Phil Noble/Reuters
Phil Noble/Reuters

O chá das cinco e outras tradições viajoras

A beleza de um mundo em que os viajantes trafegam livremente, vendo, provando, gostando e aprendendo

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

13 Março 2018 | 03h00

Correções: 14/03/2018 | 19h44

Com os ventos da primavera começando a soprar em Brighton, onde esteve para visitar uma velha amiga que sempre gostou do mar, mas apenas para ver, “nunca para usar, Miles”, nosso correspondente aproveitou para encomendar um novo terno em Saville Row e mais um bowler hat em Lock & Co Hatters (seu último estava ligeiramente puído). Aparentemente animado com mais uma temporada de longas viagens e muitas histórias, Mr. Miles envia um grande abraço a todos os seus leitores e seguidores no Brasil.

A seguir, a pergunta da semana:

Querido Mr. Miles: gosto muito de suas histórias e de suas referências. E tem mais uma coisa que compartilho consigo: adoro a tradição do chá das cinco, embora não haja nenhum inglês em minha árvore genealógica. Gosto de tomá-lo diariamente com biscoitos amanteigados, diversos deles, cujas receitas vario. Recebo amigas, troco informações e algumas fofocas e ouvimos, alegremente, antigas serestas e chorinhos. É verdade que a cerimônia do chá das cinco já chegou a parar guerras? 

Egle Semiramis Costacurta, por e-mail

Well, my dear: antes de mais nada, quero lhe dizer que adorei a forma pela qual você realizou sua pergunta. Deu-me vontade de saborear seus cookies, imiscuir-me nas suas conversas e ouvir os sons que encantam suas tardes. Pude imaginar uma sala cheia de caprichos, com um guarda-bibelôs lustroso, móveis e tapetes de sólida origem e uma prateleira com fotos evocativas, tão lindas como as de minha tia Harriet, em Newcastle.

It’s amazing, mas devo lhe dizer que, probably, seus genes estão mais próximos do ritual mencionado do que os meus. Veja porque me atrai um mundo em que as boas ideias são compartilhadas. Muito antes de nós, britânicos, adotarmos esse hábito, os nobres lusitanos já o praticavam. Deixe-me lembrar que foram vossos navegadores – e não os nossos – que abriram o caminho marítimo para as Índias, de onde trouxeram deliciosos temperos e infusões, entre as quais o chá (o café, nativo das florestas do norte da Etiópia, só ocupou espaço nas cortes europeias muito mais tarde). 

Pois bem: além de terem sido vossos antepassados (Costacurta me parece um nome de origem portuguesa, I presume) os introdutores do chá na Europa, foi Catarina de Bragança – esposa de nosso monarca Charles II e tia tataravó de Dom João VI (que reinou, by the way, no Brasil) – a mulher que trouxe o Five O’Clock Tea para nossas tardes úmidas.

Confesso que, in fact, o costume talvez houvesse desaparecido, não fosse pelo apetite insaciável de Anna Maria Russel, a duquesa de Bedford, que decidiu institucionalizá-lo em 1662. Ladeado, of course, por uma farta coleção de pequenos sanduíches, biscoitos e doces – algo capaz de matar sua sofreguidão até a hora do jantar.

Ainda mais notável é lembrar que nosso Reino Unido não produz chá. Temos chuva para isso; falta-nos, however, o calor. Ou seja: de genuinamente britânico o chá das cinco tem apenas as chávenas (quando elas não vêm da China, by the way). Mas essa é a beleza de um mundo em que os viajantes trafegam livremente, vendo, provando, gostando e aprendendo. Evidentemente a prezada leitora sabe que, apesar de sua fama, não há sequer um bacalhau em águas portuguesas. Ou que o melhor macarrão do mundo veio da China. E que todas as batatas – inglesas, francesas, alemãs ou eslavas – provêm da América. Ou seja: não eram utilizadas ainda recentemente (em termos de história). Sem viajantes, nem suíços nem belgas teriam produzido seus deliciosos e típicos chocolates, porque o cacau é originário da Amazônia (believe me!). 

Portanto, darling, mantenha sagrado o seu hábito, desde que ele a continue fazendo feliz e interessada, como sua missiva me mostrou.

 

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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Correções
14/03/2018 | 19h44

Uma versão anterior desse texto colocava Dom João VI como pai de Catarina de Bragança. A informação foi corrigida

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