No precioso vale ensolarado

Terra do pisco, de comunidades esotéricas, observatórios astronômicos e da poetisa Gabriela Mistral, entorno do Rio Elqui é um surpreendente lado pouco divulgado do país

TIAGO QUEIROZ / VICUÑA, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2011 | 03h08

Cheia de passageiros cansados, mas felizes, a van percorre a estradinha de mil curvas. Momentos antes, na última parada da excursão, havíamos sido apresentados ao indescritível sorvete de lucuma, fruta parecida com a abóbora, em uma antiga sorveteria do centro de Vicuña. Teria sido o encerramento perfeito daquele dia que, no entanto, ainda nos reservava um momento inesquecível: à frente, um pastor a cavalo conduzia, com a ajuda de dois cães, centena de ovelhas morro abaixo. Uma daquelas cenas que você acha que ficaram perdidas em um passado remoto. Mas que fazem parte do presente no Vale do Elqui.

Místico e precioso são alguns dos adjetivos que os chilenos usam para se referir à região, pouco menos de 500 quilômetros ao norte de Santiago, capital do Chile. Terra do pisco, de comunidades esotéricas, de observatórios astronômicos e da poetisa Gabriela Mistral. Nos arredores, a litorânea La Serena é a maior cidade. De lá partem passeios guiados de um dia inteiro pelas comunas, as vilas que se estendem ao longo do curso do Rio Elqui.

Às 7 horas, horário de saída do tour, faz frio e a névoa mal deixa ver as primeiras plantações de papaya na beira da estrada. Apesar da aparência similar à do mamão, a fruta é boa para fazer suco e doce em calda, mas não para ser comida crua, explica o guia Alejandro Arellano.

À medida que a manhã avança, o frio dá lugar ao calor característico do norte do Chile (tenha garrafinhas de águas sempre à mão), e as plantações de papaya, aos parreirais. Um mar de uvas moscatel que ajuda a compor a paisagem tricolor: o verde da vegetação, o cinza das montanhas rochosas e o azul do céu. Cada curva descortina cenários que são fotografias prontas à espera do clique certeiro.

Plantações de pimenta, lucuma, chirimoya e palta (ou abacate) se mostram no caminho. Tudo graças à ausência de vulcões na região, que resulta em menor concentração de minérios no solo e na água em comparação ao restante do país - uma das explicações para a fertilidade local.

Outra marca do Vale do Elqui são seus observatórios astronômicos, por conta da limpidez do céu e da ausência de luz à noite. Os mais antigos são o amador Mamalluca (mamalluca.org) e o profissional Cerro Tololo (www.ctio.noao.edu), abertos a visitas agendadas com antecedência. Está em construção um telescópio para detectar asteroides que possam colidir com a Terra.

Preciosas. É com orgulho que o guia Alejandro Arellano cita a rara mina de lápis-lazúli que fica na região, uma das únicas no mundo. A pedra semipreciosa é usada para fabricação das joias características do país, vendidas por toda parte em Santiago.

O vale também guarda minas de urânio, cobre, quartzo, magnetita e manganês. Parte delas foram exploradas pelos dieguitas, povo que habitava a região antes da chegada dos espanhóis. Algumas são abertas a turistas e preservam pinturas geométricas pretas e vermelhas, que são reproduzidas em vasos e pratos vendidos em lojas locais.

Quando chega a hora do almoço, somos levados ao surpreendente Cocinas Solares, no povoado de Villaseca. O restaurante dispensa o uso de energia elétrica, gás ou lenha. Todos os pratos são preparados nos chamados fornos solares: caixas espelhadas que, instaladas ao ar livre, refletem a luz do sol e usam o calor para cozinhar os alimentos. Gerenciada por uma cooperativa de mulheres, a casa serve receitas típicas como o cabrito com batatas e arroz e o pastel de choclo, torta de milho com carne e ovos cozidos. A refeição é acompanhada por uma generosa taça de vinho e termina em uma opção de sobremesa bem chilena: o mote con huesillos, grãos de trigo cozidos em caldo de pêssego.

Reverência. Em Monte Grande, a casa da poetisa Gabriela Mistral, tornada museu, é a principal atração. O silêncio com que os visitantes leem seus manuscritos, seu olhar de admiração, o tom de voz solene do guia, a simplicidade do quarto da poetisa, conservado com seus pertences - tudo cria uma atmosfera quase religiosa no ambiente. Fotos são proibidas ali. Mas a câmera pode registrar outras imagens interessantes. Como a saída dos estudantes do - adivinhe? - Colégio Gabriela Mistral.

Como o ensino no Chile funciona em período integral, o término das aulas significa também o fim de mais um dia ensolarado.

Chile

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