Deniel Nunes Gonçalves|Estadão
Deniel Nunes Gonçalves|Estadão

Entre safáris e noites estreladas, Namíbia mostra que há muita vida no deserto

Independente há apenas 25 anos, o país incluiu a conservação do meio ambiente em sua constituição. Descubra o que fazer no destino africano

Daniel Nunes Gonçalves, Especial para O Estado de S. Paulo

22 Setembro 2015 | 00h30

“Lugar onde não existe nada.” Quem observa pela janela do avião a vastidão inabitada da Namíbia logo entende esse curioso significado do nome do país na língua dos nama, uma das 13 etnias locais. Parece que lá embaixo tem apenas deserto. O nada-sem-fim só é interrompido quando o avião se aproxima da pequena capital Windhoek, destino do voo da South African Airways vindo da cidade sul-africana de Johannesburgo – rota mais direta para quem viaja do Brasil.

Naquele centro urbano quase sem prédios vivem 340 mil dos poucos 2,3 milhões de habitantes dessa nação que se renova: este ano, celebra-se 25 anos de independência da Namíbia, que desde março é liderada por seu terceiro presidente, Hage Geingob.

Basta pousar e caminhar por Windhoek para se surpreender com uma peculiaridade namibiana. Tanto as ruas como a população, 90% negra, adotam nomes alemães: Fritz, Wolfgang, Frida. A arquitetura germânica salta aos olhos e, nas igrejas, nota-se a dominância do cristianismo luterano. Embora o português Diogo Cão tenha chegado à região em 1484, ele desprezou aquela sucessão de desertos pouco atraente.

Assim, o lugar preservou-se de invasores por 400 anos. Até que a Alemanha chegou para colonizar a então África do Sudoeste, em 1884, ficando até 1915, quando saiu em plena Primeira Guerra Mundial. Não por acaso, os alemães são os visitantes mais comuns hoje – e a cerveja da Namíbia tenha qualidade e fama comparável à dos colonizadores.

Cicatrizes. A colonização europeia, como se sabe, foi bem violenta em países da África e da América. Na Namíbia, em especial, a ocupação alemã deixou feridas dolorosas. Ali aconteceu aquele que é considerado o primeiro genocídio do século 20, entre 1904 e 1908, quando o mundo ainda nem sonhava com os terrores de Adolf Hitler.

Há documentos comprovando que o general alemão Lothar Von Trotha ordenou o extermínio de todos os herero que se recusassem a deixar o país. A Alemanha nunca admitiu a tragédia oficialmente. Mas o impacto nas duas etnias foi devastador: restaram apenas 15 mil herero (dos 85 mil existentes na época) e 10 mil nama (dos 20 mil que teriam se rebelado no conflito). Parte desse episódio pouco difundido mundo afora pode ser conhecido no Independence Memorial Museum, inaugurado em 2014 na capital (Avenida Robert Mugabe, s/n.º).

Igualmente traumática é a outra mancha na história recente da Namíbia. A África do Sul, que tinha invadido o país durante a 1.ª Guerra Mundial, instaurou em 1948 o mesmo regime racista do apartheid que segregava brancos e negros – o que fez com que até hoje exista uma minoria branca no topo da cadeia socioeconômica do país. O apartheid namibiano só caiu em 1990. Foi quando, depois de quase um século de sofrimento, a Namíbia conquistou a sua independência. Mas com uma vantagem: nesses 25 anos, ela não sucumbiu mais a grandes conflitos, como aconteceu com vários países da região após se tornarem livres.

Além do safári. Pelo contrário. Rica em minérios como diamante e urânio e habitada por tribos de cultura preservada, a Namíbia incluiu a conservação de seus recursos naturais na constituição e descobriu no turismo uma fonte econômica importante. “É um país único, que se diferencia de outras nações africanas por proporcionar muito mais que safáris fantásticos”, define Danilo Rondinelli, proprietário da operadora TerraMundi, que há seis anos leva brasileiros para lá.

De fato, a partir de Windhoek, os viajantes costumam fazer safári no Etosha e, depois, seguem para visitar sítios arqueológicos, tribos superfotogênicas, um litoral peculiar e desertos com paisagens de outro planeta. “Depois de 2012, o número de visitantes que levamos para lá dobrou”, conta Danilo. “São exploradores que curtem ir aonde pouca gente foi.”

