Ninguém viu as pernas de Mistinguett

Para nossa surpresa (e alegria dos leitores que puderam aproximar-se dele), mr. Miles veio de novo ao Brasil, na semana passada. Embora, como sempre, não tenha antecipado nada, o viajante britânico não resistiu ao convite que recebeu de sua velha amiga Claudia Fialho e veio para o coquetel de reinauguração do Copacabana Palace, agora remobiliado e com seu lobby bastante ampliado.

O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2012 | 02h10

Na verdade, segundo contou-nos o correspondente deste caderno, "tive de fazer uma very pleasant choice: ou viajar para um happy hour em Macau com my dear miss Barcellos, uma das mais belas crupiês que conheci em minha vida, ou vir para o Rio. O argumento que me convenceu a optar pela Cidade Maravilhosa foi a lembrança da belíssima Andrea Natal, general manager do novo Copa. 'Miles, dear, sua presença será uma celebração histórica para nossa hospedaria. Não me lembro de mais ninguém que tenha participado das duas inaugurações do Copa', recordou-me ela, avivando, in fact, boas lembranças de uma noite sobre a qual, confesso, já quase não tinha memória."

"Na verdade, dear readers, a memória, a essa altura da minha vida, começa a me pregar algumas peças. Certos eventos específicos, sobretudo os anteriores aos anos 30 do século passado, estão archived em uma espécie de dead zone do meu cérebro. Não que os tenha esquecido: never! Existem, however, algumas situações cuja lembrança precisa ser provocada, as Andrea did. E, imodestamente, sou obrigado a contar que já participei de muitas inaugurações de hotéis mitológicos, todas elas memoráveis - e isso, sometimes, me confunde um pouco.

A segunda inauguração, da qual participei discretamente (não usei o bowler hat e, quando vi que me fotografavam, pedi a Claudia que me desse um uniforme de garçom para evitar tumultos), foi muito bonita, com direito a um red carpet abastecido com ostras frescas e champagne. Todos os apartamentos do prédio original foram remobiliados, com o bom gosto que é peculiar aos comandantes do Grupo Orient Express. O lobby, as well, foi ampliado sem perder suas características.

Sobre a primeira inauguração, lembro-me que foi Otávio Guinle - a quem conheci em Paris - que me mandou um telegrama pedindo que eu comparecesse. Tive sorte de recebê-lo a tempo de embarcar no vapor Equator Glory rumo à América do Sul. O Copa havia sido projetado para estar pronto durante a Feira do Centenário, ocorrida em 1922. Mas o arquiteto Joseph Gire teve chiliques com os atrasos na importação de mármores e cristais da Europa e, even worst, com a grande ressaca que abalou os pavimentos mais baixos do futuro hotel, postergando ainda mais a abertura do palácio.

Enfim, a inauguração ocorreu em 13 de agosto de 1923, no longínquo subúrbio de Copacabana - que eu nem sequer conhecia de minhas viagens anteriores. E foi esplêndida, como, by the way, toda a futura história do palácio. Lembro-me de que Guinle contratou Mistinguett - a cantora francesa 'das mais belas pernas do mundo' para dar o devido glamour à festa. Unfortunately, my friends, o Rio daqueles dias era tão conservador que Mistinguett foi proibida de exibir seus célebres membros. Ninguém viu as pernas de Mistinguett na festa do Copa. Exceto, I'm sorry to say, este modesto viajante. Acho que ela gostou do meu sotaque… Don't you agree?"

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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