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Como usar suas milhas da melhor forma

Vantagens, desvantagens, opções do mercado e dicas de quem entende do assunto: tudo o que você precisa saber sobre programas de fidelidade

Mônica Nóbrega, O Estado de S. Paulo

14 Julho 2015 | 01h00

O gerente de tecnologia da informação Raphael Sanches, de 28 anos, sempre viaja de avião usando milhas. “É muito raro pagar uma passagem”, ostenta. Recentemente, foi uma vez aos Estados Unidos e três à Argentina sem desembolsar o valor do aéreo. Em maio, até os quatro dias de hospedagem em Buenos Aires foram pagos com pontos acumulados em programas de fidelidade.

México e Chile foram destinos recentes do securitário Fernando Alarcon, de 31 anos, com bilhetes aéreos trocados por pontos. Para a Austrália, foi preciso comprar 12 mil milhas para juntar às 65 mil acumuladas no cartão de crédito. Custaram R$ 800, valor vantajoso em relação ao mínimo de R$ 3,7 mil de uma passagem de ida e volta entre São Paulo e Sydney.

Histórias felizes assim colocam uma pulga atrás da orelha dos viajantes normais, que sonham com a tal passagem-prêmio e raramente – ou nunca – conseguem realizar o sonho. Ou seja, quase todos nós.

Segundo dados do Banco Central, 53,4 bilhões de milhas expiraram no ano passado por falta de uso – 24% do total arrecadado. O que é que estamos fazendo de errado? Qual é o segredo para juntar milhas e gastá-las bem?

“Acho que existem dois tipos de consumidores de milhas: os ninjas e os demais”, diz o colunista do Viagem Ricardo Freire. “Os ninjas têm tino, talento e tenacidade para conseguir negócios da China em milhas. Aos demais, categoria na qual me incluo, resta aprender a não desperdiçar as milhas acumuladas e a gastá-las da forma mais esperta possível.”

Por esse ponto de vista, a economista Sandra Paulsen, de 52 anos, até poderia ser considerada uma ninja. Já foi a países como Suíça, Dinamarca, Chile, Costa Rica e Estados Unidos com milhas acumuladas em voos a trabalho. No feriado de 7 de setembro, fará a segunda viagem do ano com passagens trocadas por pontos – para ela mesma, o marido e o filho. Mas seu segredo tem outro nome: planejamento.

Em resumo, o que estamos fazendo de errado é não dar a devida atenção ao planejamento e ao controle quando o assunto é viajar com milhas. A avaliação é do empresário Bruno Nissental, criador do Oktoplus, ferramenta para ajudar a organizar programas de fidelidade que funciona na web ou via aplicativo. “É preciso entender sua rotina de consumo para se cadastrar nos programas de fidelidade mais vantajosos, estudar as regras de cada programa e, mais importante, ficar de olho na validade dos pontos” resume Nissental. Essa é a notícia chatinha. Viajar com milhas dá trabalho e exige disciplina.

Quem cedo madruga. Sandra Paulsen aposta no quanto antes, melhor. Morando em Brasília, emitiu em novembro passagens para Natal em abril. Ao Chile, foi em dezembro com aéreo emitido em fevereiro. Os bilhetes para o 7 de setembro no Rio de Janeiro também já estão em mãos.

“Nossos números mostram que 90% dos passageiros emitem bilhetes com milhas para viajar a lazer. Ou seja, é possível planejar”, diz o presidente do programa brasileiro Smiles, Leonel Andrade. O Smiles emite, por dia, de 14 a 15 mil passagens-prêmio. “O preço da passagem em pontos é como o preço em dinheiro: quanto antes, mais barato.”

A boa notícia é que existem táticas ao alcance dos meros mortais. Desde a manjada técnica de pagar tudo no cartão de crédito – que só faz sentido para quem quita toda a fatura de uma vez, já que os juros eliminam qualquer vantagem econômica (e a alegria) de ganhar pontos – até a tecnologia, como o próprio Oktoplus, lançado há dois anos.

Vale lembrar que o planejamento financeiro é a primeira preocupação e tópico de máxima importância nessa conversa. Em linhas gerais, sem considerar promoções, quanto mais você gasta, mais pontos acumula, seja diretamente nos planos de fidelidade ligados às companhias aéreas ou no cartão de crédito. Mas o volume de gastos precisa, obviamente, corresponder ao orçamento da família.

