Eduardo Asta
Eduardo Asta

O ecossistema múltiplo de Botsuana

Nosso roteiro contempla as três grandes belezas naturais do país: o Deserto do Kalahari, que ocupa 70% de sua área, o Delta do Okavango e o Parque Nacional do Chobe

Bruna Tiussu, Dar-es-Salaam

17 Abril 2018 | 04h25

Talvez seja proposital: o primeiro dia de viagem é gasto todo dentro do veículo, como um processo de adaptação necessário aos que embarcam nessa aventura. Partindo de Johannesburgo, na África do Sul, são 600 quilômetros até Kang, em Botsuana, a parada de estreia do tour. Durante o trajeto, percorrido em cerca de dez horas (o tal ritmo africano…), há tempo de sobra para se familiarizar com a estrada, os outros turistas — o grupo pode ter até 20 pessoas — e o caminhão, parte importantíssima da jornada (leia mais no link).

É de suas janelas que percebe-se a mudança gradual da paisagem urbana para a rural, em que o céu é mais azul, o sol brilha incansável e as árvores de acácias tornam-se onipresentes. Esta composição paisagística, quase um símbolo de Botsuana, será constante ao longo dos sete dias de viagem pelo país.

Grande em território, porém pouco habitada (tem apenas 2 milhões de habitantes), o país é um dos mais desenvolvidos do continente – tem o sexto maior IDH da África. Após sua independência do Reino Unido, em 1966, estabilizou-se democraticamente via exploração de diamante. Mais tarde, enxergou o potencial de seu ecossistema misto, e hoje a indústria turística é sua segunda maior fonte de renda. Nosso roteiro contempla as três grandes belezas naturais do país: o Deserto do Kalahari, que ocupa 70% de sua área, o Delta do Okavango e o Parque Nacional do Chobe.

Tradições vivas. É quando o caminhão entra nas estradas de terra que partem da cidade de Ghanzi que fica claro que muita gente chama o Deserto do Kalahari de lar. São tribos de bushmen, descendentes dos povos San, os primeiros a habitarem o sul da África. 

Apesar do modo de vida nômade ter ficado para trás – atualmente, vivem em vilarejos –, estes grupos continuam sendo caçadores excepcionais e mantêm ricas tradições ancestrais. Numa caminhada pela mata desértica, o guia Kaoga, da etnia Naro, conhece e sabe a utilidade de cada planta no caminho. “A natureza é nosso supermercado e nosso hospital”, afirma, em inglês e em sua língua nativa, que tem divertidos sons de “clicks" na pronúncia. Ele também mostra armadilhas usadas no passado e no presente para capturar de roedores a zebras. Hoje, as tribos dedicam-se à agricultura de subsistência, algo nunca feito pelos ancestrais.

Os bushmen acreditam na força do canto e da dança para chamar a chuva e proteger seus corpos de doenças. Nestes rituais, todos participam. As mulheres e as crianças começam sentadas ao redor da fogueira, soltando a voz e batendo palmas, enquanto os homens dançam em movimentos circulares. Depois de aquecidos, a cantoria ganha alguns decibéis e eles se revezam na “pista”. Segue assim até o sol nascer.

Labirinto natural. Também há povos nativos remanescentes no Delta do Okavango. A maioria dos que ficaram – quando foi decretada área de conservação nacional, cerca de 30 anos atrás, o governo incentivou as pessoas a deixarem o local – hoje se dedica ao turismo. São funcionários de lodges, motoristas e sobretudo guias nesse Patrimônio Mundial da Unesco.

O primeiro contato com o delta se dá num passeio de barco pela lagoa que banha o acampamento. É apenas uma das várias que compõem o ecossistema, considerado uma das maiores concentrações internas de água doce do mundo – um emaranhado de lagoas, canais e ilhas flutuantes alimentado pelas águas do Rio Okavango, que nasce nas terras altas de Angola e ali se concentram, sem nunca alcançarem o mar. O equilíbrio do nível d’água se dá apenas por meio da evaporação e transpiração das plantas.

Ao inundar as planícies secas do Kalahari, o delta deu origem a um manto fértil essencial para a vida na região. Estima-se que existam por ali 120 espécies de mamíferos, 60 de répteis, 70 de peixes e 400 de aves. Hipopótamos, águias e crocodilos têm nas temporárias ilhas de papiros suas moradas. São figurinhas fáceis.

A experiência delta adentro começa cedo na manhã seguinte, em um mukoro. Antes construída a partir de um único tronco de árvore, a canoa local agora é feita de fibra de vidro – pois também se salvam árvores em Botsuana. Os rasos e estreitos canais, como um labirinto, são emoldurados por camadas altas de papiros e enfeitados durante todo o ano por lírios d’água brancos e azuis. Uma composição que Monet certamente gostaria de ter pintado.

Leia mais: Os destaques da casa e do Jardim de Monet, em Giverny, na França

Terra dos gigantes. Seguimos pela estrada rumo ao extremo norte do país para cruzarmos a fronteira com a Namíbia. A nação vizinha só é contemplada neste roteiro por estar no meio do trajeto mais curto até o portão principal do Parque Nacional do Chobe, de volta em Botsuana. Graças às ótimas rodovias da Namíbia – herança da infraestrutura instalada pelos alemães na época de sua colonização –, a jornada é bastante agradável. E tem como pontos altos os impalas e kudos que cruzam as vias livremente.

Essas mesmas espécies são vistas aos bandos no Chobe, o mais antigo parque nacional de Botsuana, fundado em 1954. Num dia de sorte – e com um bom guia –, veem-se pássaros tão bonitos quanto o mergulhão-serpente e o pequeno roleiro-de-peito-lilás. Além de hipopótamos, búfalos, javalis, crocodilos e girafas. Mas a cena que marca o safári, aqui, é protagonizada pelos elefantes, que se espalham pela planície em grupos de 20, 30 indivíduos. São mais de 50 mil habitando as redondezas do parque – acredita-se que a maior concentração de elefantes de toda a África. São os verdadeiros donos do pedaço.

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