Roman Nemec/Estadão
Roman Nemec/Estadão

O cobiçado Puerto Deseado

47°45'00?S 65°55'00?O

Ramon, O Estado de S. Paulo

26 Setembro 2017 | 02h30

“A chegada em Puerto Deseado foi mágica. Final de tarde, o sol se pondo e calmaria após a tormenta. A maré do lugar realmente me surpreendeu: com seus quase nove metros, a diferença entre a cheia e a vazante era impressionante”, lembra-se Roberto Bins Ely, IT analítico e professor.

A velocidade dos ventos caiu bastante e o Endurance zarpou de novo rumo ao alto mar. Os últimos dois dias se passaram sem grandes complicações e conseguimos navegar com três velas içadas. Maravilha! O vento de 25 nós sopra constante e unidirecionalmente, portanto não precisamos mexer com as velas por algumas horas. Passada a “boca” do canal de Magalhães, as ondas vindas de todos os lados batem no barco e molham o convés. Lauro espirituosamente observa: “Elas são os dentes curvados do Magalhães!”, o que nos faz rir.

De madrugada, Tiago, Felipe e eu subimos para o convés e tomamos uma generosa dose de rum. A noite está clara, e o céu, cheio de estrelas brilhantes. Depois um tempo, os outros amigos se juntam a nós. Esse é possivelmente o primeiro momento que podemos apreciar juntos desde a partida do Ushuaia. O capitão nos mostra a constelação do Cruzeiro do Sul (ou o jeito de encontrarmos o geográfico sul) e a curiosa estrela Sirius, que muda sua luz de verde para vermelha num instante.   

É um dia claro, quente e reina uma calma absoluta. A tripulação inteira, vestindo camisetas, toma sol e assiste os golfinhos, gaivotas e albatrozes. De repente, perto do barco, uma baleia pula e elegantemente mergulha nas águas azul-escuras. Apesar da agradável distração, todos olham ansiosamente para o horizonte e procuram a entrada para a cidade portuária de Puerto Deseado, localizada na província Santa Cruz.

Depois de mais de nove dias de navegação difícil, sonhamos com terra firme e uma ducha quente. Isso porque, durante a travessia, cada membro pode usar para sua higiene pessoal apenas 2 litros de água, os quais ele próprio tem de medir com uma garrafa PET. Para a surpresa de todos, essa quantidade é suficiente.

Por volta de 17 horas entramos no canal de Magalhães II. Não tiro os olhos do plotter. Porém, nessa região, sob a água, há muitas rochas perigosas. Uma hora depois chegamos ao píer da cidade e, como este não é adequado para veleiros, decidimos encostar num barco de pilotagem após uma conversa curta por rádio.

Embora as tarefas sejam distribuídas e, em geral, todos saibam o que fazer, às vezes um pequeno mal-entendido pode aumentar a tensão acumulada. E foi isso que aconteceu entre Marcos e Lauro, resultando numa altercação verbal que terminou com Lauro arrumando as malas e deixando a tripulação e o Endurance para trás. Infelizmente, esse também foi o fim da viagem para Jorge Bins. Ele havia sofrido um acidente dentro do barco e machucado as costas, então não aguentava mais velejar.

Os dois dias seguintes são agendados para realizar a manutenção do barco e comprar todos os suprimentos necessários. Faço uma visita a um açougue familiar não muito longe de porto, onde compro costela de cordeiro patagônico e outras carnes especiais. No fim do dia, saímos em grupos para as ruas noturnas da simpática cidade de Puerto Deseado. A cidade é muito procurada durante o verão por turistas que desejam visitar a colônia de pinguins de penacho amarelo, os quais observam os espectadores por baixo de suas sobrancelhas pretas e amarelas. Por causa da enorme diferença entre maré baixa e alta (que pode, no extremo, chegar a nove metros), é necessário ajustar o comprimento dos cabos do barco e, para alguns tripulantes, planejar horários de saída e chegada.

“Para desembarcar tínhamos que subir por duas escadas improvisadas que nos levariam ao solo. E aí estava meu problema, minha dificuldade, pois ambas as escadas estavam a mais de seis metros de altura, então tínhamos de esperar a maré subir para alcançá-las e chegar à terra firme”, comenta Adriana. Outra etapa que demanda planejamento é a passagem pela imigração. Ela costuma ser bastante demorada e pode representar uma surpresa desagradável se não for bem pensada.

À noite, antes da partida, convidamos o capitão do barco de pilotagem, Miguel, e seu contramestre para o jantar. Preparo uma carne assada ao vinho tinto com purê de batata e, como já é tradicional, abrimos uma garrafa de excelente Malbec para acompanhar. Ficamos contando histórias marítimas até de madrugada e, no dia seguinte, por volta das 8h30, ainda com a maré baixa, zarparmos e deixamos para trás Puerto Deseado, cidade que tão amigavelmente nos acolheu.

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