Bruna Toni/Estadão
Bruna Toni/Estadão

Nós somos

A história do Dia Internacional da Mulher, as viagens e a quebra de estereótipos do que somos

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

13 Março 2018 | 03h00

Ela não usava lenço como muitas outras meninas da escola que compartilhavam da mesma religião. A partir do momento que menstruasse, seria uma escolha dela usar ou não, me explicou. Uma colega nossa, muçulmana também, usava. Essa não teve escolha. Mas acabou se envolvendo com um amigo “católico não praticante” a quem revelava, em lugares secretos, seus fios longos e escuros – e alguns pintados de loiro na parte da frente.

Poderia ser uma escolha estética: uso lenço nos cabelos ou fico melhor sem? Poderia ser apenas uma prova de amor: ele seria o único garoto da sala que a veria assim. Eu, da altura dos meus 14 anos, já sentia um quê de orgulho ao vê-las serem diferentes daquilo que se esperava que fossem. 

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O Dia Internacional da Mulher, celebrado dia 8, fez chover “homenagens” dispensáveis, machistas e chinfrins. Por outro lado, instigou ações interessantes – o Estado trouxe, por exemplo, histórias de violência contra mulheres contadas por suas colunistas e blogueiras na campanha #DeUmaVozPorTodas

Proclamada em 1910, na Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague, na Dinamarca, o Dia Internacional da Mulher nasceu de um movimento de mulheres trabalhadoras que lutavam pelo direito ao sufrágio universal. A data foi celebrada em diversos países em dias diferentes por alguns anos. Apenas em 1921, na União Soviética, que o 8 de março foi escolhido, uma homenagem à Revolução Russa de Fevereiro de 1917 (8 de março no calendário gregoriano, 23 de fevereiro no juliano) e às mulheres que dela participaram ativamente. A ONU só oficializou a data em 1975. 

Entre as incontáveis mulheres desta história, a alemã Clara Zetkin (1857-1933) é uma das mais lembradas. Foi ela a responsável por organizar as conferências das mulheres socialistas, contribuindo para internacionalizar o movimento feminista, e a defender o Dia Internacional da Mulher. Em sua homenagem, há dois parques com seu nome na Alemanha,  um em Leipzig, onde estudou, e outro em Berlim.

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Encontrar as estátuas que imortalizam Clara Zetkin em ambos os parques; visitar a casa onde Frida Kahlo viveu no México; se deparar com o busto de Agatha Christie em Londres; conhecer os dias de resistência de Anne Frank em Amsterdã; presenciar a luta das Mães (e avós) da Praça de Maio, na Argentina; se emocionar diante de um quadro de Tarsila do Amaral;  ver Etiene Medeiros se tornar a primeira campeã mundial brasileira na natação em Budapeste. 

Quantas experiências como viajante nos colocam diante de mulheres do passado e do presente? E, se prestarmos atenção, quantas nos apresentam novas mulheres, novos movimentos? Foi assim quando, no ano passado, em Londres, me vi diante da exposição I AM (EU SOU), com obras de 31 artistas contemporâneas de 12 países do Oriente Médio.

A mostra itinerante, que começou na Jordânia e chega aos Estados Unidos no dia 5 de abril, é a quebra de estereótipos, de convenções, de clichês sobre o que somos e o que queremos ser. Está lá a fotomontagem em branco e preto de uma mulher muçulmana com os trajes longos, refletindo sobre sua jornada rumo ao paraíso ( Eden, Marwa Adel); a imagem de uma mulher libanesa, com braços e cabelos expostos e roupas coloridas ( A Força Está nas Mãos da Mulher, Zena Assi); os transgêneros homens que expressam sua feminilidade nas fotografias de Faten Gaddes ( Reemy, Estefanoo, Cayenne). 

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As histórias que compartilhei no início deste texto poderiam estar em I AM. Não só por minhas amigas terem origem árabe tal qual as artistas e as mulheres por elas retratadas na exposição. Mas porque, depois de 15 anos, pude compreender melhor o tamanho do que elas fizeram àquela época. Percebi aquele sorriso voltar ao meu rosto. Às suas maneiras, elas também quebraram estereótipos. Usar o lenço ou não era decidir sobre elas mesmas em um mundo que ainda insiste em nos castrar. Mostrar o cabelo ao rapaz não era prova de amor, apenas. Era se permitir a ser o que se queria ser. I am. Ou melhor, we are (nós somos). 

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