Nobel para uma alma de viajante

O francês Le Clézio roda o mundo desde criança. E se inspira nesses cenários para escrever sucessos

Mônica Nóbrega, O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2008 | 02h50

A alma de viajante já rendeu bons frutos ao escritor francês Jean-Marie Gustave Le Clézio. O mais recente (e importante) foi o Prêmio Nobel de Literatura, anunciado há pouco mais de uma semana e comunicado ao autor enquanto ele estava em Paris para divulgar seu trabalho, em uma escala entre a Coréia do Sul e o Canadá. Sorte dos repórteres: na capital francesa fica a sua atual editora, a Gallimard, em cuja sede foi improvisado um auditório para a entrevista coletiva pós-divulgação do prêmio. Porque Le Clézio poderia estar em qualquer lugar. Casas, por exemplo, ele tem três, em igual número de continentes. O estilo de vida itinerante ainda não tornou o escritor muito conhecido no Brasil (foi convidado para a Flip de 2007, mas não pôde comparecer). Mesmo assim, ele se diz apaixonado pela América Latina, onde já morou, e ligado ao País por meio do livro Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, "uma aventura, algo extraordinário", que influenciou definitivamente o seu trabalho. A biografia do autor explica bastante dessa curiosidade sobre o mundo.Le Clézio nasceu em Nice, no sul da França, e ainda mantém uma casa nessa cidade de frente para o Mediterrâneo - mora ali alguns meses por ano. A primeira mudança de endereço veio quando seu pai, médico, foi destacado para atender na Nigéria durante a 2ª Guerra. Na viagem de navio até o país africano escreveu suas duas primeiras obras, Un Long Voyage e Oradir Noir. Naquela época ele tinha 7 anos. Hoje está com 68. Quando era estudante, morou novamente em Nice, depois em Londres e em Aix-en-Provence. Mas, aos poucos, foi se afastando da velha Europa. Nos anos 70, defendeu tese de doutorado na Cidade do México e resolveu viver entre índios, ali e no Panamá. "Escrever não é apenas sentar à mesa consigo mesmo. É escutar o ruído do mundo", costuma dizer. AreiaA fama veio com o romance Deserto (1980), que tem as areias do Saara como cenário. Paisagens semelhantes, aliás, estão entre os destinos preferidos do autor. Sua mulher, Jemia, é marroquina. E a dupla passa boa parte do ano na casa de Albuquerque, no Novo México, Estado americano famoso entre os turistas por causa de seu inclemente deserto. O escritor se considera francês, mas costuma dizer que sua pátria é Maurício, a ilha de origem de sua família no Oceano Índico, perto de Madagáscar. Na entrevista para comentar o prêmio Nobel, ele fez questão de homenagear o pequeno país - onde fica o terceiro endereço fixo do casal Le Clézio. EstanteO Africano (2007), a obra mais recente de Jean-Marie Gustave Le Clézio publicada no Brasil (Ed. Cosac Naify, 112 págs., R$ 42), é uma mistura de relato de viagem com autobiografia. Narra a história de seu pai, médico militar que trabalhou nas colônias inglesas da África entre 1928 e 1950. Passagens por povoados são descritas na obra, que ainda inclui memórias de infância do escritor e fotos de seu arquivo pessoal. A Cosac Naify anunciou também a compra dos direitos de Ballaciner, com entrevistas sobre o cinema. Outros cinco livros de Le Clézio foram publicados no Brasil: O Peixe Dourado (2001), A Quarentena (1997), Diego e Frida (1994), O Deserto (1986) e À Procura do Ouro (1985). Os três últimos estão esgotados.  

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