Nos velhos tempos, barco a remo e arpão

Dóceis, os animais eram presas fáceis para os pescadores, que usavam meios rudimentares

O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2012 | 03h12

As memórias de um passado próximo, quando caçar baleias era uma atividade comum no litoral catarinense, ainda estão vivas na Praia de Garopaba. Na breve caminhada pela areia antes do passeio de barco para observar as francas, é possível avistar ossos das gigantes dos mares sob os barracões onde os pescadores guardam equipamentos. Mandíbulas inteiras estão ali.

Aos 96 anos e com uma lucidez impressionante, Setembrino dos Santos lembra dos tempos em que participou da atividade - ele conta que ajudou a arpoar três baleias. "A gente ia em três ou quatro (homens) no barco para matar a baleia e arrastar para a areia. Naquele tempo não tinha motor, era no remo, mesmo", conta. "Baleia é peixe manso (sic)."

De acordo com seu Bino, como o aposentado é conhecido por lá, a pesca de baleias não era lucrativa - ao menos para ele. "Eu pegava o dinheiro e comprava cachaça", conta. A franca era retalhada ainda em Garopaba e levada para uma central de processamento em Imbituba. "Às vezes saíam cinco caminhões daqui. Lá eles derretiam o toucinho."

As primeiras armações baleeiras de Santa Catarina foram construídas por colonizadores portugueses em meados do século 18. A estação de Imbituba, de 1796, foi restaurada e abriga hoje um museu que conta a história da caça e serve como espaço de reflexão sobre a importância da preservação desses mamíferos.

Aberto em 2003, o Museu da Baleia (entrada a R$ 3; telefone 48-3255-2922) tem uma série de painéis com mapas e ilustrações sobre a relação entre homens e baleias desde a pré-história. O que mais chama a atenção, contudo, são os equipamentos empregados na caça - diferentes tipos de arpões - e no beneficiamento do animal. O tamanho dos tanques de cozimento, nos quais pedaços de gordura viravam óleo, impressiona. A substância era usada como combustível na iluminação pública e, misturada a areia e pedras, como argamassa na construção civil. Uma baleia adulta rendia 6 mil litros de óleo.

A armação de Imbituba foi desativada em 1973, ano em que foi morta a última baleia na cidade - em 1987, o governo brasileiro promulgou lei que proibiu a caça aos mamíferos (um ano após a proibição internacional). Estima-se que a população de francas antes de séculos de atividade baleeira no Hemisfério Sul oscilava em torno de 100 mil indivíduos. Hoje, são cerca de 8 mil. Lamentável, mas um dos painéis do museu lembra, acertadamente: "Condenar a caça à baleia hoje não implica desconhecer o contexto em que essa atividade se desenvolveu no passado". / C.L. e J.P

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