Daniel Nunes Gonçalves
Daniel Nunes Gonçalves

Nova cena do tango em Buenos Aires dá boas vindas à diversidade

Ritmo tradicional na Argentina agita salões onde dança quem quiser – e com quem quiser. Veja onde aprender e se divertir

Luís Leite, Especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2019 | 04h45

BUENOS AIRES - Tradicional esquina milongueira de Buenos Aires desde 1893, o bar Los Laureles, no bairro de Barracas, zona sul da capital argentina, pode surpreender desavisados em seu refinado ambiente de culto ao tango. Em algumas noites do ano, os casais de dançarinos são, em sua maioria, compostos por pessoas do mesmo gênero. 

O Los Laureles (Av. General Iriarte, 2290; 54-11-4303-3393; aberto às quintas, sextas e sábados, a partir das 17h) é um dos espaços abertos à diversidade no mais argentino dos ritmos musicais. Não por acaso, sediou parte das atividades da 8ª edição do Festival de Tango Queer, realizada em novembro de 2018. O evento foi criado pelos professores Mariana Docampo e Augusto Balizano, ambos com experiência em organizar noites de tango queer. 

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Com roda aberta a iniciantes, workshops e apresentações de coreografias, o evento acompanha o crescimento do tango queer, com adesão da comunidade LGBT local e de apreciadores do ritmo vindos do mundo todo. Ainda que turistas sejam minoria, o programa mostra um lado da cultura portenha longe dos clichês. 

Época de ouro

“Estamos vivendo a segunda época de ouro do tango”, disse a professora brasileira de tango Gisele Teixeira. Morando em Buenos Aires há dez anos, Gisele comanda o Tango Sob Medida, programa em que recebe turistas em casa para aulas regadas e vinho e empanadas, seguidas de visita a uma milonga, uma casa de dança. Reservas em aquimequedo.com.br. 

Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco desde 2009, o tango nasceu em fins do século 19, e teve seu auge em meados do século 20, com a criação de grandes orquestras e protagonismo do ritmo em bailes, no rádio e no cinema argentinos. Foi nessa época que músicos como Astor Piazolla, Juan Canaro e Roberto Goyeneche embalaram as pistas com suas composições envolventes. 

Na segunda metade do século 20, o tango foi ofuscado pelo rock e pelo jazz, calado pela ditadura e encaixotado pelo formato teatral. “Hoje há um interesse renovado pelo gênero por parte das novas gerações. Há mais de 100 milongas por semana na cidade”, disse Gisele. 

Outros termos

Tradicionalmente dançado por um homem que guia os passos de uma mulher, o tango tem tido seu padrão questionado. Neste fim de semana, nos dias 9 e 10 de março, Buenos Aires abrigou o Tango Hembra, festival feminista de tango, que destacou a produção das mulheres no gênero – dançarinas, cantoras, compositoras, produtoras. 

“Muitos não usam mais os termos homem e mulher, e sim guia e intérprete, pois o que a pessoa guiada faz é dar forma aos comandos que recebe”, conceitua Gisele. A mudança permite que duas pessoas do mesmo gênero dancem juntas, ou até que homens e mulheres invertam seus papéis tradicionais. 

Arquiteto e dançarino ocasional, o espanhol Manuel Gallardo é adepto da variação de papéis. “Acho interessante ser guiado e até mesmo dançar com outros homens. Assim compreendo o tango de uma maneira mais ampla, aprendo a ser conduzido e não só a conduzir.” 

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A pluralidade do tango contemporâneo, aliás, vai além da sexual: pessoas com deficiências diversas também começam a frequentar as milongas da diversidade, como se notou no heterogêneo grupo presente ao Festival de Tango Queer no Los Laureles. O brasileiro José Carlos Gomes, casado com um argentino e morador de Buenos Aires, lembrou que o ritmo não tem como finalidade a paquera.

“No ambiente hétero ou no queer, a atividade se resume ao foco é o prazer de dançar.” Apesar da abertura crescente, ainda são muitos os espaços conservadores, ele disse. “Até hoje há lugares que proíbem dançar com pessoas do mesmo gênero. A novidade é que certas casas não proíbem mais.” 

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