SAIBA MAIS

Aéreo: SP – Windhoek – SP: a partir de R$ 3.436,68 na South African

Visto: não é necessário

Quando ir: na seca, de junho a outubro é mais fácil ver animais

Moeda: R$ 1 equivale a 3,39 dólares namibianos (nad)

Site: namibiatourism.com.na

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Sossusvlei, um playground para fotógrafos

SOSSUSVLEI - Se a Namíbia fosse um destino pop e tivesse de escolher uma imagem como seu cartão-postal, seria Sossusvlei. A cada amanhecer, um punhado de estrangeiros sonolentos mira todo tipo de lente fotográfica para este mar de dunas gigantes avermelhadas. As câmeras costumam registrar os momentos mais sublimes no trecho chamado Deadvlei, no centro de um desses areais.

Daniel Nunes Gonçalves, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2015 | 00h30

É onde troncos tortos projetam a sombra de seus galhos no chão esbranquiçado por sal e argila, em um contraste impactante com a duna ao fundo e o céu azul. Não por acaso, Deadvlei (que nada mais é que o leito seco do Rio Tsauchab, cujo fluxo foi interrompido pelas areias móveis), se tornou objeto de desejo de fotógrafos profissionais, como Sebastião Salgado e J.R. Duran. “Passei seis dias fazendo um safári aéreo e jamais vou me esquecer da cena impressionante do deserto chegando até o mar”, conta Duran.

Localizado a 300 quilômetros de Windhoek, Sossusvlei pertence ao Deserto de Namibe, que batiza o país e cobre seu interior de sul a norte. Com estimados 55 milhões de anos, ele é um dos mais velhos e secos da Terra e dono das dunas mais altas do mundo, com cerca de 300 metros. Junto com a outra grande região desértica nacional, a do Kalahari, que avança aos limites de Botsuana e tem mais água e árvores, Sossusvlei contribui para que dois terços do país sejam dominados por áreas desérticas.

Partindo da capital, chega-se a Sossusvlei tanto por ar – normalmente, voando nos teco-tecos que levam aos lodges – quanto por terra (de preferência, em veículos 4x4). Na Namíbia, dirige-se por horas sem ver viv’alma – e, assim, fica clara a baixa densidade demográfica de 2 habitantes por quilômetro quadrado em um território de 850 quilômetros quadrados, pouco maior que três estados de São Paulo. O contraste dos ventos quentes do interior com a brisa gelada do mar provoca neblina no vasto trecho onde o deserto encontra o litoral – e, por vezes, adia ou atrasa os voos pela região.

Cama ao ar livre. Como no deserto quase nunca chove, hotéis como o Little Kulala (diária a cerca de R$ 1.800) deixam a opção de o hóspede dormir em uma cama ao ar livre, no terraço de cada chalé. Me rendi à experiência por duas noites e garanto: poucos prazeres são maiores do que abrir os olhos no meio da noite e se deparar com uma infinidade de estrelas forrando o céu.

Para melhorar, um bom edredom protege do vento do deserto, e quase não há insetos no local. A imersão na natureza fica mais profunda quando, antes de dormir, o jantar é também em meio ao nada: um caminho de tochas leva os hóspedes até as mesas e a fogueira central – onde petiscos, cervejas da Namíbia e bons vinhos sul-africanos são servidos.

Ao acordar, outra surpresa. Enquanto se toma café da manhã na sacada do restaurante do hotel, parece que o safári vem até você: dá para ver órix e cabras-de-leque (springboks), os antílopes mais comuns do pedaço, tomando água na poça a poucos metros adiante. Os bichos posam para zooms potentes nos passeios de cada dia, como a aventura de pilotar quadriciclos, a caminhada em meio ao cânion Sesriem, os voos de balão e a subida nas dunas que levam ao Deadvlei – como a Big Daddy.

Observar as pegadas dos animais na areia é uma das diversões durante o belo trekking de 1 hora em meio ao deserto de Sossusvlei. Só não pare demais no caminho: é preciso pegar as primeiras luzes em Deadvlei para voltar com belas imagens do cartão-postal da Namíbia.

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Leões, rinocerontes e mais feras do Etosha

ETOSHA - Safáris são todos iguais? Na opinião dos especialistas, não é bem assim. Safáris de várias partes do mundo têm em comum a caçada fotográfica a animais ao ar livre, normalmente a bordo de jipões 4x4. Mas sempre mudam os bichos, o ambiente, os tipos de hospedagem, os outros atrativos do país. Nessa disputa, o do Parque Nacional de Etosha, criado em 1907 no Norte da Namíbia, quase fronteira com Angola, é tido como de elite.