“De repente, você paga uma anuidade mais alta em um cartão de crédito de categoria superior para, ao fim de um determinado período, pegar uma passagem de mil reais. Vale ou teria sido mais barato comprar uma passagem mesmo? É preciso fazer a conta”, recomenda Fábio Gallo, professor de Finanças da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e colunista do Estado.

Parece informação demais, e é. A seguir, organizamos as ideias mais quentes – e viáveis – para você, que não é ninja, começar a entender as milhas e aprender como acumular e gastar.

ENTENDA

1) Qual o custo de uma milha?

Assim como almoço, não existe passagem grátis – ou passagem-prêmio, no jargão do mercado. Você paga o bilhete com a sua fidelidade a um cartão de crédito, a uma rede de fornecedores ou a uma empresa – é essa fidelidade que recebe um valor, convertido em pontos.

Quanto mais você gasta, mais pontos acumula. Para ficar claro: em programas de fidelidade de empresas aéreas, a passagem na classe executiva vale mais milhas que na econômica, e a passagem na econômica comprada com tarifa cheia pontua mais que a em promoção. Para quem faz questão de acumular milhas, muitas vezes uma economia de poucos reais não compensa a perda em pontos que poderiam ser obtidos com a tarifa sem desconto. Leia as regras de cada categoria de passagem. No caso dos cartões de crédito, US$ 1 gasto (e pago) rende de 1 a 2 milhas, de acordo com o tipo de cartão.

Segundo o presidente do Smiles Leonel Andrade, o balanço do primeiro trimestre de 2015 mostrou que uma milha do programa de fidelidade custou em média, no período, R$ 0,26. “Mas esse valor é muito dinâmico” disse. No Multiplus, que integra 392 empresas, inclusive o TAM Fidelidade, a conversão das compras em pontos é definida por cada parceiro.

2) Sempre vale a pena perseguir as milhas?

Faça as contas sempre. Antes de aceitar um cartão de crédito mais vip, de status superior, considere o acréscimo na anuidade e o tempo que você levaria para conseguir pontos suficientes para a passagem que quer. Há casos em que sai mais barato pagar em dinheiro pelo bilhete aéreo, considera o professor de Finanças Fabio Gallo.

Quanto ao cartão de crédito que você já tem, basta se inscrever no programa de fidelidade para acumular pontos com os gastos convencionais previstos no orçamento familiar. Se ainda não fez isso, você está desperdiçando pontos.

As promoções tentadoras que as companhias aéreas fazem em várias ocasiões – o mês de junho foi cheia delas, com passagens aos Estados Unidos por menos de US$ 500 – costumam dar pouquíssimos pontos ou nenhum. Mas, com tarifas realmente tentadoras, por que pensar na viagem do futuro ao invés da que pode ser feita agora mesmo?

3) Quais são os direitos do consumidor?

“As empresas aéreas não são obrigadas a ter programas de fidelidade”, diz a advogada Claudia Almeida, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). “Mas, se têm, então devem adequá-los ao Código de Defesa do Consumidor”, continua.

Isso significa dar informações de forma clara e não mudar as regras durante o jogo. “Às vezes, o contrato permite que a empresa mude as regras, mas é uma cláusula abusiva”, diz Claudia Almeida.

Saiu no prejuízo? O caminho é o de sempre: com o máximo de comprovantes em mãos, como materiais de propaganda, procurar o Procon para uma tentativa de conciliação. Ou ir à Justiça – causas com valor de até 20 salários mínimos podem ser resolvidas no Juizado Especial Cível, sem necessidade de contratar advogado. Tudo isso, claro, para contratos firmados no Brasil.

4) Como escolher o programa de fidelidade?

O programa de fidelidade sempre está vinculado a uma empresa. Considere a companhia com a maior rede de voos para os principais destinos aos quais você viaja. O Smiles, por exemplo, tem a Gol e parcerias com Air France, KLM, Copa, Etihad, Delta e TAP. Da própria TAP, o Victoria costuma ser boa opção para brasileiros que viajam com frequência à Europa; a empresa tem voos que partem de 12 capitais brasileiras e, via Lisboa, conexões para todo o continente. O Multiplus permite emitir passagens TAM e LAN e, via aliança internacional One World, também da British, Iberia e American Airlines – este último foi escolhido pelo securitário Fernando Alarcon porque dá, em pontos, o equivalente à distância percorrida no voo. No Tudo Azul, da Azul, a medida para a conversão dos trechos voados em pontos é o gasto efetivo em reais: cada real gasto pode valer até 4 pontos.

