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O diabo que mora no frigobar

Será que alguém nota se eu pegar só uma daquelas minigarrafas de uísque?

Gilberto Amêndola, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2019 | 04h30

Sentado na cama, de costas para o frigobar, ele tenta não ouvir o chamado: “Pode pegar a miniatura de uísque, ninguém vai notar. Depois, você fecha a garrafinha e coloca no lugar”. Com as mãos no ouvido, ele se levanta e decide tomar uma ducha. Chuveiro de hotel é de uma complicação sem igual. A água está pelando e será preciso uns 5 minutos até encontrar um jeito de tornar o banho algo agradável.  

Muitas manobras depois, Rodriguez entrega-se ao exercício de separar aquilo que é moralmente aceitável do que pode ser enquadrado no código penal. “Se eu colocar esse xampu na mala, sou um ladrão? Não. O xampu pode. É brinde. Mimo. O mesmo vale para o condicionador, o sabonete líquido e o hidratante”, raciocina. “A touca de banho? Sim, também pode. O chinelo? Hum, o chinelo é uma questão. Parece descartável. Não creio que ele possa ser usado por outro hóspede... E o roupão? É tão macio. Não, o roupão é vendido pelo hotel. Não posso, não devo, não quero.” 

Ainda no chuveiro, Rodriguez repassou outros objetos: “Tolhas? Não. Toalhas são reaproveitáveis. Seria ecologicamente incorreto levá-las. O secador de cabelos não. Claro que não. Nem pensar. Nem tudo que cabe na mala é grátis”. 

Rodriguez voltou para a cama e ligou a TV. Uma gigante de plasma. Que tipo de canibal pensaria em levar uma TV de plasma? Por essa e por outras impossibilidades, astros do rock preferem atirar televisores pela janela. O frigobar fez um barulho estranho, parecido com o de uma risada cínica. Ele nunca pensou em atirar uma TV pela janela do quarto, mas a sensação não deve ser ruim. Rodriguez experimentou levantar um pouco o aparelho, sentir o seu peso e forma. Uma corrente de vento entrou pela janela. Como deve ser bom ser um rock star.

Rodriguez percebeu que precisava de água. O calor talvez estivesse mexendo com a sua cabeça. Como que por mágica, a porta do frigobar se abriu. Lá estavam elas, as miniaturas de bebida alcoólica, as garrafas de água, as latas de refrigerante, as cervejas, pacotinhos de amendoim... “Tudo o que está lá dentro custa o dobro ou o triplo do preço do que custa lá fora. Basta descer, andar cinco minutos e comprar umas coisinhas”, repetiu em voz alta. 

O frigobar fez um estalo como quem deixa um alerta. “O prazer de consumir coisas do frigobar do hotel só é comparável ao sexo. E isso quando o sexo é muito bom. Faça valer o preço da diária.”  

Resistir ao frigobar era uma questão de princípios. Rodriguez procurou a tomada em que ele estava ligado. Ia terminar com essa tormenta de uma vez. Ao invés disso, se viu enamorado por uma barra de chocolate. “Se eu colocar na minha mala, qual o problema? É tanto chocolate que ninguém vai se dar conta.”  

Não, não, aquele não era um pensamento de Rodriguez, nunca passaria pela cabeça dele consumir algo do frigobar e, sobretudo, consumir sem pagar. 

Ele cogita ligar para a recepção e pedir comida no quarto: um filezinho de frango, um suquinho de laranja e um pudim de leite. Não! Rodriguez transformou-se naquilo que ele mais temia: a pessoa que pede comida no quarto de hotel. Ele nunca se permitiu esse luxo. Não é da personalidade monástica dele bancar o rico. Daqui a pouco, seria o quê? Fumar no quarto? Roubar a bandeja, talheres, a manteiguinha! Outro barulho sai do frigobar, um regozijo.

Aquilo só podia ser uma força sobrenatural. Rodriguez já leu em algum lugar sobre possessão de eletrodomésticos e outros objetos. Por isso, teve quase certeza que o frigobar estava tomado por um ser maligno, um demônio brincalhão. Seria preciso exorcizá-lo ou fazer o check-out imediatamente. 

Ele começa a arrumar a mala com pressa. E joga tudo que pode dentro dela. Vai o xampu, o condicionador, o hidratante, o roupão, duas toalhas, o secador de cabelo, o rádio relógio, o abajur, o controle remoto da TV...

Quando a TV voou pela janela do quarto, o gerente do hotel e dois seguranças subiram até o andar onde Rodriguez estava hospedado. Ao abrirem a porta do quarto, encontraram um homem lambuzado de chocolate e tomando aquela que parecia ser a última miniatura de gim. Todos os produtos do frigobar estavam abertos.

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