Tony Cenicola|NYT
Tony Cenicola|NYT

Nas Ilhas Canárias, turismo e astronomia se misturam

Observar as estrelas é um dos melhores programas no arquipélago espanhol, que tem até festival de rock temático

Nina Burleigh, The New York Times

31 Maio 2016 | 04h15

Bem longe no Oceano Atlântico, em um ponto onde uma das quatro correntes de água fria da Terra se encontra com os ventos ardentes do deserto africano, as noites são escuras como na pré-história. Assim que o sol se põe no arquipélago vulcânico das Ilhas Canárias, uma rede nebulosa de luz branca extraterrestre recobre o céu por todo horizonte. Até a alvorada, todos os raios de luz estelar visível no Hemisfério Norte inteiro e em boa parte do Hemisfério Sul estão lá. 

Tais noites negras e céus claros atraem os astrônomos, que instalam alguns dos mais potentes telescópios do mundo nos picos vulcânicos deste arquipélago na costa noroeste da África. Enquanto os cientistas usam os observatórios avançadíssimos para procurar sinais do Big Bang, 2.438 metros abaixo, no nível do mar, turistas, em sua maioria aposentados britânicos e noivas em despedidas de solteira, se embebedam e tomam sol.

Anualmente, 5 milhões de turistas visitam o território espanhol para se bronzear no único clima subtropical da Europa. O porto de Tenerife, o maior da ilha, é o terceiro destino no velho continente mais visitado por navios de cruzeiro, que despejam milhares de passageiros todos os dias durante o inverno, a alta temporada. 

A maioria deles desconhece o fato de que a ilha tem três reservas oficiais de céu estrelado, sancionadas pela Unesco – são locais onde se busca evitar a poluição atmosférica e a luminosa para proteger o acesso à luz das estrelas. Somente uma pequena porcentagem dos turistas faz a subida – de duas horas nauseantes e cheias de curvas – até os telescópios, torres brancas e gigantescas empoleiradas no topo ventoso do Monte Teide.

Mas isso vem mudando. O astroturismo nas Canárias já atrai 200 mil visitantes anuais. Em 2011, foi criado um festival de música e astronomia e, em 2014, o arquipélago passou a integrar a European Astrotourism Route (EU Sky Route). As autoridades canarinas acreditam que mais “caminhantes das estrelas” logo tomarão a serpenteante estrada morro acima ao anoitecer para se sentar no que pode ser chamado de um dos deques celestes da natureza.

É um direito. Em 2007, cientistas e representantes de quase 50 países se reuniram na ilha de La Palma para a primeira Conferência Internacional em Defesa da Qualidade do Céu Noturno, produzindo uma declaração pela “proteção do céu enquanto direito básico de toda a humanidade”.

Entre outros pontos, discutiram banir a poluição luminosa em La Palma, lar do maior telescópio óptico do mundo no observatório Roque de los Muchachos. A ilha vem a ser a segunda melhor localização para a astronomia óptica e por infravermelho no Hemisfério Norte, atrás apenas do Observatório de Mauna Kea, no Havaí.

Com uma população de 70 mil habitantes, La Palma abriga a maior colônia de cientistas e os restos de uma comunidade alemã da década de 1960, além do pequeno centro para o astroturismo. A economia gira em torno da astronomia e, além do telescópio e do centro de pesquisa, existem 13 pontos para observação do céu na cidade. Os turistas podem até alugar casas de veraneio equipadas com telescópios (pesquise aqui) e beber o “vinho estelar”, produzido com uvas locais.

Superstars. O fascínio do astroturismo das Canárias foi elevado nos últimos anos com o festival de rock e ciência Starmus, realizado pela primeira vez em 2011. 

A terceira edição está marcada para 27 de junho a 2 de julho, em Tenerife – ingressos estão à venda por 700 euros para toda a programação. O físico de Cambridge e autor de livros de sucesso Stephen Hawking, que palestrou em 2014 no segundo Starmus ao lado de Brian May, guitarrista da banda Queen, é esperado novamente. May concluiu seu doutorado no Instituto de Astrofísica das Ilhas Canárias, depois de gravar Another One Bites the Dust.

Também em 2014, o astrofísica canarino Garik Israelian, um dos criadores do festival, falou a 600 fãs do mundo inteiro em um grande auditório no resort Ritz Carlton’s Abama, enquanto o disco The Dark Side of the Moon, da banda inglesa Pink Floyd, ecoava nos alto-falantes.

Segundo Israelian, o nome Starmus é uma referência à “música das estrelas”, conceito que tem alguma base científica – e que Starmus tem estudado.

“Quando as primeiras ondas sonoras foram detectadas nas estrelas, uns dez anos atrás, vi que um novo ramo da astronomia estava se formando", ele diz. Israelian, que está formando uma biblioteca de sons estelares, gosta de pensar grande.

A terceira edição do festival será dedicado à discussão sobre a busca pela vida no universo. “O melhor lugar para fazer isso é aqui”, diz. “Em uma hora podemos pegar o ônibus e chegar a uma festa estelar com o maior telescópio do mundo, à noite. Não existe outro lugar no planeta em que se consiga isso.”

Na trilha sonora de 2016, Brian May (mais uma vez), o compositor alemão Hans Zimmer e a banda de rock progressivo Anathema. A festa promete. 

JEITO DE CARIBE, QUALIDADE DE VIDA DA EUROPA

As Ilhas Canárias são, hoje, essenciais à exploração extraterrestre, mas também desempenharam papel decisivo na exploração terrestre. Colombo encontrou o arquipélago em 1492, aquele ano excepcional para a colonização europeia fora de seu continente. Ao descer a costa africana antes de virar para oeste para chegar às Américas, o explorador baixou âncoras nas Canárias e se abasteceu de água fresca e frutas.

O naturalista alemão Alexander von Humboldt desembarcou no século 18 e explorou as ilhas, identificando a corrente de água fria que passa pelo arquipélago e responde em parte pelo clima quase perfeito. O céu é literalmente limpo em 90% do ano.

Atualmente as Canárias lembram o Caribe, mas com jeito de Europa: hospitais, índices reduzidos de criminalidade, padrão de vida alto. Os hábitos são espanhóis, e a comida, saudável e deliciosa: tapas excelentes, azeite de oliva, queijo da cabra branca nativa e uma iguaria local, a batata enrugada, cozida em água com sal até o líquido evaporar. 

SAIBA MAIS

Aéreo: São Paulo-Tenerife-São Paulo, no mês de junho, tem opções de R$ 2.478 na TAP; R$ 2.902 na KLM; R$ 3.190 na Air Europa; R$ 3.238 na Air France. Todos os voos com conexão 

Site: hellocanaryislands.com

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