5) Quais são as formas de acumular milhas?

Eis uma resposta que não para de ser ampliada. Há os voos propriamente ditos – você compra uma passagem, voa e pontua de acordo com as regras da aérea. Há os cartões de crédito – que devolvem de 1 a 2 pontos por cada dólar gasto, via conversão feita na data do fechamento da fatura, e só depois de o valor ter sido efetivamente pago. Comprar tudo no cartão, desde que a fatura seja integralmente paga todos os meses, é uma forma de acumular milhas depressa. E há as cada vez mais abrangentes redes de pontuação.

A Multiplus, por exemplo, tem 392 empresas parceiras – inscritos no programa podem pontuar e trocar os pontos por prêmios em todas elas, como abastecer o carro em postos de combustível com a bandeira Ipiranga ou comprar artigos esportivos na loja online Netshoes. “Uso cartão de crédito turbinado, que dá mais pontos por dólar gasto. E é melhor usar cartões atrelados a companhias aéreas, que fazem o crédito dos pontos na sua conta automaticamente”, sugere o colunista do Viagem Ricardo Freire.

Fundamental é concentrar os pontos. Tanto quanto possível, use as redes e credite em uma única conta. No caso das empresas aéreas, quanto mais pontos acumulados no programa de fidelidade próprio, mais alto é o status do cliente. E, quanto mais alto o status, maior é o bônus de pontuação por trecho voado.

6) Como funcionam os pontos no cartão de crédito?

Escolha um cartão de crédito com programa de fidelidade que inclua parcerias com companhias aéreas e uma rede própria de fornecedores. Assim, na hora de trocar pontos por passagens, é possível comparar o valor cobrado em pontos no programa do próprio cartão de crédito e no site da aérea parceira.

Ao emitir a passagem via fidelidade do cartão de crédito, sem transferir pontos para uma aérea, o valor em milhas é convertido em dinheiro na hora de pagar a passagem. A vantagem é que, na prática, o bilhete não será “prêmio” – e vai valer novas milhas. “Se um trecho emitido com 10 mil pontos permite acumular mais 1 mil pontos, na prática ele custou 9 mil”, diz Bruno Nissental,

do Oktoplus.

No Brasil, os principais programas de cartões de créditos e ligados a bancos são Bradesco Fidelidade, Mermbership Rewards (American Express), Sempre Presente (Itaú), Ponto Pra Você (Banco do Brasil) e Superbônus (Santander).

ACUMULE

Vale a pena usar os pontos acumulados para fazer um upgrade para a executiva?

7) Quando as milhas expiram?

No Multiplus e no Tudo Azul, os pontos valem 2 anos. O Smiles dá de 3 a 6 anos de validade. Quanto mais vip você é, mais suas milhas duram. Pontos cedidos como bônus em campanhas promocionais tendem a valer por menos tempo.

O sócio do Oktoplus Bruno Nissental tem outra dica: “Pontos do cartão de crédito que estão no limite do vencimento podem ser transferidos para a companhia aérea, e você ganha mais dois a três anos anos para usá-los”. Ninja ou não?

8) É possível reativar milhas expiradas?

O Smiles permite reativar milhas vencidas nos 12 meses anteriores, com cobrança proporcional de taxa. Pontos Multiplus podem ser renovados por mais 2 anos, desde que tenham vencido num prazo de 180 dias, também com cobrança proporcional de taxa em pontos.

9) Como se compra milhas?

No site do programa de pontos em questão. O Smiles permite comprar até 40 mil pontos por ano nas categorias básicas de seu cartão fidelidade. O Multiplus estabelece limites e taxas de acordo com o perfil de cada cliente. Ricardo Freire, colunista do Viagem, recomenda cautela: “Faz sentido comprar 2 mil milhas para completar o necessário a uma passagem específica”, diz. “Mas e o risco de o assento desaparecer até as milhas serem creditadas?”

É uma questão a considerar.

10) Posso receber pontos de terceiros ou transferir os meus?

Os programas Amigo, da Avianca, e Tudo Azul, da Azul, vetam a transferência de pontos. Smiles e Multiplus permitem a transferência para outro associado do mesmo programa, com cobrança proporcional de taxa.

11) Posso fazer intercâmbio de milhas entre empresas aéreas da mesma aliança? E como funcionam, afinal, essas alianças?

