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ESPANHA: INTENSA RELIGIOSIDADE E PRAZERES MUNDANOS

Em meio a uma profusão de patrimônios históricos, Castela e Leão celebra os 500 anos do nascimento de Santa Teresa com um roteiro especial – atraente até para quem não é religioso.

Mateus Coutinho, O Estado de S. Paulo

28 Julho 2015 | 00h00

SEGOVIA - Religiosidade, herança medieval e misticismo se cruzam no coração da Espanha – mais precisamente, na comunidade autônoma de Castela e Leão. Ali, em meio a cidades como Segovia, Ávila e Salamanca, se concentra 60% de todo patrimônio histórico do país: templos monumentais, fortalezas e aquedutos romanos. Inspiração para um roteiro que pode ser, ao mesmo tempo, sagrado e profano.

Sagrado porque, neste ano, a região ganha interesse especial para os admiradores de Santa Teresa de Ávila (chamada de Santa Teresa de Jesus na Espanha) com os 500 anos de seu nascimento. Criadora da ordem das Carmelitas Descalças, Santa Teresa fundou conventos em 17 cidades de Castela e Leão, durante uma viagem iniciada em 1567, que durou quase 20 anos. Em Ávila, sua terra natal, as comemorações se estendem até novembro, com uma série de eventos especiais.

Nos moldes do Caminho de Santiago, os peregrinos que se aventurarem pelo roteiro denominado Huellas de Teresa, repleto de pacatos vilarejos que parecem parados no tempo, ganham uma credencial, carimbada em cada cidade por onde a santa passou. Quem visita ao menos quatro cidades recebe um certificado.

Para quem não é apegado à religião, contudo, é bom saber que os caminhos também têm um lado profano. Bons vinhos, produzidos nas áreas vinícolas de Ribera Del Ruero, são uma verdadeira tentação (principalmente quando acompanhados dos famosos assados de leitão e de cordeiro). Salamanca, por sua vez, convida a aproveitar a vida noturna e os agitos típicos de uma cidade universitária. Com cerca de 30 mil estudantes, abriga a mais antiga universidade do país – além de bares animados e festas sem hora para acabar. Palácios opulentos, como La Granja de San Ildefonso, nos arredores de Segovia (uma versão menor do Palácio de Versailles) contrastam com o desapego carmelita.

Deixar de provar pratos típicos, como a morcela (linguiça de sangue) de Burgos e o onipresente jamón ibérico, ou não visitar ícones locais a exemplo do Alcázar de Segovia – que, dizem, teria inspirado Walt Disney a criar o castelo de Cinderela –, será um pecado imperdoável. Para não pegar o caminho errado, siga o roteiro abaixo.

*O repórter viajou a convite do escritório de turismo da Espanha.

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Mateus Coutinho, O Estado de S. Paulo

28 Julho 2015 | 00h00

À medida que o carro se aproxima pela estrada que vem de Madri, em um percurso de quase uma hora, os contornos das opulentas construções medievais que fazem de Segovia um patrimônio da humanidade da Unesco ficam mais e mais próximos. Reza a lenda que o próprio Hércules teria fundado a cidade, ocupada pelos romanos em 80 a.C.. Ao longo dos anos, foi palco de invasões e batalhas entre tribos bárbaras e muçulmanos, até ser reconquistada por católicos no século 12.

A obra é um bom ponto de partida para conhecer os atrativos da cidade. Andar pelas ruas de pedra em meio aos prédios baixos e se deixar surpreender por restaurantes e bares de tapas que surgem a cada esquina é uma bênção. Só preste atenção aos pés: nada de se autoflagelar com saltos ou sapatos apertados. Invista no conforto para aguentar o sobe e desce das ladeiras.

Os trechos preservados e podem ser visitados a partir do Centro Informativo da Muralha, no portão de San Andrés. Ali se conhece a história e localização original de seus portões. A visita para os pontos mais altos da estrutura custa 1 euro e dispensa guia (oesta.do/muralla).

Fortaleza. É circulando pela muralha que se chega a uma das obras mais impressionantes da cidade: o Alcázar de Segovia. Não se sabe ao certo quando a fortaleza teria sido construída – as primeiras citações sobre o local são do século 11. Incendiado em 1862, o que se vê hoje é uma versão da construção original. 

Embora o Castelo de Neuschwanstein, na Alemanha, seja a mais conhecida inspiração de Walt Disney para o Castelo da Cinderela de sua Disneylândia, os espanhóis garantem que ele se baseou no Alcázar. Há, de fato, semelhança, mas nenhuma prova concreta. Certo mesmo é que o local serviu como residência de reis e Colégio Real de Artilharia, no século 17. A entrada de 7 euros dá direito a visitar o museu, o palácio e a Torre de Juan. São 162 degraus de penitência até o topo, onde se encontra a recompensa: a vista da cidade.

