Felipe Mortara/Estadão
Felipe Mortara/Estadão

UM GUIA DE ACLIMATAÇÃO À ALTITUDE DE CUZCO

Diante da grandeza de Machu Picchu costumam ser variadas as reações dos visitantes: deslumbramento, euforia e – infelizmente – mal estar. Se, por um lado, os Andes peruanos guardam um dos maiores tesouros arqueológicos do mundo, por outro, a altitude de 2.430 metros pode ser uma vilã capaz de atrapalhar qualquer passeio. Para esse mal, a solução é uma só, aclimatação. E o melhor lugar para fazê-la antes de chegar a Machu Picchu é em Cuzco, principal cidade da região.

O Estado de S. Paulo

23 Julho 2015 | 21h09

A melhor época para visitar o santuário inca vai até setembro, quando as temperaturas despencam, mas o tempo costuma ficar firme e sem chuvas. A 3.326 metros acima do nível do mar, Cuzco é um teste de adaptação tanto para os vão fazer longos trekkings, como a Trilha Inca ou a de Salkantay, quanto para quem vai no conforto do trem até Águas Calientes, vilarejo que é a base para ir a Machu Picchu. Sentindo-se bem ali, você estará pronto para aproveitar ao máximo a maior atração turística do Peru.

O processo de aclimatação leva tempo, para alguns mais, para outros, menos – especialmente se não voou diretamente do Brasil. Geralmente a adaptação não costuma demorar mais de três dias, por isso preparamos um roteiro para curtir e descobrir Cuzco em 72 horas, pouco a pouco. Sempre intercalando com muita água, chá de coca e, principalmente, muito descanso.

DIA 1 - Novos ares

Voar desde o Brasil, saindo do nível do mar direto para os mais de três mil metros de Cuzco, é impactante. Há dois tipos de viajantes, os que sentem imediatamente e os que demoram mais para sentir os efeitos da altitude, mas todos sentem. Por isso, comece seu dia leve.

Uma saída do hotel rumo à Plaza de Armas, o coração do centro, é o primeiro passo para o reconhecimento da cidade. Boa parte do cenário é dominada pela surpreendente catedral, de 1559 – não deixe de visitá-la. Bem ao lado, da torre da Igreja da Companhia de Jesus é que se tem a melhor foto da praça (prefira a luz matinal ou do entardecer). A outra metade da praça é cercada por arcadas, que abrigam restaurantes e lojas caras, além de alguns bares e baladas.

Para visitar a maior parte dos monumentos e museus da cidade e dos arredores, vale a pena adquirir os dois “boletos”. O boleto turístico (130 soles ou R$ 130; à venda em osituc.gob.pe), dá acesso aos 17 principais sítios arqueológicos de Cuzco e do Vale Sagrado. Já o boleto religioso (50 soles ou R$ 50) garante acesso a todas as igrejas de Cuzco e aos Museus Quijote e de Arte Religioso – pode ser comprado em qualquer uma destas atrações.

Pegue a rua Tucumán, que sobe da catedral até a pequenina Plaza del Centenário. Uma parada estratégica para o almoço com comida típica peruana no Chihuanhuay (Calle Cuesta del Almirante, 260). Atravesse a rua e faça a digestão mergulhando fundo na cultura pré-colombiana no Museu Inka, que funciona na chamada Casa do Almirante, com uma farta coleção de peças de metal, joias e múmias (ingresso 10 soles ou R$ 10).

Volte para o hotel e descanse. Se ainda tiver fôlego e apetite, um jantar no La Bodeguita, restaurante todo decorado com chapéus e dentro do Hotel El Mercado Tunqui, vale a pena. Prove a truta com vegetais salteados (36 soles ou R$ 36) ou os bombons de mignon recheados com queijo andino (42 soles ou R$ 42). De sobremesa, um pastel de milho banhado em três leites com creme de maracujá (20 soles ou R$ 20). Tenha uma ótima noite de sono. Bom descanso.

