O enigma dos guarda-chuvas

Olá, mr. Miles. Veja o que me aconteceu no consulado americano de São Paulo. Cheguei bem cedo para evitar as longas filas e conseguir o visto. Como estava chovendo, tive de comprar um guarda-chuva. Relutei, no início, pois custava R$ 20. Como chovia forte, porém, não tive muita escolha. Quando fui para a entrevista pediram-me que deixasse, na entrada, pertences como o celular e o guarda-chuva. Até aí, tudo bem. Mas na saída, qual não foi a minha surpresa ao descobrir que os funcionários confiscaram o meu guarda-chuva. Eu e outras pessoas sofremos com esse abuso e, claro, não tivemos com quem discutir. Saímos inconformados e até agora não entendo por que fizeram isso.

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2009 | 02h26

Ernesto Marques, por e-mail

"Well, my friend, não compreendo o seu inconformismo. Você não tem lido os jornais ou a internet? A crise está brava! Mais do que nunca, os americanos estão procurando, of course, os valores perdidos na imensa crise de crédito em que afundaram todo o planeta. Não me parece, however, que essa decisão tenha partido da assessoria econômica de Obama. Prefiro imaginar que, nos estertores finais de seu mandato, o notável presidente Bush tenha emanado ordens do tipo ?precisamos ganhar dinheiro de todas as maneiras possíveis?. Isso, I presume, inclui as umbrellas. Don?t you think so?

Parece irrelevante, mas não é bem assim. Imagine só, my dear Ernesto. Os Estados Unidos da América devem ter, entre embaixadas e consulados, cerca de mil representações espalhadas pelo mundo.

Suponhamos que cada uma delas seja visitada, at least, por cinquenta pessoas por dia - o que, convenhamos, é um cálculo modestíssimo. Chegamos, portanto, a 50 mil guarda-chuvas por dia, ou 250 mil guarda-chuvas por semana, ou, ainda, 7,5 milhões por ano.

Há que se descontar, of course, os dias e os lugares em que os visitantes não precisem recorrer a guarda-chuvas por razões meramente meteorológicas. Presumamos, therefore, que as representações americanas confisquem apenas 3 milhões de guarda-chuvas a cada ano. Ao preço pífio de US$ 10 - o custo poderia ser cinquenta vezes maior no caso de um guarda-chuva Briggs (aqui mencionado na semana passada como o preferido do Príncipe de Gales) -, a modesta operação de confisco resultaria em US$ 30 milhões para os caixas de Tio Sam. Você há de me dizer, fellow, que esse valor não representa nada ante a imensidão de dívidas revelada por essa crise. Mas pense bem, Ernst: centenas, talvez milhares de outras pequenas operações quase invisíveis, como essa por você relatada, podem estar em andamento.

Perfumes, colônias, barbeadores, isqueiros e canivetes confiscados nos aeroportos de todo o planeta. Tratados internacionais que multiplicam, em muitas vezes, o valor da operação umbrella e de suas similares. Um mar de dinheiro jorrando, silencioso, dos mecanismos burocráticos - seja em nome da segurança, seja em nome da autocracia, ou de Dow Jones. O único inconveniente desse confisco inexplicável é que o posterior retorno dos produtos ao mercado informal acaba inibindo toda uma cadeia produtiva.

Meu amigo Lon Tsu Xian, fabricante de quinquilharias em Xangai, contou-me, recentemente, que estava sentindo uma forte retração no mercado de guarda-chuvas e atribuiu essa queda às mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global. Poor Xian. Mal sabe ele com quem está competindo? "

* Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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