Nas estações russas, ao que parece, a regra é se virar

SOCHI - Antes que eu sentasse no teleférico em Rosa Khutor, uma das áreas de esqui do complexo de Sochi - palco para a Olimpíada de Inverno, de 7 a 23 de fevereiro -, tive de passar por um detector de metais operado por soldados russos armados de metralhadoras. Não estou acostumado a esse tipo de coisa. Nos teleféricos dos Estados Unidos, onde costumo esquiar, os funcionários são jovens, brincalhões e treinados para se mostrar sempre dispostos.

Andy Isaacson, The New York Times/O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2014 | 02h10

Ao contrário dos soldados, Sasha Krasnov, o guia local que contratei, se sentiria à vontade nas Montanhas Rochosas. Com 27 anos e cabelos desalinhados, ele se define um esquiador free rider - fora das pistas. Uma tempestade espalhara mais de 60 centímetros de neve durante a noite, encerrando um longo período de seca, e Sasha estava animado como uma criança no Natal.

O teleférico nos levou da área da base, lá no alto, a uma floresta de bétulas coberta de branco. Nuvens densas impediam minha visão, então abri um mapa, escrito em russo. Nele, vi que Rosa Khutor era uma espécie de resort europeu, com uma série de teleféricos que ligavam o vale, a 600 metros de altitude, a um cume rochoso, totalmente nu, a 2.300 metros.

Como nos Alpes, o resort permite que as pistas sejam traçadas à vontade. Somente algumas tinham os nomes marcados, mas em cirílico. Fiquei pensando em voz alta se algumas cordas designariam os limites do resort. "Nada de cordas!" disse Sasha com um sorriso. "Estamos na Rússia."

Há cerca de dez anos, o governo russo decidiu que não havia razão alguma para renunciar aos rublos do pessoal que ia passar as férias na Suíça, França e Itália. As autoridades convidaram então Paul Mathews, um incorporador de resorts de montanha de Whistler, na Colúmbia Britânica, para avaliar o potencial do Cáucaso para o turismo de inverno.

Mathews observou a região de Krasnaya Polyana, no vale de um rio acima de Sochi, e se lembrou de Les Trois Vallées, na França. Elaborou projetos e, em 2002, o conglomerado Interros, controlado por Vladimir Potanin, um dos homens mais ricos da Rússia, e pela Gazprom, a maior empresa de gás natural do mundo, começou a construir resorts de esqui.

Surpresas. Situada no Mar Negro, Sochi tem um agradável clima temperado. As palmeiras ali podem até enganar os visitantes e fazê-los acreditar que estão em outro país. "Sochi é um lugar único", afirmou o presidente Putin ao Comitê Olímpico Internacional no lançamento da cidade como sede dos Jogos de Inverno de 2014. "À beira-mar, pode-se desfrutar de um belo dia de primavera, enquanto nas montanhas o clima é de inverno."

Quando fui para Sochi, em março do ano passado, com meu amigo Than, a temperatura não era primaveril nem o lugar me pareceu bonito. Uma tempestade de fim de inverno criara um clima cinzento e melancólico. "É um presente maravilhoso para nós", disse Sasha enquanto subíamos de teleférico na manhã seguinte.

Mas, por causa da tempestade, parte da montanha estava fechada. Sasha me entregou um transceptor e perguntou se eu já tinha usado aquilo antes. Iríamos esquiar até os limites - nada muito inclinado -, mas as implicações eram claras: na prática, teríamos de nos virar. Esta era a Rússia.

A neve cristalina chegava até a coxa e parecia intocada. Um sujeito de snowboard e calças amarelo-néon falou brincando, em russo, o ditado conhecido pelos esquiadores que diz: "Não há amigos num dia de neve seca", e disparou nos deixando para trás.

Na manhã seguinte, pegamos um micro-ônibus gratuito que nos levou em 10 minutos para Gornaya Karusel, uma área de esqui menor, mas considerada por Sasha superior a Rosa Khutor. "É melhor para o free riding", disse.

Demos umas voltas antes de parar num chalé para almoçar. Conversamos sobre as diferenças de esquiar na Rússia e na América do Norte. "Acho os americanos muito interessantes", disse Sasha. "Se um mau esquiador cai, ninguém fica parado. Todos correm para ajudar! Se eu caio aqui, preciso me pôr de pé sozinho."

Sasha estava ansioso por nos mostrar uma área que ele chama de Floresta Mágica. No topo da subida, uma tabuleta dizia em russo e em inglês: "É perigoso ultrapassar os limites". Sasha sorriu. "Mas, se você resolver ultrapassar, ninguém impedirá."

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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