Gula. A fome aparece entre as andanças, e a efeméride de Santa Teresa deu munição para os chefs locais. Vinte restaurantes da cidade oferecem, até outubro, o menu carmelitano, inspirado nas refeições da ordem das carmelitas. Não espere humildade ou jejum: as opções, a partir de 10 euros, incluem entrada, prato principal e sobremesa – e, em alguns casos, uma taça de vinho. Veja os participantes: oesta.do/menucarmelita.

Dá pena, mas a consciência se livra de qualquer peso quando chega à mesa a carne macia e suculenta, assada por pelo menos 2h30. Para provar a qualidade do produto (26 euros, para dois; restaurantejosemaria.com), o próprio chef leva o assado à mesa e o parte apenas passando as bordas do prato pelo animal. 

“También entre los pucheros anda Diós.” A frase de Santa Teresa – algo como “também entre as panelas anda Deus” – motivou restaurantes e hotéis da cidade a criar um festival gastronômico baseado na culinária teresiana e carmelita, o DegustÁvila. Quinze restaurantes participam do evento, que conta com receitas históricas adaptadas ao gosto atual. O menu inclui entrada, prato principal e sobremesa e custa 35 euros, para duas pessoas.

Além da gastronomia, outros eventos comemorativos ao aniversário de Santa Teresa tomam conta de Ávila até novembro, como visitas guiadas a vários pontos da cidade, exposições, concertos e cinema. Veja a programação: avilaturismo.com

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Mateus Coutinho, O Estado de S. Paulo

28 Julho 2015 | 00h00

A cidade onde Santa Teresa nasceu respira religiosidade. Hoje com 59 mil habitantes, Ávila é rodeada pela muralha mais preservada da Espanha, com 2,5 quilômetros de perímetro, 87 torres de observação e 9 portões. Não à toa, está na lista de patrimônios da humanidade da Unesco. Erguida entre os séculos 11 e 12, a muralha foi modificada e restaurada ao longo dos tempos, com toques góticos e renascentistas. Para caminhar por ela, paga-se 5 euros; muralladeavila.com.

Dentro dos limites do muro, Ávila parece ter estacionado no tempo. E é fácil caminhar entre suas principais atrações – quase todas religiosas. Em meio às inúmeras igrejas, o Convento e Museu de Santa Teresa é destino certo para os peregrinos. Foi ali que a santa nasceu, em um quarto simples, sobre o qual foi construída uma capela banhada a ouro. O local guarda ainda obras de arte e esculturas sobre a história e a vida da beata, objetos utilizados por ela (como seu cajado) e um dedo da santa. Sim: segundo consta, o ditador Franco manteve a relíquia ao lado de sua cama durante seu governo. 

Outra atração é o primeiro convento fundado por ela, em 1562. O Convento de São José é hoje moradia para 20 freiras, e preserva a simplicidade pregada por Santa Teresa em seu templo sem ornamentos (entrada: 1,40 euros). No Monasterio de La Encarnación (entrada a 2 euros), Teresa foi internada aos 15 anos por seu pai, depois da morte da mãe. 

Visite ainda a catedral da cidade, que começou a ser construída no século 12, mas só foi finalizada 400 anos depois, já em estilo gótico. Em contrapartida a esse cenário austero, o Palácio Los Serrano é um espaço cultural com exposições de arte contemporânea, palestras e um belo jardim. 

À noite, Ávila não oferece muito. O La Bodeguita de San Segundo (Calle de San Segundo, 19) é o bar mais famoso, e costuma lotar graças a sua ampla oferta de vinhos e tapas saborosas. Mas os preços são um sacrilégio. 

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Mateus Coutinho, O Estado de S. Paulo

28 Julho 2015 | 00h00

SALAMANCA - O pôr do sol em Salamanca é, na verdade, um despertar. A luz reflete nas pedras dos edifícios próximos à Plaza Mayor, criando um espetáculo único. Chegue um pouco antes para observar os detalhes da praça em estilo barroco, composta por 88 arcos e repleta de bares e restaurantes. No verão, as mesas na calçada são disputadas mas, mesmo nas noites frias, a parte interna dos estabelecimentos está sempre lotada – depois da meia-noite, alguns se transformam em baladas e a festa segue, sem hora para terminar.

A atmosfera boêmia é reflexo do clima estudantil – ali está a mais antiga universidade do país, a Universidad Civil, fundada em 1218 sob o nome de Estudo General, com alunos do mundo todo. Admirando a fachada ornamentada, haverá sempre uma multidão de turistas. Junte-se a eles: todos estão à procura do sapo incrustado entre figuras de heróis míticos e brasões, que se tornou o símbolo da cidade. Dizem que quem o encontra por conta própria tem boa sorte. Fique tranquilo: se não conseguir enxergá-lo no prédio, certamente o encontrará nas lojas de souvenir.

