Arte|Estadão
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Nunca mais outra vez

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

26 Janeiro 2016 | 03h00

Nosso inquieto viajante aceitou o convite de um velho amigo norueguês e embarcou num cruzeiro que o tal amigo capitaneia no Caribe. Sua mensagem, portanto, foi produzida em Jost Van Dyke, “uma de nossas Ilhas Virgens Britânicas, muito mais belas do que as americanas, if I may say”. A seguir a correspondência da semana:

Querido Mr. Miles: fiz uma viagem para a Europa há 20 anos com meu marido. Decidimos repetir a experiência em setembro passado. Para viver a mesma extraordinária emoção da primeira vez, optamos por ir aos mesmos lugares, hotéis (exceto um, que havia fechado) e restaurantes. Foi muito bom, mas completamente diferente. O senhor acha possível repetir experiências?

Marion Svendall, por e-mail

Well, my dear: ainda bem que elas nunca são iguais. Don’t you agree? Minha beloved Lea, cozinheira de mão cheia costuma, a meu pedido, produzir iguarias que me deram imenso prazer em ocasiões anteriores. In fact: continuo tendo enormes alegrias, mas os pratos jamais se repetem. Ou Lea não repete os mesmos ingredientes, porque sequer se lembra do que usou, ou o meu paladar está diferente and so on. Os melhores vinhos estão sempre mudando, conforme a insolação, a temperatura e a qualidade do terreno. Conservam-se, of course, muito parecidos, mas o tempo e a uva mudam seu sabor e estabelecem uma hierarquia entre as safras. As únicas coisas que se repetem, enjoativamente sem mudanças, são os refrigerantes industrializados e a reeleição de políticos desonestos e antiéticos.

De resto, darling, as coisas mudam – e esse é o encanto da vida. Veja sua viagem: pelo que pude inferir, você tentou conseguir uma cópia exata da foto que fez há duas décadas e que tanta alegria trouxe à sua alma. Repare quanta utopia havia em sua premissa. Nem você, nem seu marido são os mesmos, embora possam ter, inclusive, ficado mais felizes e apaixonados. Os lugares, como as pessoas, têm sua própria dinâmica. Mudam mais ou menos rapidamente, mas sempre seguem por algum caminho, seja o do progresso ou o do declínio. Até na estagnação as coisas deixam ser o que eram. E, suponha que, de alguma maneira, fosse possível encontrar tudo do mesmo jeito, no mesmo lugar. Oh, my God! Ainda assim, as variáveis meteorológicas, os aromas, as marés, as pessoas ao redor, tudo seria naturalmente diferente. E eis porque viajar assim é uma ventura. O mesmo amor, agora modificado, como você mesma. Uma nova descoberta de um lugar igual.. That’s why, my dear, eu jamais vou aceitar o argumento de que alguém não quer voltar para determinado endereço porque já o conhece. Temos de ter a humildade de entender que jamais teremos tempo para conhecer nada, a não ser o que se nos apresenta a cada dia.

Aposto que alguns dos hotéis para os quais você voltou agora tinham paredes descascadas e um serviço menos atencioso do que o de suas lembranças. Como outros, que te agradaram, perhaps, pela rusticidade, foram remodelados e ganharam novos ares. Você vai ter os de vinte anos atrás guardados em suas memórias e, eventually, em suas fotos. E o mesmo acontecerá com os de agora, se o susto pela não repetição dos fatos for transformado em surpresa pela novidade do reencontro.

Se você repetiu, como disse, até os restaurantes, não duvido que velhas lembranças despontaram para emocioná-los. E é isso o que realmente importa. Porque, quanto aos pratos, estou seguro de que vocês tiveram a mesma experiência que eu, cada vez que como com a querida Lea.

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