DIA 2 - Pulmões cheios

Após uma boa noite de sono e um café da manhã reforçado, comece pela igreja de São Francisco, uma das poucas que resistiram intactas ao forte terremoto de 1650 e também uma das poucas cuja entrada é gratuita. Logo ao lado, o museu homônimo (8 soles ou R$ 8) abriga uma das maiores pinturas do continente, com 12 por 9 metros, com a árvore geneálógica de São Francisco de Assis, fundador da ordem.

Caminhe pela Calle Santa Clara, passando pela igreja de mesmo nome – repare nos delicados espelhos. Quase automaticamente você entrará no Mercado San Pedro, o maior e mais tradicional de Cuzco. Explore as mil e uma variedades de milhos e batatas dos Andes. É o melhor lugar para comprar folha de coca fresca para mascar e aliviar, e muito, os efeitos da altitude. Aproveite para provar um sanduíche de frango em uma das barracas.

Faça a digestão caminhando pela Avenida El Sol até o Qorikancha (ingresso 10 soles ou R$ 10). Parada obrigatória em Cusco, as ruínas do tempo mais rico do império inca – era decorado com 55 quilos de ouro maciço – revelam hoje apenas o fascinante trabalho em pedra. Contrate um guia, pois só assim será possível compreender a relevância do lugar, que serviu igualmente de observatório celeste.

Ao anoitecer, o Planetário de Cuzco (35 soles ou R$ 35) é uma experiência enriquecedora e que dará a dimensão da relevância dos astros para os povos pré-colombianos. Entenda como o próprio desenho da cidade foi influenciado pelas galáxias. Se não quiser contar estrelas e já se sentir bem aclimatado, arrisque-se no pisco sour (o drinque típico do Peru) em baladinhas espalhadas pela Plaza de Armas, como Mama África e Inka Team.   

DIA 3 - Quase um cidadão dos Andes

Após uma boa noite de sono, permita-se encarar um dia mais comprido, com menos atrações e mais andanças. Do lado direito da Catedral começa a Calle Hatunrumiyoc, que sobe vagarosamente por três quadras até a Plaza San Blas. Pequenina e feita de adobe, a igreja que dá nome à praça e ao bairro mais charmoso de Cuzco surpreende por seu altar barroco banhado a ouro e o púlpito, esculpido em um único tronco de árvore.

Geralmente uma feirinha toma conta da praça, revelando a faceta artística do bairro, com muito artesanato e telas expostos. Caminhe pelas vielas até o Museu de Arte Religioso (15 soles ou R$ 15), que funciona numa bela mansão colonial em estilo mourisco erguida sobre as fundações do antigo Palácio de Inka Roca. Além das pinturas e estátuas católicas, fique atento à famosa Pedra de 12 lados, do lado de fora do casarão e sempre cobiçada pelos turistas.

Quando a fome bater, procure pelo Restaurante Cicciolina na Calle Triunfo. Localizado no segundo andar de um prédio do século 19, chama atenção pela decoração. Logo na sequência, é pelo estômago que você será atraído. Entre as delícias, o prosciutto de pato com polenta caseira e a lula recheada com mariscos e camarões, que vem à mesa no ponto, mesmo na altitude (ambos por 27 soles ou R$ 27).

Para finalmente testar sua adaptação à altitude arrisque uma subida pelas escadarias e encostas de San Blas até Sacsaywamán – são dois quilômetros desde a Plaza de Armas. A mais importante ruína religiosa e militar dos arredores da cidade parece enorme, mas exibe apenas 20% de sua estrutura original – muitos de seus muros foram usados pelos espanhóis para a construção de casas em Cuzco. A entrada é com boleto turístico.

A prova final é um teste que mescla história e resistência etílica. O Museu do Pisco dá a chance de conhecer a origem da bebida, disputada por Peru e Chile, e de degustar algumas boas versões do famoso destilado de uva. Se estiver bom no dia seguinte, pode ter a certeza de estar devidamente aclimatado.

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