Thiago Momm/Estadão
Thiago Momm/Estadão

No Caribe, experimente os bons ares de Bonaire

O clima é quente (quase) o ano todo, as praias estão sempre na temperatura ideal e a tranquilidade é a marca do local; veja mapa 

Thiago Momm, O Estado de S. Paulo

12 Maio 2015 | 03h00

KRALENDIJK - O avião que decolou em Curaçau faz escala em Aruba antes de aterrissar em Bonaire. Ali vivem apenas 18 mil pessoas, o que não dá 20% da população de cada ilha vizinha. Daí as vastas áreas apagadas na noite vista do alto. As luzes se aglomeram em Kralendijk, a capital, no centro-oeste, e um pouco além. O norte, onde fica o Parque Nacional Washington Slagbaai; o sul, onde estão as dunas brancas de sal; e quase todo o leste, uma costa de ondas se chocando eternamente contra as pedras, são desses lugares ainda não acesos do planeta.

Em 1513, o governador do reino espanhol na região, Diogo Colombo, filho de Cristóvão, agourou Bonaire como “uma ilha inútil”. Era falta de senso lúdico e visual. Os espanhóis não alugaram um snorkel e uma scooter, como fizemos. Tampouco mergulharam por lazer em Wayaka II, que é como uma casa líquida com grandes paredes de coral, repleta de cômodos habitados por peixes de cores tribais. Quando as nuvens inquietas do Caribe terminam de passar, a tal casa acende por completo, inclusive seu emaranhado de fios solares no fundo, três metros abaixo da superfície. Um pouco adiante, os mergulhadores descem a até 30 metros de profundidade e avistam criaturas maiores. 

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Um visionário que intuiu o potencial de Bonaire para o mergulho foi Donal Stewart, o capitão Don, que ao chegar com o seu barco no começo dos anos 1960 notou “uma baía como que de vidro, um espectro de azuis cintilantes” e “peixes tropicais brilhantes de todas as variedades”. A ilha recebia então pouco mais de mil turistas por ano. Na mesma época, despontava no cenário Hugo Gerharts, hoje conhecido como “Mister Bonaire”. Ele e seu pai são icônicos para o turismo local, figuras que acreditaram no potencial da ilha quando ela ainda era um ponto irrelevante no mapa-múndi.

A lista é extensa. Para mencionar uma parte, o pai de Gerharts se envolveu na ida do primeiro voo comercial, um trimotor com 12 lugares da companhia holandesa KLM, em 1936, e na construção de estradas. Hugo foi o responsável pela ida do primeiro grande cruzeiro, o Bergenfjoni, em 1969, assim como pelo primeiro cinema, o primeiro clube noturno, o primeiro resort. Se o turismo local acordara nos anos 1960, duas décadas depois ele decolou. Charters traziam clientes das ilhas e países próximos para o clube de Hugo, E Wowo. O total de 23 empregados do pai tinha se ampliado para 345. Nos anos 1990, porém, veio a bancarrota, atribuída a boicotes de concorrentes. 

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Memórias. Paro a scooter diante da casa do “Senhor Bonaire”. Seu nome e sobrenome na caixa de correio, assim como a placa do seu extinto Sunset Beach Hotel, em uma rotatória próxima, estão descascando. Há, no entanto, iniciativas para enaltecer seu legado, como o documentário local Mr. Bonaire, lançado em dezembro. Hugo fez 84 anos dois dias depois que conversamos. Ele sempre foi um inquieto promotor de Bonaire, viajando por diversos países com folhetos turísticos debaixo do braço. Quando o Bergenfjoni atracou, ele estava em um aeroplano, fotografando a chegada. Nunca mergulhou, mas fez snorkeling e pode conversar sobre qualquer esporte aquático da ilha. Como se ainda estivesse exaltando-os para uma plateia, me lembrou que agora é possível fazer parasail.

Aponto uma contradição entre os seus negócios, que levavam Bonaire para uma linha cassino-festa-compra-resort como a de Aruba, e um elogio que fez sobre o aspecto mais tranquilo e natural da ilha. “Deveria haver um equilíbrio. Bonaire poderia ser duas vezes maior. Não quero que seja como Aruba, mas metade estaria ok”, responde, com a sua diplomacia de bom negociador.

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O turismo seguiu crescendo na ilha: os visitantes anuais, pouco mais de 50 mil no ano 2000, chegaram a 130 mil em 2014 (fora os cruzeiristas). Bonaire, em todo caso, encontrou um apelo próprio. O E Wowo fechou e as festas se diluem por alguns barzinhos. Há poucos resorts, e cassino, apenas um. O windsurfe se estabeleceu, criou campeões mundiais e é um dos grandes atrativos. A qualidade dos restaurantes remete à de ilhas maiores, mas Kralendijk é ainda uma capital de ares provincianos, com 4 mil moradores. Em diversas áreas, a paisagem se mantém inóspita, dominada por grandes porções de nada. É como se a lentidão subaquática modelasse muito da rotina e do turismo locais.

SAIBA MAIS

Como chegar: a Copa Airlines (copaair.com) voa até Curaçau via Panamá, desde R$ 2.370,96 ida e volta. Até Bonaire, siga com a InselAir (fly-inselair.com), que tem voos diários entre as ilhas (desde US$ 50 o trecho);

Taxas: US$ 10 (US$ 25 para mergulhadores);

Site: tourismbonaire.com 

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