importantes:

1.Arraia à vista

Em Soure, quando a maré “vaza” há perigo de arraias nas praias. Informe-se sempre com seu guia ou com o pessoal local sobre o melhor horário para o banho.

2.Luz e escuridão 

Durante os três dias que passei em Soure, foram cerca de dez quedas de energia – você pode ficar órfão do ar condicionado em alguns momentos.

3. Banho de água fria 

Há pousadas – como a Maruanases, em que me hospedei – que não têm chuveiro elétrico. Se você não gosta de água fria, lembre de perguntar antes de fechar o pacote.

4. Celular e cartão 

Em muitos lugares o celular não funciona (os moradores dizem que a Vivo tem uma cobertura melhor). O cartão de crédito não é aceito em muitos endereços de Soure; leve dinheiro em espécie.

5. Filé especial

Em Salvaterra, o restaurante da Pousada dos Guarás serve filé de búfalo com queijo de Marajó, acompanhado de macaxeira frita. Imperdível delícia. 

De canoa ou no lombo do búfalo para desbravar a quentura de Soure

Ainda em Belém, um paraense que sabe das coisas alertou: “o Pará tem duas estações no ano, a que chove todo dia e a que chove o dia todo”. Pois armava-se uma tempestade sobre nosso barco enquanto costeávamos a capital paraense ao som do carimbó, ritmo tradicional da região que lembra a banda Calypso (o calipso, aliás, é um gênero musical do Pará). Em resumo: o período menos molhado para visitar o Estado é entre julho e novembro. De janeiro em diante, a água corre solta. 

Cheguei a Soure na transição de outubro para novembro, com calor sufocante e chuva zero. A cidade tem cerca de 20 hospedagens, do Hotel Ilha, com piscina, Wi-Fi e jeitão mais urbano (R$ 500 por pessoa para 2 dias e 1 noite), à Pousada Maruanases, na Fazenda Araruna, onde ficamos hospedados. Nossos vizinhos eram três araras barulhentas, dezenas de búfalos e bois, galinhas e galos ciscando. Dona Nilda, a anfitriã, ofereceu café da manhã com sucos de frutas típicas do Pará (bacuri, taperebá), bolo de fubá quentinho e manteiga de búfala. O chuveiro elétrico quase não faz falta. Diárias para casal desde R$ 150. 

Depois de atravessarmos o Rio Paracauari de balsa, nossa primeira escala foi a Fazenda São Jerônimo, onde dona Jerônima e seu Raimundo Brito, os proprietários, vieram nos receber com bolo de macaxeira, queijo e doce de leite de búfala. A dez minutos do centro de Soure, além de hospedagem, o local oferece passeios de canoa, trilhas e cavalgada em búfalos. Pela Boeing Turismo, R$ 690 por pessoa, incluindo a travessia de barco de Belém a Marajó, hospedagem por dois dias e uma noite e três passeios, sem alimentação. 

Símbolos. Uma passarela com mais de um quilômetro por entre raízes aéreas do manguezal e árvores de 40 metros de altura leva à Praia do Goiabal, dentro da Fazenda São Jerônimo. No local, deserto, só se ouvem os sons do vento forte e das ondas quebrando. 

É lá que temos o primeiro contato com os búfalos, sob a supervisão de vaqueiros que amansam os bichos. Quer subir no lombo de um deles e tirar foto? Dá. Fazer uma trilha de 20 minutos cavalgando? Pode ser. E nadar com ele? Se você tiver coragem, é plausível, desde que a maré autorize. Tudo na Ilha de Marajó depende das marés. 

Tudo mesmo. Na praia, podemos cruzar a Boca da Glória, braço de rio que vai dar na Baía de Marajó, montados no búfalo, que vai nadando, sem colocar as patas no chão. Sem sela, você se agarra no lombo e vai com fé. Eles seguem o líder, um simpático búfalo chamado Louro José: se ele andar, todos andam; se parar, todos param; se ele te derrubar, bem, aí, foi azar. 

