O clima não ajudou em Arraial. Mas elas estavam lá

ARRAIAL D'AJUDA - O combinado era nos encontramos no hall do hotel às 8h20, mas antes disso o telefone tocou. Era a recepcionista avisando que, pela segunda vez naquela semana, nossa saída para observar as baleias jubarte no litoral de Arraial d'Ajuda, Bahia, tinha sido cancelada. O vento forte e o mar bravo não queriam mesmo dar trégua - era uma questão de segurança.

Tania Valeria Gomes, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2012 | 03h09

Nós não iríamos para o mar, mas elas estavam lá, a cerca de 20 quilômetros da costa brasileira. Assim como as francas, as jubartes chegam por aqui em julho e ficam até novembro, para se reproduzir e dar à luz, após uma viagem de cerca de dois meses desde a Antártida. O número de baleias na costa brasileira quase quadruplicou em dez anos, segundo o Instituto Baleia Jubarte. No ano passado, foram mais de 11 mil - em 2002, eram 3 mil. Uma boa notícia.

A maioria delas se concentra ao sul da Bahia - há vários pontos de observação ao longo do litoral do Estado. O inverno baiano, que nem é tão inverno assim, coincide com a época da visita das gigantes. Na baixa temporada, este distrito de Porto Seguro acaba sendo uma boa dica para quem gosta de ecoturismo, mas não quer enfrentar os inconvenientes do verão: praias lotadas, filas e, claro, preços salgados.

O passeio para avistar as baleias é feito três vezes por semana pela Cia do Mar e custa a partir de R$ 145 por pessoa. Para quem viaja com a família, não há restrições quanto a idade. Ou seja: crianças estão liberadas (R$ 70 de 6 a 10 anos); aquelas até 5 anos não pagam.

As chances de ver as baleias são grandes. De acordo com a bióloga Thais Melo, que coordena o passeio, é possível encontrá-las em 95% das saídas. Caso elas não apareçam, a empresa devolve parte do dinheiro.

Quem já fez o passeio recomenda. Em uma das saídas, conta Thais, Guilherme Mansur, um poeta cadeirante, experimentou uma proximidade rara. Uma baleia passou bem perto da embarcação e borrifou água nos pés dele. A aventura rendeu o haikai (forma poética japonesa) Bahia Baleia.

Em segurança. A proibição internacional da caça às baleias em 1986 ajudou na recuperação da espécie e fez com que a zona de migração crescesse no litoral brasileiro. Apesar de os números atuais serem expressivos, Thais lembra que o montante destes animais na natureza não chega a 50% da população original. E que, quando a caça foi interrompida, apenas 15% das 11 mil encontradas atualmente havia sobrevivido.

Hoje, a principal preocupação das entidades que lutam pela proteção dessas gigantes - que chegam a medir 16 metros de comprimento e a pesar até 40 toneladas - é conscientizar a população do litoral sobre os perigos que embarcações e redes podem oferecer. Em Arraial d'Ajuda, por exemplo, a Cia do Mar cobra metade do preço para os moradores da região para que eles possam conhecer as baleias - e entender a importância delas no ecossistema.

Cantar, cantar. No mar morno da costa brasileira, as baleias estão, por assim dizer, de férias. Algumas nadam acompanhadas de perto pelos filhotes - estes, curiosos, são os que mais se aproximam das embarcações.

As mais exibidas saltam, uma das estratégias do ritual do acasalamento. Outra delas é o canto, forma de sedução exclusiva dos machos (as fêmeas também emitem sons, mas diferentes).

Você pode escutá-las, graças a um aparelho chamado hidrofone, um microfone subaquático. A aproximação é feita com cuidado, seguindo as especificações do Ibama. Além do mar estar calmo, é recomendado que a embarcação mantenha a distância mínima de 100 metros dos animais e desligue os motores. Só então o microfone é colocado na água. Um som único, que, mesmo sem pôr os pés na embarcação, você pode ouvir, clicando no link abaixo. Mas é como um show: ao vivo, certamente, será muito melhor.

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