Jaime Borquez/Divulgação
Jaime Borquez/Divulgação

No norte da Patagônia chilena, geleiras e belas paisagens

São quilômetros de estrada ou horas de navegação pela região de amplos horizontes e que tem na geleira San Rafael seu principal atrativo

Gustavo Lopes / Puerto Chacabuco, O Estado de S.Paulo

07 Março 2017 | 05h05

A primeira coisa que se nota na Patagônia é sua imensidão. Para qualquer passeio que se deseje fazer nessa região natural que abarca quase um terço dos territórios do Chile e da Argentina são necessários quilômetros e quilômetros de deslocamento. É preciso ter paciência e persistência. Mas não só: inclua na lista de requisitos básicos os olhos bem abertos, atentos à sequência de surpresas entre pampas, montanhas, lagos e geleiras que se mostram às margens da Carretera Austral, a rodovia que permite o tráfego terrestre pela Patagônia no lado chileno.

Minha visita às atrações mais ao norte da Patagônia chilena foi feita durante o verão, sob temperaturas entre os 5 e os 25 graus. Chegou a fazer calor, apesar do gelo eterno que enfeita os cumes de várias montanhas. A base foi a cidadezinha de Puerto Chacabuco, que tem cerca de 1.200 habitantes e fica na região de Aysén.

Até mesmo para alcançar Puerto Chacabuco o visitante percebe que, nessa área, a visita à Patagônia chilena é uma viagem formada por várias viagens. Desde São Paulo, o tempo de voo soma umas sete horas, graças à necessidade de conexão em Santiago. Do aeroporto mais próximo, em Balmaceda, até Chacabuco são mais 140 quilômetros ou duas horas de carro.

Os dias seguintes continuaram a ser marcados pelos longos trajetos, em passeios com duração total de até 12 horas. Não que isso fosse um problema: além de tudo o que há para ver das janelas dos veículos, os dias longos ajudavam. No verão, o sol se põe depois das 22h30. Ainda era dia quando voltávamos ao hotel.

SAIBA MAIS:

Aéreo: a Latam (latam. com/pt_br) voa a Balmaceda, desde R$ 1.200 Onde ficar: em Puerto Chacabuco, o hotel Loberías del Sur lembra uma casa de campo toda de maidera. O restaurante tem vista para o canal de Puerto Chacabuco e serve peixes e frutos do mar, com os mexilhões como destaque. Pacote de 6 noites a US$ 1.640 por pessoa, com pensão completa e excursões; versão compacta, de 4 noites, a US$ 1.380 por pessoa: www.loberiasdelsur. cl/pt-br/hotel

Mais conteúdo sobre:
AméricasChileChile

Encontrou algum erro? Entre em contato

Um brinde na cobiçada geleira San Rafael

Cinco horas de navegação em um catamarã para ir, outras cinco para voltar. No meio, uma hora e meia de puro deslumbre, entre blocos de gelo que se desprendem de paredões de até 100 metros de altura. A visita à geleira San Rafael é o passeio mais desejado em Aysén, este trecho da Patagônia chilena.

Puerto Chacabuco, O Estado de S.Paulo

07 Março 2017 | 03h50

Em Puerto Chacabuco iniciamos a viagem embarcando no catamarã Del Sur por volta das 7 horas da manhã. A embarcação tem dois andares – o de cima, com sofás e um bar, é o mais descontraído –, área externa, capacidade para até 120 pessoas e navega a uma velocidade média de 45 quilômetros por hora. No trajeto de 200 quilômetros até a geleira San Rafael há tempo para refeições, incluídas no preço de 200 mil pesos chilenos (R$ 960; bit.ly/catamaradelsur). O ceviche de salmão, servido com vinho branco ou tinto, estava ótimo.

Durante o percurso, montanhas verdes em contraste com seus próprios cumes cobertos de neve desfilam diante dos olhos dos visitantes. Também é possível observar salmoneiras, pequenas estruturas para a pesca de salmão. Já avistar os leões-marinhos é questão de sorte: naquele dia, apareceram apenas uma vez, e mesmo assim num rápido aceno.

Como icebergs. Finalmente chegamos à Laguna San Rafael, no parque nacional de mesmo nome. Na aproximação da geleira, podemos observar grandes blocos de gelo azulados que boiam nas águas, resultado do desprendimento da parede glacial causado principalmente por mudanças climáticas. Alguns lembram icebergs.

A majestosa geleira tem até 2 quilômetros de largura. O catamarã se mantém a uma distância segura do paredão, e os turistas, equipados com itens de segurança, são separados em pequenos grupos para embarcar em botes. Piloto, copiloto e guia são responsáveis por levar os visitantes o mais perto possível da geleira – e isso significa cerca de 500 metros de distância, dada a dificuldade de desviar dos cada vez mais numerosos blocos de gelo flutuantes.

De volta ao catamarã, é hora de seguir para o bar, onde são servidos o drinque tipicamente chileno, pisco sour, e o “uísque milenário”, servido com o gelo formado há milhões de anos, recolhido nos arredores da geleira San Rafael. Feito o brinde, a viagem de volta a Puerto Chacabuco é animada por música tradicional chilena e até um karaokê a bordo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Parque Aikén del Sur: trilha e cachoeira

Para aventureiros que gostam de trilhas, o Parque Aíken del Sur é boa pedida em Puerto Chacabuco. O parque é privado, pertence ao Hotel Loberías del Sur e guarda diversas belezas naturais em uma área de mais de 250 hectares.