Também é possível navegar em canoa nos rios e riachos dentro da São Jerônimo. Ao som dos remos batendo na água, observe tucanos, saguis, pica-paus e guarás, pássaro vermelho da região. 

Muito extremo? Ficar largado à beira-mar, comendo uma porção de caranguejo toc-toc e bebendo uma Cerpa (a cerveja regional) também é possível. A Praia do Pesqueiro oferece tudo o que tem numa praia paulista ou do Rio de Janeiro pela metade do preço (que tal pagar R$ 2 por uma água de coco?). 

O guia Robson Espírito Santo Lima explica que Pesqueiro e Barra Velha têm estruturas turísticas sedimentadas e esportes de vento, como o kitesurfe, em desenvolvimento. Já as praias de Araruna, do Céu e Cajuuna são vilas de pescadores, sem quiosque ou restaurante. “O cara quando tá aventureiro aluga uma moto e sai por dentro da fazenda, mas aí tem que levar tudo, água, comida.”

A arte da cerâmica pelo "últimos dos aruãs"

Na raça central de Soure, uma mulher de quarenta e poucos anos veio ao encontro do nosso jeitão de turistas. “Querem conhecer a verdadeira cerâmica do Marajó? O Carlos é um dos últimos que mantêm a tradição. Vão lá que ainda ganham presente.” Fomos. 

Rosângela é mulher de Carlos Amaral, “o último dos aruãs”. Ele conta que o povo de sua etnia veio da Cordilheira dos Andes até Marajó, cujos nativos ensinaram a eles a arte da cerâmica. “O que fazemos aqui não é cerâmica marajoara, é aruã com influência marajoara”, explica o artesão. 

Cada vaso tem um significado. Rosângela pega um tipo de copo, o igaçaba. “Representa a mãe d’água e inspira a força.” A peça é leve, mas se mantém intacta ao ser batida com força contra uma prateleira. 

O prometido presente é um pedaço rústico de argila com uma inscrição marajoara. “Esse amuleto traz saúde e sorte, mas tem uma coisa: não pode dar pra ninguém e o olho do dono é o único que pode ver”, diz Rosângela. 

Essa e as outras formas nascem do barro pelas mãos de Carlos, sujeito de cabelos compridos, rosto marcado pela idade e que não nega a origem andina. Aprendeu a arte da cerâmica com a avó. A matéria-prima vem dos mangues marajoaras e, depois de trabalhada, leva oito dias secando. Só então está pronta para receber pintura e acabamento. “É o último elo que nos liga ao passado. Meus filhos trabalham comigo e essa parceria é como era no passado. Quem sabe se a gente fizer assim dura mais alguns anos”, sonha o artesão.

Em Salvaterra, tome parte em um banquete de açaí

SALVATERRA - A pequena Salvaterra, cidade com a segunda maior produção de suculentos abacaxis do Pará, oferece outro encanto da região: o açaí. “A Toca do Açaí é um espaço onde a gente vai mostrar todo o processo exploratório da fruta”, explica Marcileia Correa, uma das integrantes da Unidade de Turismo Rural Açaí Nativo (Utran). 

O pequeno Lucas, de 8 anos, faz uma demonstração ao vivo. Coloca a peconha, tira de pano amarrada às pernas para firmar o corpo na árvore, e escala o açaizeiro. Desliza para cima até o galho sem dificuldades. A uns 10 metros do chão não consegue quebrar a ramificação e, um pouco frustrado, desce. Precisaria de faca, ele explica. É assim que os adultos colhem o açaí. 

Na sede da Utran, além de conhecer as nuances do plantio, o visitante pode (e deve) participar de uma novidade, criada em setembro último: a degustação de produtos feitos com a fruta roxinha. Tem bolo, brigadeiro, licor, geleia, açaí com queijo e a versão ao natural com farinha de tapioca – roxa e branca, porque, sim, existe açaí que não é roxo. O bufê custa R$ 150 por pessoa, mas o preço pode ser negociado para grupos. 

SAIBA MAIS

Passagem aérea: trecho SP–Belém–SP, sem paradas, desde R$ 610 na TAM; R$ 612 na Gol e R$ 783 na Azul.

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