Nova onda criativa em Múrcia

Galerias e espaços de arte recém-inaugurados dão destaque à região, antes conhecida apenas pela agricultura

Andrew Ferren, THE NEW YORK TIMES, MÚRCIA, O Estado de S.Paulo

09 Março 2010 | 02h54

"Alguns anos atrás, eu teria dito que nada assim seria possível em Múrcia", disse Jose Martinez Calvo, nascido nessa província no sul da Espanha e respeitado marchand em Madri. "Quando meus amigos contaram o que estavam planejando fazer lá, garanti que era melhor terem um plano B."

Porém, eles estavam certos. E Calvo teve de dar o braço a torcer enquanto visitava La Conservera (www.laconservera.org), galeria com jeitão de loft repleta de esculturas minimalistas da artista irlandesa Eva Rothschild. O espaço fica na vila de Ceutí, perto da cidade de Múrcia, a capital da província, e a cinco horas de Madri. Um povoado que, à primeira vista, pareceria a anos-luz de ser considerado trendy.

Mas a verdade é que as fábricas de enlatados foram deixando a região, dando espaço para amplas galerias. E La Conservera, aberta há menos de um ano, é apenas uma das representantes do novo cenário artístico da região.

Quase uma dúzia de museus, galerias e outros espaços do gênero surgiram por lá. Conhecida como o pomar da Espanha - os tomates Pata Negra, produzidos por ali, são quase tão famosos quanto o presunto de mesmo nome -, Múrcia geralmente só virava notícia quando havia algum embate envolvendo agricultura. Mas os administradores locais resolveram investir em arte, incentivando a abertura de galerias por toda parte da província.

E não faltam imóveis esperando por uma segunda chance. Fábricas abandonadas, antigas mansões art nouveau, conventos e até igrejas estão na fila.

Não que arte seja um conceito novo em Múrcia, onde a rica herança cultural inclui pinturas neolíticas em cavernas e mosaicos romanos, sem mencionar um recém-descoberto complexo de ruínas mouras, que saiu do esquecimento durante obras em um estacionamento.

"O importante é conseguir um equilíbrio entre a vanguarda de hoje e a preservação de nosso passado, nosso patrimônio", diz Pedro Alberto Cruz, ministro da Cultura e do Turismo na região.

Fundada por mouros no início do século 9º, pode-se dizer que Múrcia tem todos os atrativos de uma cidade de tamanho médio da Espanha: uma belíssima catedral de fachada barroca, casas coloridas com balcões elaborados e muitas praças pontilhadas de laranjeiras. O Rio Segura corre preguiçosamente entre as pontes que ligam seu centro histórico aos bairros mais recentes.

E é essa região que abriga áreas de exibição como o Espacio AV (www.espacioav.es) e galerias comerciais na linha da T20 (www.galeriat20.com), que têm como foco artistas emergentes. Tudo isso dividindo espaço com as mais tradicionais padarias, além de pequenas lojinhas de bairro.

Ampliando a nova onda criativa, um dos principais eventos está ocorrendo na Sala Verónicas, instalada no antigo prédio de uma igreja. Trata-se da PAC Murcia Biennial (www.pacmurcia.es). Neste ano, o tema do evento é Domino Caníbal, uma referência ao modo como uma exposição deve consumir e reinterpretar a anterior.

A primeira instalação, inaugurada em 25 de janeiro, ficou a cargo de Jimmie Durham, artista americano com herança cherokee. A proposta dele foi introduzir peças banais - como aspiradores de pó e geladeiras - no espaço onde antes as freiras ficavam enclausuradas. Antes brancas, as paredes ganharam grafite. A próxima artista será a espanhola Cristina Lucas, que mostrará seu trabalho a partir de 26 de março.

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