Puerto Chacabuco, O Estado de S.Paulo

07 Março 2017 | 03h51

Na trilha principal, chamada de Sandero del Salto e de nível fácil, o guia apresenta alguns destaques da biodiversidade local. As flores roxas, brancas e rosas do lupino. A nalca, planta pré-histórica que serve para fazer salada e geleia. Em um determinado momento da caminhada, o guia chama a atenção do grupo para a possibilidade de que algum puma apareça – o que, infelizmente, não ocorreu.

A cachoeira Barba del Viejo (barba do velho) surge em meio a muito verde, 1h15 depois do começo da caminhada. Também é possível fazer boa parte do trajeto de carro e caminhar apenas os 15 minutos finais. Tem 22 metros de altura e suas águas são resultado de degelo. Para as selfies, há um mirante e bancos por ali.

Mas não foi a chegada à cachoeira que encerrou o passeio. O grupo foi conduzido a um restaurante nas proximidades, com vista impressionante do Lago Riesco, para provar o típico churrasco patagônico: um cordeiro inteiro assado num fogareiro no chão, e servido com batatas, vinho e pisco sour. Enquanto isso, um grupo apresentava danças típicas que lembram muito as danças tradicionais dos gaúchos brasileiros.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Capillas de Mármol, esculturas da natureza

Séculos de erosão causada pela movimentação das águas do Lago General Carrera esculpiram formações minerais de carbonato de cálcio e deram às rochas um aspecto de mármore. Declaradas patrimônio da Unesco em 1994, as Capillas de Mármol (capelas de mármore) representam um passeio de dia inteiro a partir de Puerto Chacabuco. Lá vamos nós para a estrada.

Puerto Chacabuco, O Estado de S.Paulo

07 Março 2017 | 03h52

São 320 quilômetros pela Carretera Austral até a comunidade de Puerto Tranquilo, de onde saem os botes que levam às capelas. O grupo de 24 turistas vai num ônibus 4X4 porque, a partir da vila de Cerro Castillo, 50 quilômetros adiante, o asfalto dá lugar a cascalho.

No caminho passamos por pequenas vilas tipicamente patagônicas como a de El Blanco, com seus 400 habitantes, onde existe uma escultura em homenagem ao chimarrão. Mais para a frente, o guia avisa que passaremos pela área chamada de Costa do Diabo, nome devido à dificuldade que antigos habitantes da área tinham de andar por aquelas bandas, que estão 800 metros acima do nível do mar.

Em todo passeio há paradas em mirantes para apreciar paisagens. Dentro de uma reserva podemos ver placas alertando para a preservação do huemul, um cervo da região sul dos Andes que é um dos símbolos nacionais do Chile. São animais protegidos por lei, matá-los é crime. O destaque seguinte é um bosque sem vida, que destoa do verde da região e não à toa leva o nome de Bosque Muerto. Culpa das cinzas do Vulcão Hudson, que entrou em erupção em 1991 e acabou com a vida animal e vegetal por ali.

É no bosque que paramos para o almoço. A guia aproveita para colher calafates, frutinhas que lembram o mirtilo – diz-se que quem prova de seu sabor levemente amargo volta à Patagônia.

O Lago General Carrera é o maior do Chile e chega ao território argentino, onde recebe o nome de Lago Buenos Aires. Em Puerto Tranquilo, embarcamos em pequenas lanchas para dez pessoas e seguimos em navegação pelas águas verde-azuladas e muito transparentes.

A visita às Capillas de Mármol fica ainda melhor porque as pequenas embarcações podem acessar o interior de cavernas, onde se vê em detalhes as esculturas naturais e a bela diversidade de cores nas paredes rochosas. O passeio todo, com refeições, custa 80 mil pesos chilenos (R$ 383).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Banho de águas quentes na Ensenada Pérez

As águas termais da Enseada Pérez são uma atração da Patagônia chilena recentemente aberta ao público. Acompanhamos uma viagem de teste com a equipe do Hotel Loberias del Sur para analisar a estrutura à disposição dos visitantes. Para não hóspedes, o hotel vende o passeio a 100 mil pesos chilenos (R$ 480), com visita também ao monumento natural Cinco Irmãs.

Puerto Chacabuco, O Estado de S.Paulo

07 Março 2017 | 03h54

Foi um dos passeios mais próximos de Puerto Chacabuco que fizemos. O trajeto tem duração de uma hora e é feito em um catamarã com 90 lugares. No entanto, as termas só podem receber 54 pessoas por dia. A Enseada Pérez possui duas piscinas naturais cujas águas variam sua temperatura ao sabor dos humores do Vulcão Maca, responsável pelo aquecimento natural.

No dia da nossa visita, a temperatura estava em 45 graus, o que permitiu o banho – acima desse valor, turistas não são autorizados a entrar na água. A vista é para a natureza e as montanhas do entorno.

O local tem chuveiros – gelados – e espaço para pendurar roupas e toalhas. Depois de uma hora mergulhados nas águas quentes, fomos convidados a uma volta de bote para admirar outros veios de águas quentes que brotam por ali. Estes, sem permissão para mergulhos.

No trajeto de volta do passeio passamos pelo monumento natural Cinco Irmãs. São cinco pequenas ilhas, que formam uma reserva de 228 hectares, e cujo acesso pode ser feito tanto via Puerto Aysén (distante 50 quilômetros) quanto pelo caminho que fizemos a partir de Puerto Chacabuco.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.