No ritmo do taikô

Por seu clima e localização, Okinawa é uma espécie de paraíso tropical dos japoneses. Aos que chegam, seu povo diz mensorê! (seja bem-vindo), num dialeto muito diferente do idioma padrão do Japão. A temperatura média é bem mais alta do que nas demais regiões nipônicas. Mesmo no inverno, quando o norte do país registra temperaturas de até 10 graus negativos, no extremo sul do arquipélago em poucas ocasiões a mínima cai abaixo dos 10 graus - e as máximas passam dos 30 graus.

JORGE J. OKUBARO * / NAHA, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2012 | 03h09

A cor do Oceano Pacífico varia de um azul cobalto vivo a um verde esmeralda brilhante, qualquer que seja o ponto de onde ele seja avistado. E são muitos nesta ilha espichada, cuja largura mínima é de poucos quilômetros - o que permite ver o mar de um lado e de outro - e o comprimento mal passa de 100 quilômetros. A sensação de liberdade que se tem ao conversar com seu povo, nas ruas das cidades ou mesmo pelas localidades menos habitadas, é rara num país de rígida disciplina social e forte noção de respeito ao próximo.

Estas são algumas das razões que fazem de Okinawa um local muito diferente do resto do Japão. Na província se produz até mesmo o abacaxi, planta típica de clima tropical originária da América. Encantados com esse fenômeno, japoneses vindos de outras regiões adoram tirar fotos ao lado de um pé de abacaxi. Por tudo isso, Okinawa merece a fama que vem desfrutando no país, já que se tornou um dos principais destinos para o turismo interno.

Okinawa não é, porém, muito conhecida dos turistas brasileiros. É um tanto curioso o relativamente escasso conhecimento de Okinawa entre nós. Embora seja uma das menos populosas das 47 províncias japonesas - sua população corresponde a pouco mais de 1% do total de habitantes do Japão -, Okinawa foi a que mais emigrantes enviou para o Brasil.

Estima-se que vivam hoje por aqui cerca de 300 mil okinawanos e seus descendentes, sobretudo nos Estados de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul. É a maior população deles fora da província - maior até do que a do Havaí, de onde está bem mais perto do que do Brasil. Recentemente, uma parte desses okinawanos-brasileiros (incluindo este jornalista) teve oportunidade de visitar a terra de seus antepassados (leia na pág. 11) e conferir de perto boas razões para os turistas brasileiros visitarem o destino.

Arte e cultura. O ritmo do taikô - os tambores que estão se transformando em um dos símbolos mais admirados da região - embala o visitante em uma viagem pela cultura local. Apenas uma amostra do que a província tem a oferecer.

A tradição e história do antigo reino de Ryu Kyu (nome do arquipélago do qual a ilha de Okinawa faz parte), afinal, estão visíveis por todos os lados. Nas ruínas que se espalham pela ilha ou no esforço para recuperar o que foi destruído na guerra, como o Castelo de Shuri - hoje, reconstruído. Aqui, cabe um triste parêntesis: quase um terço da população da província morreu durante a batalha travada na ilha na fase final da Segunda Guerra Mundial.

Os centros de artesanato, que preservam as técnicas antigas de cerâmica e da arte da laca, são outro destaque. As artes, aliás, são uma marca da região. Como a tecelagem, baseada no uso dos fios da folha de bananeira, dos quais se faz o bashofu, e o tingimento de tecidos em cores vivas, conhecida como bingata.

Pela capital, Naha, perca-se pelo movimentado comércio da Kokusai Dôri (Rua Internacional), onde é fácil encontrar restaurantes com preços razoáveis. E descubra a sucessão de lojas de variados artigos do Ichiba-hon Dôri (Rua do Mercado - no dialeto local, os mais velhos chamam de Machiguá) e ao longo da Heiwa Dôri (Rua da Paz).

Os motivos para visitar a província se espalham por todas as partes do arquipélago. Ao norte, o aquário futurista Churaumi, que abriga até tubarões-baleia, é um dos cartões-postais mais famosos.

Sempre em paz. O okinawano é um povo cuja alegria - natural, espontânea, aberta e nítida na maneira afável com que recebe e encanta os visitantes - não deixa transparecer a imensa tragédia trazida pela guerra, que marcou sua história (leia mais ao lado). Por esse motivo, talvez, seja um povo que tanto cultiva a paz. Até mesmo na música: a palavra "paz", assim como "futuro", é constante nas canções locais que se tornaram populares nos últimos anos.

Os okinawanos chamam sua terra de Uchiná - e sua língua, de uchiná-guchi. A si mesmos se referem como uchinanchu. Para os que descendem deste povo, foi criada a expressão ichariba chodê, que quer dizer "se nos encontrarmos, seremos irmãos". É o sinal explícito de afeto por todos os okinawanos e seus descendentes, onde quer que tenham nascido e vivam. Mas não é preciso ser um descendente para merecer boa acolhida em Okinawa. O okinawano adora receber visitas. Mensorê!

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