Adriana Moreira/Estadão
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O amor é viajante

Quantas vezes você já se apaixonou em uma viagem? Quantas vezes seu amor 'subiu a serra'?

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

26 de março de 2019 | 03h00

O uruguaio Raymundo havia acabado de nos conhecer quando contou sua experiência de vida no Brasil. Estava de passagem pelo País com seus 20 e poucos anos, embarcado num navio como trabalhador, até que conheceu a brasileira do Espírito Santo que lhe faria mudar de endereço por uns dois anos. “Essa história de que navegante tem um amor em cada porto é verdade”, disse ele, num portunhol afiado. Mentira. No caso dele, foram ao menos dois por aqui. “Acabei voltando para o Uruguai porque fiquei com a amiga dela...”  

Nos últimos dias, temas relacionados ao amor (paixão, infidelidade, pegação…) invadiram minha caixa de correio como sugestões de pauta. Em geral, pesquisas engraçadinhas de diferentes buscadores sobre o quanto nós, os brasileiros, nos apaixonamos em viagens. Mas também ilações oportunistas e machistas sobre relacionamentos vindas de um aplicativo que diz unir “mulheres jovens, atraentes e ambiciosas” a “homens (mais velhos) poderosos”. “Daddies” que bancam “babies” no tal relacionamento “sugar” – certas vezes, gostaria que existisse no mundo lixeira tal qual a do e-mail.  

Lançando mão da expressão fácil “segundo especialistas”, diz o release deste aplicativo que a infidelidade é algo que, mais cedo ou mais tarde, chegará a 60% dos casais – e que o Rio de Janeiro é campeão das traições. Bom, Raymundo é uruguaio e vejam vocês...

Mas voltando às pesquisas engraçadinhas. Elas trazem dados curiosos e conflitantes: uma diz que brasileiros não somos muito de romance: “65% dos entrevistados diz nunca ter se apaixonado numa viagem”. Desconfiamos – Raymundo e eu. Outra afirma com precisão: “mais da metade (55%) deles utilizou aplicativos de relacionamento para conhecer novas pessoas durante suas viagens” de verão. Tendo a concordar mais com essa estatística, apesar de não poder dizer que faço parte dela.

Claro que já me apaixonei em viagens (suspiro!). Paixão desde aquelas de relance, que começam e terminam numa mensagem enviada no grupo das amigas dizendo o quanto era gato aquele moço chileno que me fez voltar três vezes na máquina raio X da imigração – agradeci e voltaria mais três vezes por ele, confesso. Até aquelas de uma noite que começam a se consumar ainda no corredor de um hotel londrino depois de alguns pints. Também meu coração – ou seria mais meu corpo? – pegou estrada, “subiu a serra”. Viajou horas de ônibus até o interior do Rio de Janeiro só para ter mais um fim de semana ao lado de um fluminense que conheceu no carnaval de outro interior, o de São Paulo. 

Nunca, contudo, fui até o fim com aplicativos “busca-crushes” em viagens. No máximo, fiz contatos que estão lá, na lista de amigos com nomes estrangeiros do meu Facebook. Mas já me diverti ao lado de uma colega que levou a brincadeira no Tinder a sério e convidou o crush norueguês, para o nosso jantar de imprensa. Soube, meses depois, que ele veio para o Brasil reencontrá-la. Admirei a travessia. 

Como escreveu a historiadora Mary del Priori no livro História do Amor no Brasil, o amor (e suas derivações) muda não só no espaço, mas também no tempo. Não é preciso consultar especialistas, afinal, para afirmarmos que o amor não é algo estático. É transformado socialmente, muda a forma de se apresentar e de ser sentido a cada geração, em cada classe social, em cada lugar. 

Por exemplo: a ideia de amor romântico que conhecemos hoje no Ocidente, que une satisfação sexual e amor num casal oficial, começa a surgir apenas entre os séculos 18 e 19. É uma mudança brutal nas mentalidades, na forma humana de lidar com os sentimentos, com o corpo, com a vida privada. E essa ideia tampouco é a mesma hoje em dia, com o avanço das discussões sobre feminismo e liberdades sexuais que se seguiram.

Quando no Rio, ouvi a história da urbanização da Barra da Tijuca a partir de relatos de moradores e amantes que, à procura de um lugar afastado e ainda deserto nos anos 50, iam até lá trocar beijos e carícias. O amor é tão fascinante que não só ele tem história como é capaz de reconstruir a história dos lugares. Melhor: é capaz de nos mover a outros lugares. 

Todas as paixões aqui citadas ficaram para trás. Mas Raymundo aprendeu a falar português definitivamente no Espírito Santo. O norueguês jamais esquecerá as belezas de Ilhabela. E qual outra situação me levaria a pisar em Campos dos Goytacazes? 

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