Arte|Estadão
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Nem tudo é o que parece

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

09 Fevereiro 2016 | 03h00

Já de volta do Caribe, onde teve o azar de cair de sua motoneta com Trashie no banco de trás (mas sem graves consequências), Mr. Miles responde à pergunta da semana.

Querido Mr. Miles: fui a Paris e, depois da terceira noite comendo muito bem, minhas amigas e eu resolvemos ir a uma cantina perto do hotel. Curiosa para observar as semelhanças do tempero, pedi um spaghetti à parisiense. O garçom disse que nunca ouvira falar nesse prato. Pedi para falar com o maître, que também não o conhecia. Como assim, não existir spaghetti à parisiense em Paris?  - Lucimara Reis, por e-maill

Well, my dear, achei muito divertida a sua pergunta. Unfortunately, nem tudo é o que parece. O seu macarrão ‘à parisiense’, lamento dizer, é tão conhecido em Paris quanto o vosso delicioso filé à cubana é admirado em Cuba. Em ambos os casos, os nomes devem estar ligados a histórias curiosas (que, I’m sorry to say, não conheço) e acabaram incorporados à cultura gastronômica brasileira.

Há muitos outros fenômenos inexplicáveis no léxico de cada nação e, sometimes, na própria natureza das coisas. Para que você tenha um pouco de diversão, resolvi compilar algumas estranhezas que tenho. Primeiro quanto a produtos que são cartões postais de um país, mas não pertencem aos mesmos. Veja bem, Lucimara: as tulipas dividem com os moinhos de vento o título de símbolos nacionais da querida Holanda. De fato, os neerlandeses desenvolveram uma assombrosa variedade de liláceas cobiçadas por qualquer apreciador do gênero. A origem das tulipas, however, é a Turquia – embora muitos otomanos nem saibam disso. 

Ninguém vai a Portugal sem a expectativa de provar seu famoso bacalhau. Acontece que, lamentavelmente, não há (nem houve) qualquer bacalhau nas costas lusitanas. Ou seja: o grande prato da culinária local vem da Noruega. Não discuto, however, que os confrades de Camões sejam mestres na arte de prepará-lo. 

E quem já comeu french fries? Ah, as deliciosas batatas fritas... Deveriam chamar-se peruvian fries. Sim: as batatas são originárias da Cordilheira dos Andes, na área próxima ao Lago Titicaca, que também inclui a Bolívia. O que sempre me levanta uma questão filosófica: se as batatas são originárias da América, o que comiam, antes, os europeus do leste, já que também o arroz não é endógeno à Europa, mas vem da China? It’s a strange world, isn’t it?

Alguém pode me citar algo mais brasileiro do que o coco ou a banana? Well: o coco, cuja água, unfortunately, é usada – heresia das heresias! – para misturar com uísque em muitas partes do Brasil, é natural das Índias e foi introduzido no Brasil pelos colonizadores. E as bananas, believe me or not, foram trazidas ao conhecimento dos europeus pela primeira vez em 1830 como um fruto exótico das Ilhas Maurício. O jardineiro britânico Jospeh Paxton, de Chatsworth, conseguiu plantá-la na Europa e ganhou um prêmio nacional da nossa Sociedade de Horticultura. Hoje é a fruta mais popular do mundo – e o país que mais ganha dinheiro com ela é o Equador. Pouca gente sabe disso, como poucos sabem, também, que o famoso chapéu panamá é 100% equatoriano, mas ficou célebre por ter sido muito usado durante a construção do grande canal.

O assunto rende, darling. A famosa pasta italiana é chinesa. Ninguém pratica fila indiana na Índia. O mais célebre músico da Argentina, Carlos Gardel, é uruguaio (ou, segundo fontes, francês). E o mais famoso símbolo do Brasil em Hollywood, Carmem Miranda, com suas bananas de Maurício na cabeça, nasceu em Portugal.

Não se pode esquecer que o filé à milanesa tem um similar em Milão; mas o original chama-se wiener schnitzel e vem, therefore, de Viena. Vocês, my friends, podem ter os melhores e mais generosos biquínis do mundo, mas advinhem quem inventou o banho de mar? Nós, of course. Nunca se soube de banhistas antes do balneário de Brighton. Em outras palavras, como sempre digo, são os viajantes que levam o que há de bom para outros lugares.

Ou mesmo o que há de engraçado. Don’t you agree?

(Ah! Se você tiver outros exemplos como esses, envie para o meu correio eletrônico. Prometo publicá-los!).” 

 

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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