O estranho quintal da nossa casa

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Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

06 Junho 2017 | 03h00

Nem é preciso dizer que o nosso correspondente ouviu todos os tipos de imprecações portenhas depois de dizer que os uruguaios são os argentinos sem topete e afirmar que Carlos Gardel nasceu ao norte do Rio da Prata. Mr. Miles aceita, com fairplay, todas as manifestações que recebeu. Mas lembra que, pelo menos no campo do humor (ou do mau humor), a guerra das Falkland (ou das Malvinas, para evitar novas discussões) não acabou. E só pode acabar, segundo ele, com “muitas gargalhadas de parte a parte”.

A seguir, ele comenta a correspondência da semana.

Mr. Miles: minha calorosa solidariedade por mais uma tragédia de origem terrorista que, dessa vez, atingiu Manchester. Está cada dia mais difícil pensar em viajar. - Osvaldo Marcins, por e-mail

Well, my friend, só tenho a agradecer suas palavras e as de outros muitos leitores que me deram conforto depois do atentado. Espero, however, que você não fique chocado com meus comentários a respeito. 

O terrorismo, as everybody knows, é uma covardia inominável. Mas, como não há meios de acabar com ele – assim como não se consegue reduzir os extremismos –, sugiro que ele seja reduzido ao que de fato é: uma coleção de atos esporádicos de violência que estão tão presentes no dia a dia dos países (não o vosso, thank God) como outras mazelas. Terrorismo é, for instance, poluição. Há como melhorar, mas é preciso conviver com ela, já que o mundo compartilha o ar e a água, e os esforços de alguns países são, unfortunately, (des)compensados pelo dar de ombros de outros.

Como todos sabem, adoro comparar nosso planeta ao quintal de qualquer um de meus leitores. Não viajar e ver o que há em outras partes equivale a não saber o que existe no seu próprio backyard, seja ele do tamanho que for. Deixar que terroristas babando de ódio atrapalhem seus planos de explorar outras terras equivale a não visitar seu canteiro de rosas por medo de que um raio caia em sua cabeça. Meu velho amigo, o estatístico Stan Sputtford disse-me, após o ocorrido em Manchester, que a possibilidade de um raio atingir um ser humano continua sendo maior do que o risco de ser vítima de um desses atentados de intolerância. Mr. Sputtford é o autor do clássico A Vida e Seus Riscos, Uma Visão Estatística.

Entre outras surpresas, o livro revela que a chance de um de seus aparelhos eletrônicos explodir com efeitos letais é muito maior do que a possibilidade de um avião com a turbina em chamas não pousar em segurança. Ou que, my God, pessoas com 1,80 metro de altura podem afogar-se de pé em piscinas com 1,60 metro de profundidade, porque a média das coisas não projete ninguém.

Há que se considerar, as well, se um Donald Trump não é capaz de provocar mais vítimas no mundo do que todos os terroristas juntos. Sputtford diria que não há a menor dúvida a respeito, mas – e aí sou eu que digo – nem por isso alguém deixa de ir aos malls de Miami ou aos parques de Orlando. 

Não estou seguro de estar sendo claro em minha argumentação. O que quero dizer, como sempre, é que a nossa Terra e seus habitantes de todas as espécies são uma mistura de indivíduos ou fatos de origens distintas. Há uma chance de todos encontrarmos um louco terrorista, como também há uma chance de ver um pôr do sol com oito arco-íris no horizonte. Você pode viajar de avião ou ônibus, do lado de um passageiro inconveniente e malcheiroso, ou de alguém que terá, no futuro, importância primordial em sua vida.

Essa é a imperfeição em que vivemos, a imperfeição que produzimos, mas que, ainda assim, é tudo o que temos. Unamo-nos nas preces pelas vítimas de Manchester. Mas sigamos entusiasmados pela possibilidade de ver e refletir sobre o quanto ainda podemos aprender visitando nosso próprio quintal.”

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 312 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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