Fabio Motta/Estadão
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Gilberto Amendola
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O dia em que o Cristo Redentor cruzou os braços

Enquanto isso, a internet debatia se o gesto era de esquerda ou de direita

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2019 | 04h00

Os turistas tentavam tirar uma selfie tendo o Cristo Redentor como cenário. Era um grupo de estrangeiros se espremendo para caber na tela de um celular. A manobra só faria sentido se o próprio Cristo aparecesse ao fundo. Cinco minutos depois, eles conseguiram.

Ao checarem o resultado, perceberam que atrás deles o Cristo Redentor estava de braços cruzados. Não demorou para um congestionamento de helicópteros se formar ao redor do Cristo. Emissoras de TV tentavam a melhor imagem. O Governo fechou o acesso do público ao símbolo carioca. Na TV, o presidente e o governador do Estado prometeram esclarecer o fenômeno. Na internet, milhares de usuários tentavam entender se aquele cruzar de braços era de esquerda ou de direita.

No mesmo dia, nos Estados Unidos, a Estátua da Liberdade relaxava os braços e derrubava a tocha. A primeira reação do mundo foi encarar o desatino como uma ação promocional do próximo filme da Marvel. Donald Trump escreveu algo sobre um mexicano que cruzou a fronteira e teria se refugiado no sovaco da deusa romana. Na internet, milhares de usuários tentavam entender se o gesto era Democrata ou Republicano.

Em Madri, na Puerta del Sol, um urso deixava a condição de estátua e caminhava por entre os pedestres. As crianças batiam palmas de um jeito inocente. Já os adultos tentavam descobrir o truque, pensando se tratar de uma pegadinha de TV. O rei da Espanha pediu duas peças de jamón e trancou-se em seu gabinete. O exército estava de prontidão. Na internet, milhares de usuários tentavam entender se a caminhada do urso era a favor ou contra o movimento separatista catalão.

Em Bruxelas, na Bélgica, o Manneken Pis finalmente terminava o seu xixi. E, depois de três balançadinhas, saiu para caminhar com o seu membro infantil balançando livremente. Teve quem tentasse cobrir as partes do garoto, oferecendo-lhe um shorts. Alguns entenderam que naquele xixi interrompido estava algum sinal do apocalipse (e foram consultar a obra de Nostradamus). Na internet, milhares de usuários tentavam entender se o fim da urina do menino era pró ou contra imigrantes na Europa.

Em Londres, a estátua de Winston Churchill também ganhou vida. Por um bom tempo, passou despercebida. Teve quem pensasse se tratar de um quinto Beatle. Churchill foi visto comendo um fish and chips e tomando um pint de cerveja inglesa. Na internet, milhares de usuários tentavam entender se o Churchill celebrando a identidade local com um fish and chips e uma cerveja significava apoio ou desdém ao Brexit.

No museu do Rodin, em Paris, o Pensador, enfim, teve uma ideia. Ao redor dele, reuniu-se o que de melhor a academia francesa produziu nas últimas décadas, umas cabeças terrivelmente brilhantes. Todos queriam saber do que se tratava aquilo que o Pensador, durante tantas décadas, havia (bah...) pensado. O Pensador disse que nunca esteve refletindo sobre nada, apenas tirando um cochilo e sonhando coisas incríveis. Na internet, milhares de usuários tentavam entender se o sonho do Pensador era um sinal de apoio aos coletes amarelos ou não.

Em Florença, a estátua de Netuno saiu de sua inanição e foi procurar um lugar para beber um negroni. No bar, se indignou com a baixa qualidade do coquetel e ficou tão bravo que foi, ele mesmo, para trás do balcão preparar o drinque – com as medidas certas. A estátua foi encontrada três horas depois jogada na sarjeta. Na internet, milhares de usuários tentavam entender se a ressaca de Netuno era contra ou a favor o uso do VAR no futebol.

Em São Paulo, o Borba Gato achou melhor ficar quieto. Vai que alguém se lembra dele e decide começar uma campanha da internet para derrubá-lo. Assim, nenhum usuário se manifestou sobre o assunto. 

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