As alianças aéreas internacionais – One World, Star Alliance e Sky Team são as três principais do planeta – são grandes redes de cooperação entre empresas, mas não operam planos de fidelidade próprios.

Por isso, não existe a possibilidade de transferir pontos entre programas de companhias diferentes, mesmo que da mesma aliança. Deixar 8 mil pontos em um cartão e mais 3 mil no outro não leva a lugar nenhum. Concentre milhas no menor número de contas possível – uma só, de preferência. E, a cada check-in em companhias aéreas distintas, mas parceiras na mesma aliança internacional ou rede de pontuação, forneça esse número.

GASTE!

Quando é mais vantajoso trocar os pontos pelo bilhete?

12) Como resgatar uma passagem-prêmio?

Há boa notícia nessa questão. Os principais programas de fidelidade têm cuidado bem de seus sites para facilitar o processo de efetivamente emitir uma passagem com milhas. Basta inserir login e senha da sua conta e pesquisar, como nos sites comuns das companhias aéreas. O sistema mostra os lugares disponíveis e o preço em milhas do trecho. Basta escolher, confirmar e está feito.

13) Qual é a melhor época para resgatar uma passagem?

A máxima do quanto antes, melhor, é a recomendação geral das empresas aéreas. O Oktoplus monitora preço de passagens em milhas e faz milhares de cotações todos os dias – por meio de tais pesquisas, concluiu que o resgate feito em até 90 dias antes da data do voo pode render economia de até 30% em pontos.

14) Posso vender milhas?

“Depende do contrato estabelecido pela companhia aérea. A maioria proíbe a venda”, diz a advogada do Idec Claudia Almeida. Mas o fato é que existe, sim, um mercado paralelo de vendas de milhas, com empresas que têm endereço físico, telefone e CNPJ, que compram os pontos e emitem, com eles, passagens para outros viajantes. Ou seja, funcionam também como agências de viagens. ClicViagens e Hot Milhas estão entre as mais ativas – e ambas afirmam, em seus sites, que consideram abusiva a cláusula de proibição de venda de milhas nos contratos dos programas de fidelidade das empresas aéreas. Segundo Bruno Nissental, do Oktoplus, paga-se de R$ 250 a R$ 300 por um pacote de 10 mil milhas.

15) Vale a pena gastar pontos em upgrade de classe?

“Vivi um tempo em que o upgrade para a executiva era baratíssimo, 12.500 milhas por trecho em voos internacionais. Hoje, tendo a achar o upgrade com milhas caro”, diz Ricardo Freire. No Smiles, o upgrade pode custa de 10 a 35 mil pontos, de acordo com o status. Na TAM, custa de 7,5 mil pontos por trecho em voos pela América do Sul e 20 mil pontos por trecho para a América do Norte ou Europa.

“Contudo, se você não tem grana para viajar de executiva, mas tem milhas para upgrade e quer sentir o gostinho de ir lá na frente, a extravagância vale a pena”, diz Ricardo Freire.

16) O que mais além de passagens posso resgatar com pontos ou milhas?

Atualmente, os principais programas de fidelidade oferecem a possibilidade de resgatar também produtos, como eletroeletrônicos, ingressos e material esportivo. É uma maneira de gastar os pontos que estão prestes a expirar, mas a razão entre o valor em pontos e o preço efetivo do produto costuma ser ruim.  O outro grande negócio a se fazer com milhas é pagar o hotel. “Em viagens internacionais, muitas vezes o custo total de hospedagem é similar ao da passagem aérea”, diz Bruno Nissental, do Oktoplus.

“Se não encontrou aéreo com milhas, por que não tentar o hotel? Do ponto de vista dos gastos, muitas vezes dá na mesma.”  O programa Le Club, da Accor, por exemplo, é parceiro do Smiles. Em junho, Nissental gastou 2 mil pontos para cada voucher de ¤ 40 para diárias em hotel da rede, em Barcelona.

“Só é preciso ter cuidado com a relação de transferência. Para ter 2 mil pontos no Le Club, é preciso transferir de 4 a 6 mil pontos do cartão de crédito, há uma desvalorização.”

Por meio das parcerias com agências de viagens dos programas de pontos dos próprios cartões de crédito, é possível fazer cotações em várias redes hoteleiras e obter tarifas de hotel em pontos – muitas vezes, mais vantajosas.

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