O couvert artístico nas companhias aéreas

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Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

09 Maio 2017 | 03h00

Nosso incansável viajante, um assíduo frequentador dos voos das mais diversas companhias aéreas desde os tempos em que o comissário flambava crêpe suzette na frente dos passageiros, responde às perguntas mais frequentes desta semana:

Prezado Mr. Miles: e eis que volta a norma que autoriza a cobrança pelas malas embarcadas em companhias aéreas. O que o senhor tem a dizer? José Antunes F. Contini, por e-mail

Well, my friend: já tive a oportunidade de escrever a respeito, sempre com a mesma indignação. Não me importa tanto a lei quanto o espírito da lei. Companhias aéreas, as you know, existem para transportar pessoas e mercadorias de um canto a outro no planeta. Bagagens, of course, são mercadorias e, por isso, podem ser cobradas. A questão é que, tradicionalmente, os passageiros sempre tiveram o direito de levar, em sua companhia, as malas de que necessitam, dentro de uma determinada limitação de peso.

Fair enough. O valor dos poucos quilos a mais sempre esteve incluído, for sure, no preço dos bilhetes. 

Eis que, em manobra para reforçar seu caixa, surge a liberdade para estabelecer preços para a bagagem, sem, é claro, que o valor antes embutido seja retirado. Dupla taxação, in other words. Pior: não sendo única, a regra será aplicada distintamente em cada empresa, de modo que, agora, o valor do bilhete é apenas referencial. É preciso que a ele se some o valor, variável, do preço do transporte da bagagem. A big mess! 

Como eu já tive a oportunidade de preconizar neste espaço – e sou apenas um viajante, não uma pitonisa –, o mundo caminha para os chamados preços mentirosos. Você vai a um hotel para se hospedar. Mas paga, além disso (em grande parte dos casos, I’m afraid) altas taxas para usar o Wi-Fi ou o telefone ou o estacionamento. O Wi-Fi? I’m sorry to say, mas até o mais humilde pub da periferia de Birmingham não cobra por esse serviço, que, besides, não tem custo nenhum para o taberneiro. 

Apenas os hotéis verdadeiramente classy incluem todos custos no valor da diária – e tornam-se mais simpáticos a quem os utiliza. Nos aviões, unfortunately, a realidade é a mesma e tende a piorar. Vejamos o que vai ser taxado a mais no futuro:

1- Taxa de reclinamento do assento. O passageiro vai poder comprar um combo que inclui, as well, a taxa da liberação da mesinha.

2- Conta de luz durante a viagem. O viajante dividirá um rateio pela iluminação da aeronave e mais uma continha pelo uso de sua luz de leitura.

3- Custo de entretenimento: um pequeno valor para a revista de bordo e outro, maior, pelo direito de ligar a televisão.

4- Taxa para chamar os comissários. As melhores companhias oferecerão, promocionalmente, um chamado free of charge.

5- Tarifa para uso do banheiro a bordo. Há muitos estudos a respeito, mas, por enquanto, prevalece a tese da utilização de uma espécie de taxímetro na porta do toalete, medindo o tempo de permanência do usuários.

6- Cobertores de bordo com preço fixo. Observação: se a demanda for baixa, a tendência é diminuir a temperatura na cabine.

7- Incremento no valor já cobrado por snacks, bebidas e refeições, associado a um controle mais rígido para evitar a entrada de farnéis na aeronave. 

Os valores terão de ser pagos à vista, em dólares, no momento da entrega do serviço. Ou seja: você define quanto a viagem custará, dependendo do que queira usar. Se, however, decidir não utilizar nenhum serviço, terá de pagar uma espécie de couvert artístico.

Apenas os itens de segurança, como cintos, flutuantes e mapa das portas da aeronave serão gratuitos, para que não se diga que as empresas são negligentes. 

Essas são as minhas previsões. Quem sabe o prezado leitor tenha outras sugestões a dar – ficarei feliz em publicá-las. My God: what a shame! 

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 312 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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