Marcos Mendes/Estadão
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Gilberto Amendola
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O bolero do visto negado

Por que ser recusado por um país pode ser pior do que perder um amor

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2019 | 03h40

Parei na primeira padaria. Pedi um pingado. E pão com manteiga na chapa. O consulado ainda estava fechado. Olhei para o relógio cinco vezes em menos de dois minutos. Adianta ser o primeiro da fila? Por que tão antes do horário agendado?

Sonhei com esse cenário. Preenchi o formulário. Sei tudo o que eu preciso dizer para não ser rejeitado. Estou preparado para ouvir quase tudo.

Exceto uma coisa: visto negado.

Escolhi a roupa mais discreta e fiz a barba. Só não coloquei uma gravata porque achei uma opção exagerada e suspeita. Não quero que pareça uma entrevista de emprego.

Eu só quero ser aceito.

Diz que sim.

Diz que posso cruzar seu território.

Adentrar seu continente.

Comer fast no seu fast-food.

E passar 15 dias gastando... em dólar.

De resto, pode rir do tamanho do meu PIB – não é lá essas coisas mesmo.

Só não me venha com essa história careta de visto negado.

Sou sujeito educado, sem antecedentes ou “posteriormentes”. Veja aí na minha ficha: nada de política.

Que país, me diga, que país não gostaria de ter um cidadão assim tão exemplar pisando o seu solo pátrio?

Só quero tirar umas fotos para o meu Instagram.

*

Bom, já está quase na minha hora. Pago a conta da padaria e sigo o meu destino. Coração está acelerado. Pareço preocupado? Vou na fé. País irmão. Não tem erro. Eles entram aqui no meu terreiro também. O que vale para um acaba valendo para o outro. Como é que chama um negócio desses? Reciprocidade. Se eu te amo, tu me amas.

Vai dar certo.

Trouxe todos os documentos. Certidão de nascimento, reservista, carteira de motorista e comprovante de residência. Fotos 3x4 eu tenho na carteira. E quando me perguntarem sobre a intenção da minha viagem, respondo sem vacilar: férias.

O rapaz na minha frente está demorando demais. Acho que não vai conseguir. Eu também não deixaria entrar. Achei esquisitão. Deve estar indo para morar. Ou pior, sabe-se lá.

Agora, se um cara desses passar é sinal que nem preciso me preocupar.

Vai ser moleza.

Sou uma força da natureza.

Imagina a vergonha? Ser rejeitado por um país? Um país!

É pior do que tomar um não da mulher amada. Que pelo menos é uma pessoa só, né? Coisa que dói, mas passa.

Agora, uma nação inteira te virar a cara? Um país desse tamanho dizer que não quer você por lá? Nem pintado de verde e amarelo! Vou bater em uma madeira imaginária pra isso nunca acontecer comigo. Xô, uruca! 

*

Chegou a minha vez.

Sim, yes, sim.

Meu holerite? Ah, claro. Não é grande coisa. Mas é questão de tempo. Já me prometeram um aumento.

Quem pagou minha viagem?

Eu mesmo. Ainda estou pagando. Em suaves prestações.

Só não reservei o hotel. Mas isso eu faço rapidinho pela internet.

Se já visitei outro país?

Teve um dia que fui com uma tia até a fronteira do Paraguai.

Fazer o quê?

Ué, comprar para revender.

Se eu sou casado?

Não, não, tenho andado muito ocupado. Namorei uma chinesa que vivia reclamando.

Pois não...

Minha intenção?

Férias.

Não, não.

Nunca pensei sobre o fim da civilização.

O quê? Normal...

Ah, ocidental.

Desculpe, estou meio surdo. Não, acho que não quero o fim da civilização ocidental.

Mas o senhor me perguntou isso só porque namorei uma oriental?

Não, não... por nada.

Só achei engraçado.

Engraçado, o senhor não ri?

*

VISTO NEGADO.

NEGADO O VISTO.

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