Novos tempos, novas tecnologias

Nosso incansável viajante manda noticias, agora, de Bled, na Eslovênia, um de seus recantos prediletos na Europa balcânica. 

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2016 | 00h05

Sr. Miles, tenho lido algumas de suas colunas e vejo que o senhor pertence a um outro tempo. Não tem paciência para o novo, as modernidades e, claro, já está ultrapassado. O mundo progride e ficar parado não serve para nada. Atenciosamente.  

Diego Gatasaki, por e-mail

Well, my friend, preciso sempre respeitar a opinião de meus leitores, porque isso é da natureza dos articulistas elegantes. E, indeed, você tem razão. Em muitos aspectos, a atualidade me constrange. Admito que já fui pior. Demorei a aceitar o computador – e só o fiz porque já não encontrava mais mata-borrões nem tinta de qualidade para minhas canetas-tinteiro. Acho os celulares extraordinários, sobretudo quando estão desligados. Como não há um protocolo minimamente civilizado sobre o seu uso, vou seguir me esquivando dessas traquitanas. 

Meu amigo xeneize, o bem-humorado Don Manzano, contou-me que em Buenos Aires já há restaurantes que impedem o uso do celular. Em outras partes do mundo, retrógrados temos alcançado pequenas vitórias, ao lograr conversar por alguns minutos com interlocutores que, via de regra, preferem dialogar com quem está longe do que com quem está em sua frente. Sairemos derrotados, however. Pertenço, como outras raras antiguidades viventes, a um tempo em que interagíamos diretamente com o mundo. Víamos pelos próprios olhos, aspirávamos sem medo de alergias, comíamos para apreciar (e não para fotografar) e tocávamos em qualquer superfície interessante sem a necessidade de usar, urgentemente, a salvação do álcool gel. Besides, álcool era para beber e gel era qualquer substância melequenta. O progresso, dear Diego, não é sinônimo de evolução, bem como o futuro não significa, I’m sorry to say, a garantia de dias melhores.

Há quem esteja sempre adequado ao seu tempo e, mais tarde, apareça fotografias usando roupas de estampas ridículas e suíças feiíssimas no rosto. Mas há quem perceba – e esse não é o seu caso, my friend – que se aproximar ciberneticamente de alguém, conversar ou brigar, discutir ou informar tem desvantagens sobre a qualidade de um diálogo olhos nos olhos, com gente real, feia, bonita, interessante ou insossa.

O curioso é que as mesmas pessoas que defendem a inovação, as you do, costumam defender a estagnação, em nome de valores ambientais. Pois o melhor, a meu ver, é não ir tanto ao mar, nem tanto à terra.

Tenho visto hotéis modernos e luxuosos esmerando-se em oferecer novas tecnologias a seus clientes, o que é louvável. Em vez de abrir a porta do apartamento com uma chave, você usa um controle estranho (uma bola, iPod ou um sensor) que também tem o poder de abrir janelas, controlar as luzes, ligar os chuveiros, a televisão e o que for.

Muitos deles são comoventes. Você não tem mais o trabalho de ligar o interruptor para iluminar o lugar. Basta fazer um curso de três meses sobre o funcionamento da traquitana e, depois, após três ou quatro operações distintas, chegar ao mesmo resultado. O que é genial, my friends, especialmente se você se lembrar de como o fez, para poder repetir a ação no futuro. Um amigo usou, recentemente uma ultra-avançada chave sensorial que o desobrigava de qualquer coisa. Bastava passar perto de algum controle para produzir a ação. Ou seja: o gadget ligava o ar-condicionado e abaixava as cortinas. Se o hóspede, nevertheless, passasse casualmente perto de uma área sensível, o chuveiro ligava no exato momento em que ele queria a luz de cabeceira. E, ao desligar o chuveiro, o pobre corria o risco de a televisão ligar em algum canal da Coreia do Norte, em um volume incontrolável, a não ser que, por sorte, ele encontrasse o botão da chave geral que, at last, resolveria o seu problema.

Adoro ideias inteligentes e modernas. Mas apenas se elas forem modernas e inteligentes. Aparelhos e tecnologias que levam a vida a piorar e, of course, a ficar mais cara, não me interessam. Mas eu concordo que isso é coisa de velhos como eu. Be happy, my friend!”

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