No embalo do Flautista em Hamelin

 Não é todos os dias que você tem um personagem de contos de fadas, em pessoa, como guia. E eu tive esse privilégio. O flautista de Hamelin enfrentou ao meu lado as intempéries do verão alemão em uma tarde gelada e chuvisquenta de junho, sem perder o bom humor ou o fio da meada.

Adriana Moreira/Estadão,

06 Agosto 2013 | 12h04

Ok, sei o que você está pensando: Deus me livre desse mico. Eu pensei o mesmo quando, no centro de informações turísticas, o personagem me aguardava paramentado, de flauta na mão e sapato de bico enroladinho. Mas a verdade é que a experiência foi, além de divertidíssima, superinformativa.

O americano Michael Boyer, um dos atores que incorporam o personagem, não se restringe apenas a contar a história romantizada pelos Irmãos Grimm – um flautista que livra a cidade dos ratos e, decepcionado por não receber do prefeito o combinado, leva as crianças embora. A cidade, de 60 mil habitantes, tem um centro histórico gracioso, com casinhas de estilo enxaimel e lojas com uma incrível variedade de lembrancinhas em forma de ratos.

“Há ratos por toda parte. Eles só se lembram dos ratos”, queixa-se o flautista. De fato: eles estão também em placas pelo chão do centro antigo e até na ponte de pedestres sobre o Rio Wesser.

O flautista salta de um lado para o outro, toca uma canção e, de repente, entra em um bar, o Gaststatte Rattenfangerhaus – “A Casa do Flautista”, em bom português. Ademais do nome e da decoração com pinturas do ícone de Hamelin, a casa guarda, do lado de fora, uma inscrição do século 16 que lembra o desaparecimento das 130 crianças na cidade em 1284. Como se pode notar, a história real não é exatamente um conto de fadas.

Assim seguimos, durante cerca de 1h30 de passeio (e algumas paradas para fotos com turistas – o flautista é muito popular). Descubro que na Catedral de St. Nicolai, construída entre 1220 e 1230, havia um antigo vitral. No lugar de santos, trazia a imagem de um homem de roupas coloridas, cercado de crianças. Conta-se que seria o filho de um rico comerciante. Durante a 2.ª Guerra Mundial, o vidro foi removido para evitar sua destruição, mas jamais foi encontrado – hoje, há outra versão em seu lugar.

Ao lado da igreja são apresentadas duas peças teatrais diferentes, que têm o flautista como tema. De maio a setembro (este ano, até dia 16), ao meio-dia, um espetáculo bem família, com 30 minutos de duração e crianças da cidade vestidas de ratinhos. Às quartas-feiras, às 16h30, o musical Rats tem 40 minutos de duração e atores profissionais. Ambos são gratuitos.

Meu tour com o flautista terminou no Museu de Hamelin, que conta um pouco da história e da ocupação da cidade e reúne um vasto material sobre a lenda – e suas várias versões – que deu fama à cidade. Além de ver as centenas de traduções da saga, é possível assistir à versão produzida pela Disney e à criativa montagem feita com exclusividade para o museu, com objetos reciclados. Apesar das poucas falas serem em alemão, você não terá dificuldades para entender. Antes de entrar na sala cheia de pufes, 130 sapatinhos representam as crianças desaparecidas.

Quem me acompanha nessa parte do tour é a guia Katharina Hucks. Ela fala sobre a temida lenda que dizia que o flautista voltaria para pegar mais crianças. E explica que a população da cidade vem diminuindo – os jovens saem de Hamelin para fazer faculdade, mas não retornam. Seria obra do flautista?

Final feliz? A história é real: 130 crianças desapareceram de Hamelin em 26 de junho de 1284. O que de fato aconteceu? Eis o mistério. Uma das versões dá conta que um viajante de roupas coloridas chegou à cidade oferecendo empregos fora de Hamelin. Na Idade Média, apenas o filho mais velho tinha direito à herança e só a primeira filha se casava.

 

Os outros ficavam à própria sorte. Com possibilidade de construir a vida fora da cidade, teria sido seguido por jovens (era comum trabalharem já aos 10 anos). Mas todos desapareceram sem vestígios – há quem diga que foram vendidos como escravos. Quando os Irmãos Grimm publicaram a primeira versão de lendas alemãs, não havia final feliz: as crianças morriam. Os ratos foram adicionados em edições posteriores (como uma metáfora para a morte das crianças) e o flautista se transformou em um herói.

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