O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2015 | 00h28

“Ele está entre meus 4 safáris top do planeta,” afirma Danilo Rondinelli, dono da operadora TerraMundi, que já esteve em 20 parques de safári de 12 países africanos. “Há abundância de animais raros em paisagens espetaculares como o lago de sal Etosha Pan”. Segundo ele, a viagem à Namíbia costuma ser combinada com esticadas a África do Sul, passagem obrigatória para os brasileiros, e Botsuana, o país vizinho que tem safáris diferentes desse, em regiões mais úmidas e verdes.

Além dos elefantes, girafas e zebras, espécies como o impala de cara negra (que só existe ali), e os rinocerontes negros, ameaçados de extinção, são facilmente avistadas no Etosha. A mais bem sucedida ação de preservação desses últimos, iniciativa da rede hoteleira Wilderness Safaris, tem contribuído para evitar o desaparecimento dos cerca de 4 mil rinocerontes negros sobreviventes em ambiente selvagem: alguns animais chegam a ser transportados em aviões para que procriem em áreas selvagens mais seguras.

Até os temidos leões, escassos em outras partes do continente, dão as caras várias vezes aos visitantes do Etosha. “Existem uns 400 deles espalhados por essa área”, orgulhava-se Gabriel Zuma, guia do Ongava Tented Camp (diária a partir de R$ 1.400), enquanto o Land Rover do grupo chegava a 5 metros de uma família de leões com a cara ensanguentada após devorar uma zebra.

Mordomias. Uma das experiências mais marcantes da visita à região foi justamente se hospedar em uma das oito barracas de lona desse acampamento de luxo na Reserva Privada de Ongava, colada ao Etosha. E se um leão resolvesse rasgá-la? Para fazer lembrar que não estávamos em uma inofensiva réplica da Disney World, na calada da noite foi possível ouvir rugidos assustadores no entorno da tenda. E, pela manhã, tomei um susto ao sair e quase pisar em uma tal cobra zebra, que cospe o veneno em suas vítimas.

Felizmente aquela era ruim de mira: me safei do cuspe da peçonhenta. Os dois episódios foram suficientes para eu entender o porquê de os hóspedes serem proibidos de circular da tenda para o restaurante ou a recepção sem um segurança armado ao lado. Todo cuidado é válido para curtir a vida animal realmente selvagem da região de Etosha. 

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Daniel Nunes Gonçalves, Especial para O Estado de S. Paulo

22 Setembro 2015 | 00h28

A Namíbia foi o ponto de partida do navegador Amyr Klink em seu primeiro grande desafio como explorador: a travessia solitária do Oceano Atlântico a remo. Em 1984, com 29 anos, ele zarpou com o barco I.A.T. do porto de Lüderitz, cidade vizinha à Costa dos Esqueletos, que tem esse nome em função dos ossos – humanos e de animais – espalhados pela praia. 

“A partir dali, a corrente de Benguela se afasta da orla e deflete para dentro do Atlântico; é o lugar onde começam os ventos alísios que sopram fortes e regulares até o Nordeste do Brasil”, descreveu no livro Cem Dias Entre Céu e Mar

Amyr virou um navegador respeitado, e a paixão pela Namíbia jamais cessou. “É segura e econômica”, analisa. “Voltei duas vezes e tenho planos de retornar ainda este ano.” Sua última viagem ao país foi em 2013, com a mulher e as três filhas, para uma empreitada de 4 semanas que incluía a África do Sul. “Voamos para Windhoek, alugamos um 4X4 e cruzamos o país por terra sentido litoral”, recorda Amyr. O interior guarda os bichos terrestres típicos dos safáris, enquanto o litoral das cidades de Lüderitz, Walvis Bay e Swakopmond é morada de focas, pinguins, flamingos e pelicanos. “Na costa, matei as saudades dos amigos que fiz e dos ótimos frutos do mar”.

Estas cidades litorâneas têm arquitetura europeia e ventos que transformaram a região em um oásis para praticantes de esportes como kite e windsurfe. Em Shark Island, antigo campo de prisioneiros das etnias perseguidas pelos colonizadores alemães em Lüderitz, a Klink Plake homenageia o brasileiro na mesma praça em que hoje se vê a estátua de Cornelius Frederiks, que lutou contra a ocupação alemã. 

