Christopher Miller/NYT
Christopher Miller/NYT

No Canadá, população protege um imenso lago intocado

Mas a cidadezinha, localizada no Círculo Polar Ártico e lar de apenas 503 pessoas, quer receber visitantes em seu único lodge e restaurante

Peter Kujawinski / DELINE, THE NEW YORK TIMES

07 Março 2017 | 18h46

Milhares de anos atrás, todos os lagos eram como o Grande Lago do Urso, com água tão pura que dava até para beber, tão lindo que virou tema de canções de amor, tão misterioso que muitos acreditavam estar vivo. Hoje, entre os 10 maiores lagos do mundo, é o ultimo que permanece essencialmente intocado.

Ele atravessa o círculo polar ártico nos remotos territórios do Noroeste do Canadá. Com mais de 31 mil km quadrados, é o oitavo maior do mundo. É maior do que a Bélgica, mais profundo que o Lago Superior e fica coberto de gelo e neve na maior parte do ano. A área à sua volta também é selvagem, uma amplidão intocada de floresta boreal e tundra, rios e montanhas.

O único assentamento humano em suas margens é a cidade de Deline, de 503 habitantes. Essa comunidade isolada é principalmente sahtuto'ine, ou o Povo do Lago Urso, tão ligado ao lago como o nome indica e, por razões práticas, culturais, históricas e até mesmo proféticas, determinado a mantê-lo intocado.

Seus esforços foram recompensados em 2016: em março, o Grande Lago do Urso foi declarado Reserva da Biosfera pela Unesco. Chamada da Reserva de Biosfera Tsá Tué, é a maior da América do Norte e a primeira no mundo a ser controlada por uma comunidade indígena. Vários meses depois, o governo canadense concedeu autonomia a Deline, garantindo o controle local em assuntos como linguagem e educação. É a primeira vez que um governo aborígene no Canadá representará todos os integrantes de uma comunidade, aborígenes ou não. Juntas, as declarações da Unesco e da autogovernança reforçam a capacidade de Deline de controlar o que acontece com o Grande Lago do Urso.

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David Livingstone, agora aposentado depois de décadas de trabalho com questões ambientais para o governo canadense no extremo norte, ajudou Deline a se candidatar à designação da Unesco. Segundo ele, para os sahtuto'ine, o lago não é apenas um corpo de água; ele é fundamental para sua cultura. "O povo de Deline o considera uma coisa viva." O Grande Lago do Urso também é importante para Livingstone. "É o último grande lago desse tamanho e com essas qualidades no planeta. É como a Mona Lisa, um tesouro mundial."

Era fim de tarde quando o pequeno avião mergulhou por entre as nuvens espessas e baixas, e pude ver a floresta boreal, parte de um vasto bioma que se estende por todo o norte da Eurásia e da América do Norte, até onde a vista alcança. O avião desceu em direção a uma delgada faixa coberta de branco, a única pista de Deline. Foi curta a distância de carro do aeroporto ao hotel onde eu ficaria hospedado, uma propriedade controlada pela comunidade, o Grey Goose Lodge. Mesmo sendo pequena, Deline tem mais infraestrutura turística do que eu esperava, incluindo uma lojinha de artesanato no hotel e o desejo de acolher um número cada vez maior de turistas que viajam para o norte do Canadá em busca de uma experiência de inverno e vida selvagem.

Na noite em que cheguei, encontrei-me com Morris Neyelle, membro do novo conselho diretivo, o K'aowedo Ke, além de Danny Gaudet, empresário local que foi o principal negociador da autonomia de Deline. Empossado em primeiro de setembro, o novo governo got'ine é responsável por garantir uma variedade de serviços e programas locais. Neyelle, de 65 anos, alto e de fala mansa, alterna facilmente entre o inglês e o slavey do norte. Ele disse que a autonomia permitiria que os habitantes preservassem seu modo de vida e usassem suas tradições para resolver problemas modernos. "No passado, o povo buscava ajuda do governo nacional e provincial; agora, Deline irá decidir o que é o melhor a ser feito", acrescentou gaudet. Isso inclui tomar suas próprias decisões sobre desenvolvimento econômico, como promover o turismo cultural através do Destino Deline, um programa de gestão comunitária. "Só com o turismo, achamos que provavelmente todos os moradores da cidade terão trabalho", concluiu.

Proteger o lago, no entanto, não é só uma questão de autopreservação e de estímulo ao turismo. Segundo Neyelle e Gaudet, para os sahtuto'ine o lago é uma força poderosa no mundo, um lugar fundamental para a sobrevivência da espécie humana. Essa crença se baseia em profecias de um ancião sahtuto'ine, chamado Eht'se Ayah, que morreu em 1940. Alguns acreditam que as profecias de Ayah são literais, outros acham que são uma alegoria.

Ayah previu que, no futuro, as pessoas do sul viriam para o Grande Lago do Urso porque ele seria um dos poucos lugares com água para beber e peixe para comer. Disse que viriam tantos barcos que daria para andar de um para outro sem entrar na água. Simplificando, o lago seria o último refúgio da humanidade.

Gaudet disse que as previsões eram a grande razão pela qual o novo governo batalhou para garantir sua autoridade sobre todos da área, aborígenes ou não. "Se centenas de milhares de pessoas vierem por causa das profecias e porque temos a melhor água do mundo, terão que viver sob nossas regras", disse ele.

Os habitantes de Deline me disseram que o clima vem mudando nos últimos anos e que a temporada de verão é cada vez maior. O lago demora mais para congelar e derrete mais cedo. Neyelle disse que as mudanças climáticas deram um aspecto de urgência às profecias; elas podem se realizar mais cedo do que o esperado.

"Talvez agora estejamos na época onde tudo muda e as pessoas do sul vão começar a vir", disse ele.

Um ancião que conheci foi Charlie Neyelle, 72 anos, irmão mais velho de Morris Neyelle e representante dos anciãos no K'aowedo Ke, guia espiritual e de saúde mental da comunidade que batalhou pela autonomia e preservação do Grande Lago do Urso. Perguntei-lhe algo que já havia perguntado a muita gente durante minha estada em Deline: o que o lago significa para você?

Em resposta, ele me contou a história da água-coração, sobre um ancestral sahtuto'ine que viveu na região do lago, em uma área chamada Ponta Caribou. Um dia o pescador preparou quatro anzóis; quando voltou para checá-los, uma truta do lago havia partido uma das linhas e levado o anzol. Isso chateou o pescador, porque na época, eles eram extremamente valiosos. Naquela noite, ele se transformou em um losch, também conhecido como burbot, uma versão de bacalhau de água doce. O pescador nadou até o meio do lago para procurar o anzol e ouviu um som forte. Lá no fundo, viu um coração gigantesco batendo. Todas as espécies de peixes olhavam para o coração, cercando-o e protegendo-o. Ele nadou de volta para a margem e, na manhã seguinte, quando foi checar seus três anzóis, encontrou três trutas. Uma delas tinha o anzol que ele havia perdido no dia anterior pendurado na boca.

Quando o pescador viu o coração da água, percebeu que o Grande Lago do Urso estava vivo, disse Neyelle. "O lago dá vida ao universal: grama, insetos, salgueiros, tudo." Algumas pessoas em Deline acreditam que o coração da água no fundo dá vida a todos os lagos, oceanos e rios do mundo. Para os sahtuto'ine, essa crença mostra não só porque o Grande Lago do Urso deve ser protegido, mas também porque sua preservação tem importância global.

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