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Nós somos chatos

Não aceitamos 'não' como resposta: o brasileiro contrariado se transforma em uma criança birrenta

Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2019 | 05h32

O brasileiro viajante é, antes de tudo, um chato. Desculpe se você é brasileiro, viajante e chato (eu também sou), mas essa é a realidade. Nós somos chatos.

Sim, o brasileiro é alegre e divertido, faz amizade fácil com qualquer nacionalidade. Mas também fala alto, é espaçoso e, como uma criança birrenta, quando é contrariado só falta se jogar no chão e espernear. Não aceitamos “não” como resposta: estamos acostumados ao “jeitinho”, ao sorriso que abre portas, à camaradagem por conveniência que não funciona em todos os lugares. 

“Ah mas nem todo brasileiro se comporta assim”, você pode dizer. Pode fazer seu exame de consciência aí e lembrar quando você foi um turista chato: em algum momento, você foi essa pessoa. Eu, por exemplo, sou aquela que no avião empurra a poltrona da frente com o joelho. Juro que tento me policiar, mas às vezes escapa (ou estou cansada demais para me importar – desculpa padrão dos chatos). 

Certa vez, o programa de TV norte-americano Saturday Night Live fez uma esquete divertidíssima reproduzindo o comportamento dos brasileiros em aeroportos. Na cena, atendentes tentavam convencer (em vão) passageiros brasileiros e italianos a não ficarem na fila de embarque sem serem chamados. Enquanto isso, os viajantes faziam ouvido seletivo, fingindo não entender quando os avisos não lhes eram convenientes (quem nunca?). Engraçado demais, justamente por ser tão real.

Como não ser chato

Quando eu era adolescente, a resposta padrão para certas provocações entre colegas era: “a sua liberdade termina quando começa a do outro”. Parece que falamos tanto isso no passado que esquecemos o quanto essa premissa é importante. No meu último voo da Europa para o Brasil (diurno), embora a comissária de bordo pedisse para fechar as janelas para o conforto de todos, certos passageiros insistiam em deixá-las abertas. “Eu quero ver”, disse uma mulher, que recebeu como resposta “mas tem gente que quer dormir, e esse é um espaço coletivo”. Adiantou? Não. Ela abriu e fechou a janela centenas de vezes ao longo de doze horas. Outros passageiros fizeram o mesmo, ignorando até o choro da criança que acordou assustada com o raio de luz na cara. 

Não seja essa pessoa: respeite o direito coletivo. 

Esse voo foi especialmente complicado porque o entretenimento de bordo estava quebrado – o que fez do avião um ótimo laboratório de estudo sobre o comportamento do turista tradicional brasileiro em confinamento. 

Minha vizinha de poltrona ocupava a minha e a dela: travesseiro e cobertor eram jogados em cima de mim quando ela se cansava deles. Comecei a devolver, como numa partida de pingue-pongue, até que ela parou. Ainda assim, ela continuou a ocupar meu espaço com braços e pernas que sobravam por todo lado. O marido dela passou a ouvir podcasts salvos em seu celular sem fone de ouvido (os quais, ironicamente, haviam sido distribuídos pela tripulação entre os passageiros antes da decolagem). Tampouco foi o único.

Não seja essa pessoa: por favor, use o fone de ouvido.

Enquanto isso, à minha frente, a passageira dispensou o travesseiro e o cobertor, e como lhe eram inconvenientes achou por bem jogar no espaço reservado para minha bagagem de mão. Chutei de volta.

Não seja essa pessoa: respeite o espaço do seu vizinho (ele está tão incomodado e apertado quanto você). 

Também sabemos ser legais

Apesar de tudo, a empatia do brasileiro ainda surge em momentos importantes. Contrariando minhas próprias regras, nessa viagem voltei para casa com duas bagagens, pesadas e difíceis de carregar. Todas as vezes que recebi ajuda foi de brasileiros (que me ajudavam sem saber que eu também era do Brasil). Brasileiros sempre dão lugar no transporte público (ao menos lá fora) para grávidas, idosos e pessoas com crianças pequenas. 

Que tal sermos sempre essa pessoa?

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