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Daniel Nunes Gonçalves, Especial para O Estado de S. Paulo

22 Setembro 2015 | 00h28

DAMARALAND - Os viajantes chegam a Damaraland atraídos por pinturas rupestres e florestas petrificadas, mas deixam o lugar encantados ainda mais pelo contato com as tradições do povos damara e himba. Sabe aqueles corais africanos contagiantes, com a voz estridente das mulheres contrastando com o tom grave dos homens – e todo mundo esbanjando alegria e molejo enquanto dança? É um desses que recebe os visitantes do lodge Doro Nawas (diária a partir de R$ 1.800), na região de Damaraland, no centro-norte do país. 

Não por acaso, o staff do hotel ganhou um concurso nacional de cantores. Eles conseguem melhorar até o mal-estar de quem pousa enjoado dos voos nos aviões pequenos, comuns no transporte interno pela Namíbia. A recepção amigável costuma ter ainda drinques e uma toalha úmida e gelada para amenizar o calor seco do deserto. Nada impressiona mais, porém, que a simpatia dos anfitriões do povo damara, que dá nome a região, assim como de outros nativos da área.

O atrativo número 1 de quem inclui essa parada em sua exploração da Namíbia é arqueológico. Fica ali, a 430 quilômetros de Windhoek, o Patrimônio da Humanidade Twyfelfontein, uma sucessão de rochas muito bem preservadas em seu sítio original, onde estão 2.500 pinturas e inscrições rupestres datadas da Idade da Pedra. As imagens retratam animais como rinocerontes, girafas e até um leão cujo rabo tem a forma de uma mão. “Como não havia metal para fazer as gravuras, nossos antepassados bushman usavam rochas de quartzo como ferramentas”, conta a damara Sylvia Thanises, uma das 17 guias.

Mais antigas que as obras de arte de Twyfelfontein são as florestas petrificadas vizinhas. Não se trata de um bosque em pé. Cerca de 50 troncos de árvores coníferas, medindo até 34 metros de comprimento e com mais de 200 milhões de anos, estão caídos no solo. Segundo os cientistas, elas foram trazidas em enxurradas e cobertas pelo deserto. “Protegidas” nesse ambiente de oxigênio zero, sem chuva e forradas por sedimentos de sílica, as madeiras foram “mineralizadas” e viraram fósseis. Pedra mesmo! 

Entre elas, espalham-se várias Welwitschia mirabilis, planta nacional da Namíbia. Rasteira, ela tem só duas folhas, que ultrapassam 8 metros de comprimento. “Elam resistem a cinco anos sem chuva”, explicou o guia Justus Sûxub. “E podem viver bem mais de um milênio.”

Herança. É no caminho para esses museus ao ar livre que se pode fazer outro contato com o povo. Seja qual for a etnia do guia, do motorista ou do anfitrião, ele sempre se diverte ao mostrar diferenças culturais como os “cliques”, sons de estalos que fazem ao pronunciar várias das línguas tribais. É o caso dos 27 descendentes damara que trabalham no Museu Vivo dos Damara. Encravado entre rochas gigantescas a 8 quilômetros do Parque de Twyfelfontein, o centro cultural permite conhecer moradas e danças tradicionais, além do artesanato feito de couro e rocha. 

“Queremos resgatar a cultura que se perdeu ao longo da colonização”, diz a anfitriã Maureen Hoes. A experiência seria mais autêntica se, ao final do expediente, não tivéssemos visto as mesmas pessoas que tinham se apresentado com poucas roupas e estilo “primitivo” passarem por nosso jipe de mochila, tênis e calça jeans ao voltarem para suas vilas. Mas a visita vale a pena.

Felizmente, em uma das esquinas da desabitada estrada de volta ao hotel, nos deparamos com duas mulheres e uma criança da fotogênica etnia himba. Nômades, Vezapopare e Veriazako tinham viajado 200 quilômetros para vender colares e bonecas. As miniaturas reproduziam a estética das himba, que lambuzam o corpo com um barro avermelhado – o mesmo usado para decorar seus cabelos com uma espécie de dreadlock de rastafári. 

“Só voltamos para casa, em Opuwo, depois de vender tudo”, disse, na língua himba, Vezapopare. Ainda que o turismo esteja engatinhando na Namíbia, as himbas já aprenderam que os turistas são carentes de souvenires do país. E que, caso queiram fotografá-las, devem desembolsar alguns dólares namibianos.

SAIBA MAIS

Aéreo: SP - Windhoek - SP a partir de R$ 3.436,68 na South African.

Visto: Não é necessário.

Quando ir: Na seca, de junho a outubro, é mais fácil ver animais.

Moeda: R$ 1 equivale a 3,39 dólares namibianos (ned)

Site: namibiatourism.com.na.

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