Salamanca encanta por mesclar a inquietude universitária com a herança histórica. Durante o dia, troque o agito por uma caminhada por suas ruas de pedra, admirando os edifícios renascentistas. Repare na Casa das Conchas, que, como o nome sugere, exibe conchas incrustadas na fachada – ali funciona uma biblioteca pública. Em dias ensolarados, relaxe como os jovens universitários: tomando sol nos gramados, despreocupadamente. Ao longo das margens do Rio Tormes, que corta a cidade, há um extenso parque com quadras esportivas, pista para cooper e uma ponte de estilo romano.

Indispensável, mesmo para os desprovidos de fé, é visitar as catedrais, a antiga e a nova, construídas uma ao lado da outra. Com o aumento da população no século 15, a Catedral Velha, de estilo românico, ficou pequena. A vizinha, gótica, foi concluída dois séculos depois, em 1733. 

Se possível, aproveite para assistir ao pôr do sol antes de voltar a festejar, abastecido por porções de jamón ibérico pata negra, produzido na cidade (a tábua de frios custa em média 14 euros) e chope gelado (cerca de 3 euros).

Santa Teresa chegou a Salamanca em 1570 a convite dos monges dominicanos, que apoiaram a criação de um convento na cidade naquele mesmo ano. Atualmente, a Casa de Santa Teresa não tem freiras carmelitas, mas guarda resquícios de sua passagem e pode ser visitada gratuitamente. Os monges mantêm sua herança na cidade, no Convento de San Esteban e na igreja dedicada ao santo, repleta de relíquias e ornamentos religiosos com ouro. Era ali que Santa Teresa se confessava (entrada 3 euros). Fique atento aos arcos da Plaza Mayor: a figura da santa está ali, entre retratos de reis e rainhas. 

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Mateus Coutinho, O Estado de S. Paulo

28 Julho 2015 | 00h00

SORIA - A cidade de 45 mil habitantes, às margens do Rio Duero, tem festas animadas e forte cultura literária – é chamada de “cidade dos poetas”. Os casinos, bares onde os escritores se reuniam no início do século 20, são uma tradição local. Ali Santa Teresa fundou ali uma ordem carmelita em 1581, em um complexo conhecido hoje como Conjunto do Carmo. Mais: soria.es/turismo

BURGOS - No meio do Caminho de Santiago, a cidade guarda uma importante catedral gótica. A obra do século 13, cheia de detalhes em ouro, é patrimônio da Unesco. O local foi visitado por Santa Teresa, que queria conhecer o Cristo de Burgos – a estátua de Jesus, feita com pele de carneiro e cabelo humano, está na igreja até hoje. Para contemplar a cidade, alugue uma bike e pedale à beira-rio. Não esqueça de parar no Museu da Evolução Humana, onde estão fósseis descobertos no sítio arqueológico de Atapuerca, a 15 km dali – nem de provar a morcela (linguiça) local.

VALLADOLID - É quase uma bênção: recomendado pelo Guia Michellin, o Villa Paramesa oferece tapas, como o ceviche de sardinha com creme de alho negro, servido em uma canoa de alga caramelizada, pelo preço médio de 3,50 euros. A cidade não é só comilança: na casa onde viveu Miguel de Cervantes entre 1604 e 1606, funciona um museu dedicado ao escritor. Já o Museu do Touro quer manter a memória das tradições locais. O convento fundado por Santa Teresa na cidade mudou de lugar e saiu da beira do rio – ainda em funcionamento, guarda escritos originais da santa.

MEDINA DEL CAMPO - A 53 km de Valladolid, a cidadezinha é ponto-chave para seguir os passos de Santa Teresa. Durante as comemorações do nascimento da santa, o Convento de San Juan, fundado por ela em 1567 (onde vivem 21 freiras de clausura), vai abrir as portas aos visitantes, que podem ver até os quartos simples das religiosas. Os restaurantes também vão celebrar, oferecendo o menu teresiano, inspirado na santa: sopa de verduras e legumes, bacalhau, e, de sobremesa, arroz doce, por 21 euros. O vinho da região, com denominação de origem Rueda, está incluído.

ALBA DE TORMES - Para os peregrinos, a vila de 7,5 mil habitantes tem significado especial. Foi ali que morreu Santa Teresa, em 1582. As relíquias da santa (braço esquerdo e coração) estão na Igreja da Assunção de Nossa Senhora de Cármen, onde funciona o convento fundado pela santa em 1571. O museu anexo guarda o quarto onde ela morreu, além de obras e documentos sobre a ordem carmelita e roupas da Duquesa de Alba, família histórica da região cujo castelo em ruínas é uma das atrações da cidade.

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