O defensor de joelhos

Ainda na ilha de Lemnos, onde reforçou seu bronzeado na praia de Myrina, nosso correspondente britânico analisa um episódio que recentemente entrou no noticiário, a partir da pergunta de um leitor:

O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2014 | 02h06

Caro mr. Miles: li sobre uma briga ocorrida dentro de um avião americano, na qual um passageiro usou um equipamento estranho para impedir que sua vizinha da frente reclinasse a poltrona. Parece-me claro que a senhora tem razão, mas eu gostaria de saber o que o senhor pensa a respeito e se já presenciou outras brigas em aviões.

Marcelo Honório, por e-mail

"Well, my friend, é claro que a lady estava com a razão. Aliás, em qualquer tipo de altercação entre homens e mulheres, o verdadeiro gentleman deve ceder o passo, ainda que esteja coberto de razão. Pelo menos foi o que aprendi em tempos mais elegantes, quando os homens abriam as portas de seus carros para as mulheres e elas sentiam-se galanteadas com o gesto.

Hoje, I presume, se um cavalheiro se adiantar para oferecer tal cortesia, ele corre o risco de levar a porta no nariz, pelo inesperado de sua atitude.

Anyway, dear Marcelo, conheço esse equipamento de que você está falando: chama-se Knee Defender e, of course, foi desenhado por um passageiro alto e de pernas longas. O apetrecho é tão imoral quanto os cones usados pelos little flannels (N.da R.: flanelinhas, em tradução literal) para apoderar-se de uma vaga de estacionamento - e, therefore, seu uso não poderia ser permitido.

However, sou obrigado a voltar a um assunto que há tempos me indigna: a falta de talento das empresas aéreas para lidar com a diversidade humana. No passado, o espaço interior das aeronaves era tão vasto que esse fenômeno passava desapercebido. Desde que os voos comerciais se popularizaram - e, nesse caso, a queda dos preços correu sempre atrás da queda da qualidade do conforto do viajante -, temos situações potencialmente estressantes a bordo dos aviões de carreira.

Convencidos de que todos os seres do universo têm entre 1,65 metro e 1,70 metro e pesam entre 50 e 70 quilos, as companhias aéreas oferecem cabines cada vez mais apertadas. Ouso pensar, sometimes, que, no raciocínio estulto desses senhores, quem não se encaixa nessas medidas é naturalmente muito rico e pode viajar na primeira classe ou na executiva.

O que proponho aqui, mais uma vez, é que, assim como nós somos fisicamente diferentes, os espaços e poltronas também o sejam. A passageiros mais rechonchudos, for instance, seria dado o direito de adquirir poltronas mais largas. Aos mais longos, maior espaço para as pernas. Os preços, of course, seriam ligeiramente maiores para quem ocupa área maior. On the other hand, a passageiros menores poderiam ser oferecidos espaços mais reduzidos, com a justa redução da tarifa. Isn't it possible? Confesso que não sou um designer de interiores, mas seres com a capacidade de criar knee defenders certamente poderiam propor soluções positivas.

Quanto à sua outra questão, my friend, não posso negar que tenha visto outras cenas de pugilato a bordo. Quase sempre, o estopim é o desrespeito pelo exíguo espaço alheio combinado com um consumo inadequado de álcool. Por inadequado entenda-se: maus bebedores com medo de voar.

Trashie, minha raposa das estepes siberianas, pode beber um número espantoso de doses de single malt sem causar qualquer aborrecimento aos demais passageiros. Mas é verdade que ela cabe em qualquer lugar, não precisa ficar espremida entre seus vizinhos e, em hipótese alguma, fará a cachorrada de usar um defensor de joelhos."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.