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Nossas últimas férias felizes

Quanto tempo falta paras as últimas férias felizes do meu filho comigo?

Mônica Nóbrega, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2019 | 04h15

Uma conhecida minha, americana do Estado de Illinois, postou foto de suas duas filhas ao pôr do sol numa praia da Flórida. Os Estados Unidos estão em período de férias de verão. 

Comentei sobre o quanto as meninas estão crescidas. “Hannah está naquela idade em que apenas me olha e diz ‘ai, mamãe, o que é?’. Emmily ainda é amigável”, respondeu a mãe, mostrando uma foto da caçula sorridente. Fiquei pensando em Hannah, 12 anos, num resort de praia com os pais e a irmãzinha de 5 por uma semana. 

Mesmo em modo supereconômico, minha família sempre viajou bastante. A gente ia para hotéis-fazenda, alugava apartamentinhos na praia e acampava nas casas dos familiares pelo Brasil afora para visitar lugares como as cidades históricas de Minas, capitais como Curitiba e Belo Horizonte, as serras paulistas. Nada de exterior. O orçamento na época não permitia viajar em dólar. 

Não lembro exatamente quais foram as minhas últimas férias felizes nesse esquema: mãe, pai, irmã e irmão mais novos, eventualmente uma prima ou primo que a gente convidava para ir junto. 

Mas recordo nitidamente das primeiras férias infelizes com eles. 

Foi na Riviera de São Lourenço. Eu tinha 16 anos. A pousada estava lotada de colegas de trabalho do meu pai. Nosso grupo tinha reservado quase todos os quartos, éramos várias famílias, mas eu não estava a fim de conhecer nenhum daqueles garotos e garotas, embora me reunisse com eles na piscina ou no salão de jogos todo fim de tarde, depois da praia. Meu namoradinho e as minhas melhores amigas, que não estavam lá, eram companhias obviamente muito mais interessantes. 

Recentemente, uma revista de viagem dos Estados Unidos publicou uma reportagem com o título O Guia Definitivo Para Não Perder Nenhumas Férias Com Seus Filhos. O texto começa com uma provocação: “Você tem 18 verões com seus filhos antes que eles se tornem descolados demais para viajar com você. Veja como fazer cada ano contar”. 

Acho 18 uma previsão otimista. Desde que foi desmamado, meu menino passa parte das férias no litoral com os avós. Agora, aos 8 anos, ele pela primeira vez se mostrou indeciso sobre a vontade de repetir o programa. Disse que ia pensar. Claro que decidiu que vai, e bem feliz, mas fico aqui imaginando a cara de minha mãe quando eu contar da hesitação. Ela acha que ainda faltam pelo menos uns quatro anos para esse momento. 

Ele também respondeu um frio e distante “ah, tudo bem” quando mostrei as fotos e contei de todas as coisas legais do hotel no qual passaremos um feriado no segundo semestre. Não é que ele não se divirta; ao chegar lá, sempre acaba adorando. Mas já não é o bebê da mamãe e faz questão de mostrar isso. 

Quanto falta para as últimas férias felizes do meu filho comigo? 

...

Mas não quero, nem é o caso de terminar este texto de um jeito melancólico. 

Encerro com a lembrança de mais uma viagem. Casa alugada cheia, umas 20 pessoas. Passamos uma semana entre as praias de Caraguá e Ubatuba, a churrasqueira e as rodinhas de violão na varanda. Minha mãe, meu pai, amigos adultos deles, meus irmãos, jovens amigos nossos e meu então novo namorado. 

Foi uma grande viagem, da qual lembro com carinho. Eu tinha acabado de entrar na universidade, a 400 quilômetros de casa.

Tínhamos mudado de fase. Foram as primeiras férias felizes do resto das nossas vidas. 

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