Nunca olhe em seus olhos

Com tempo de sobra em suas férias caribenhas, nosso grande viajante resolveu tirar o atraso de sua caixa postal e respondeu a duas perguntas de leitores:

O Estado de S.Paulo

28 Fevereiro 2012 | 03h09

Mr. Miles: estou de mudança para a Alemanha, onde vou me casar com um senhor muito simpático que passou as férias aqui em Ilhéus. O senhor acha que vou ter dificuldades de adaptação?

Rosana Macedo, por e-mail

"Oh, my dear Rosana, você também vai para a Alemanha? That's amazing! Tenho a impressão de que buscar mulheres brasileiras é o esporte nacional dos alemães. O que será que está acontecendo com as mulheres teutônicas? Well, nem vou especular. O fato, my dear, é que os nossos eternos guerreiros têm uma queda especial pelas morenas do Brasil. Aliás, está aí um ponto em que eu concordo com eles, apesar de nossas antigas diferenças.

Você pede meu conselho? Well, honey, a Alemanha é um país muito peculiar. Não lhes falta nada: a qualidade de vida é excelente, as cidades são muito bem equipadas, os serviços de educação e saúde são ótimos. O único problema que você vai enfrentar é uma certa frieza no relacionamento com as pessoas. Ressalvadas as exceções, que sempre existem, os compatriotas de Sebastian Vettel têm muito mais facilidade de fazer inimigos do que amigos.

Não pense que isso é ressentimento britânico, porque, afinal, fomos nós que ganhamos a guerra. De qualquer maneira, Rosana, você fará, com certeza, muitos amigos de outras origens, especialmente quando for aprender alemão, uma tarefa de dar cãibras na língua. Quanto aos germânicos, você verá que, de dia, são muito disciplinados e pouco amáveis. À noite, depois de algumas cervejas (esplêndidas, preciso admitir), muitos deles se tornam exatamente o contrário: nada disciplinados e excessivamente amáveis. But I'm sure de que, com seu jogo de cintura baiano, não será difícil domá-los. Nós o fizemos em 1945, remember?

Deixando de lado o sarcasmo (sorry, há ocasiões em que não resisto), a verdade é que a Alemanha tem lugares extraordinários. Berlim, hoje, é uma das cidades mais cosmopolitas do mundo. Dresden, uma joia barroca já quase totalmente recuperada. Hamburgo é um lugar chiquérrimo, com ares escandinavos. Se você vai viver por lá, não deixe de explorar a fundo esses lugares, seus museus, cafés e restaurantes.

Torço para que seja muito feliz com seu futuro esposo. No fundo, my dear, acho que todos os comentários maldosos que fiz são apenas uma ponta de despeito deste cidadão britânico. By the way, vou considerar a hipótese de passar minhas próximas férias na Bahia."

Mr. Miles, como viajante experiente, diga-me: o que se deve fazer para escapar do assédio de vendedores insistentes que nunca desistem?

Marcelo Serrano, por e-mail

"Well, my friend: um amigo turco, o grande Emre Cennet, artesão em ouro de preciosas filigranas, explicou-me um dia qual é a única maneira de evitar vendedores chatos em qualquer lugar turístico em que haja tal cultura da insistência. 'Never look at their eyes (nunca olhe em seus olhos)', disse-me ele, com sua voz gutural, enquanto sorvíamos um delicioso chá de maçãs verdes em sua casa de Beyoglu.

Recordo-me de que, naquele dia, eu estava very upset com essa história de assédio e de empurra daqui, segura de lá de ambulantes cheios de traquitanas em Istambul. De um deles só consegui me livrar comprando uma hedionda miniatura da Mesquita Azul - made in China, of course.

Desde então, evitei o olhar de todos os ambulantes que me acossaram mundo afora. E, believe me: funcionou. São os olhos e não as mãos ou ombros que iniciam uma conversa. Sem eles, simplesmente não há contato e os vendedores se vão."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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