Arte|Estadão
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Norte-coreanos não viajam

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2016 | 03h00

Nosso incansável viajante está de volta à Namíbia, seu destino preferido para a observação de pássaros. Apesar de proibida por lei de estar em área de safáris fotográficos, sua mascote Trashie recebeu uma autorização especial do governo em razão “de seus primorosos antecendentes”. A seguir, o viajante comenta a polêmica da semana.

Caro Mr. Miles: como leitor assíduo de sua coluna, imagino que a medida de taxar em 25% viagens ao exterior tenha caído como uma bomba em meio a suas propostas positivas. Acertei? - Mauro Schwartz, por e-mail

Well, my friend: li a noticia e, sim, estou absolutamente devastated. A crise é conhecida e, well, o governo precisa encontrar saídas para seus desequilíbrios financeiros. Mas jamais pude esperar que um governo cujo slogan é ‘Brasil, pátria educadora’ fosse tomar uma atitude tão inadequada. Não é preciso ser meu leitor, nem mesmo compreender o idioma tão complicado que vossa presidente utiliza (estou em busca de um professor, by the way), para saber que não há nada mais educativo do que viajar.

Quanto mais as pessoas se aproximam umas das outras fisicamente (not virtually, please!), mais educadas ficam. Além dos conhecimentos que qualquer viagem proporciona, as pessoas ganham horizontes. Por meio do ato de ver como são os outros povos, como eles vivem, no que creem e o que planejam, as pessoas educam-se mais do que, unfortunately, em precárias escolas públicas com professores miseravelmente remunerados.

Não costumo palpitar, por educação, nas crises de países que não são o meu – embora, as you know, o Brasil viva dentro de todas as minhas melhores malas.

However, tributar o conhecimento – que é, in fact, o âmago dessa medida –, parece-me um pouco demais. Don’t you agree?

Os mais jovens talvez não se lembrem, mas houve um tempo – durante a ditadura militar a que todos se opuseram de forma legítima e que levou o atual partido ao poder – em que, para inibir viagens, o governo impôs o pagamento de um acintoso empréstimo compulsório. Lembro-me que um velho amigo, o grande tributarista João Francisco Bianco, então um discente na muito reputada Faculdade de Direito de São Paulo, no Largo de São Francisco, pertencia, as well, a um divertido conjunto musical chamado Esculepsi Salaçinha (ou algo do gênero). O grupo foi responsável por uma divertida homenagem à medida emburrecedora que ora se repete. Dizia o estribilho da canção: ‘Só como 12 mil, só com 12 mil é que você vai pra fora do Brasil. Sem os 12 mil, sem os 12 mil, você só vai para...’ Well, procurem a rima.

Eis que o vício se repete. E nem significa muito financeiramente. É mais uma bobagem ideológica do tipo é-preciso-taxar-as-viagens-porque-só-os-mais-ricos-viajam.

Oh, my God! Rende muito mais divisas taxar a estupidez. Estimo que, em um breve futuro, o Brasil possa retomar seu caminho. Não sei quanto tempo: meses, anos, as soon as posible, I hope!

Milhares de pessoas deixarão de ter tido a educadora experiência de trocar ideias, conhecimentos, impressões; de fazer cursos, aprender idiomas, interessar-se por pesquisas and so on. Pior: pode ser que elas percam o hábito. Para os que não se lembram, 20 anos atrás a maioria dos brasileiros que conseguia juntar um pouco de dinheiro preferia trocar de carro a aventurar-se pelo mundo. Isso melhorou muito. Ajudou-nos (ops, sorry por colocar-me entre vós, mas é o que sinto) a ser mais abertos, tolerantes e democráticos.

Receio que dê tudo errado. E lembro, a quem possa interessar, que há um outro país em que as pessoas são proibidas de viajar: a vicejante, próspera e cosmopolita Coreia do Norte. Que o deus dos que transitam, observam e aprendem ilumine o caminho dos que pontificam, apregoam e legislam.”

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