Adriana Moreira/Estadão
Adriana Moreira/Estadão
Imagem Adriana Moreira
Colunista
Adriana Moreira
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O fim da era dos free tours?

Passeios a pé que funcionam no sistema de gorjetas surgiram como o suprassumo do turista descolado. Mas, agora está próximo do fim. Assim como o coque masculino

Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2019 | 06h00

Gosto de ouvir as explicações dos guias, conhecer histórias sobre o lugar que visito. Mas odeio grupões. Acomodar os interesses de duas pessoas em uma viagem já é um desafio, imagine então de 30? (Inclusive, deixo aqui minha mais profunda admiração pelos guias de grupões e sua paciência infinita.)

Um passeio grátis, com um morador que conhece bem a região, dá dicas que não estão nos guias de viagem e foge dos textos decorados. Há alguns anos, os free tours – passeios a pé nos quais o viajante dá uma gorjeta para o guia no final, no valor que achar melhor – surgiram como o suprassumo do turista descolado. Mas, como ocorre no ciclo da vida das coisas descoladas, ele atingiu seu ápice, começou a declinar e agora está próximo do fim. Assim como o coque masculino.

A proposta do tour gratuito era interessante por fugir dos programas-padrão, dos guias que usam guarda-chuvas de ponto de referência, do bolo de turistas andando como um rolo compressor por pontos turísticos. A proposta era trazer um outro ângulo e quebrar a barreira invisível que separa moradores e turistas. Aos poucos, eles começaram a se espalhar pelas principais cidades da Europa e seguram para cidades menores, outros continentes – São Paulo e Rio também têm os seus. E, à medida que foram se popularizando, perderam sua essência.

LEIA TAMBÉM: Como evitar um 'perrengue chique'

Li recentemente uma reportagem sobre as condições em que trabalham tais guias – de certa forma, bem parecidas com as dos entregadores de aplicativos. Protegidos pelo anonimato, ex-guias contam como têm de pagar comissões altíssimas sobre seu trabalho às grandes (e supostamente descoladas) empresas para as quais prestam serviço. Pressionados, eles precisam fazer uma foto do grupo como obrigação não para ser uma lembrança nas redes sociais, mas para a empresa ter o controle do número de indivíduos participantes – e do montante que o guia deve trazer.

Mas, como na teoria a prática é outra, lá fui eu reservar um desses tours por Roma. Era minha segunda passagem pela cidade e, como na primeira não fiz nenhum passeio guiado, achei que poderia ser uma alternativa interessante para ter um outro olhar sobre a capital. Era fim de outubro, já fora da alta temporada, e imaginei que seria tranquilo.

Pesquisando eu já percebi que poderia ter problemas. Uma das empresas exigia uma reserva de 2,50 euros pelo tour grátis; a outra pedia reserva prévia, mas sem necessidade de depósito. Como em euro toda economia é valiosa (especialmente quando ele está acima dos R$ 4,30), optei pelo segundo.

Alerta vermelho

Quando cheguei ao ponto de encontro na Praça Espanha e vi a guia com um guarda-chuva como ponto de referência, igualzinho aos grupos de tours tradicionais, o alerta vermelho soou na minha cabeça. Ainda assim, achei que deveria dar uma chance: poderia ser apenas uma forma de reunir as pessoas.

Logo descobri que haviam duas turmas, uma de inglês e outra de espanhol. Fiquei ali meio de olho: iria naquela com menos turistas. O que não aconteceu: os dois grupos eram imensos, e mal se ouvia a voz da guia. Bati em retirada.

Um meio termo entre ambos são as chamadas “experiências”. O Airbnb tem uma sessão só delas, com propostas (e preços) bem diferentes, que propõem um outro olhar sobre o lugar. No dia seguinte, escolhi uma delas e fiz um bike tour pela cidade com um grupo de apenas cinco pessoas. Foi excelente.

O site Rent a Local Friend tem proposta similar. A ideia é “alugar” um amigo que te apresente o que há de bacana em um lugar fora dos roteiros turistões. O site tem o perfil de vários “amigos”, para você escolher o que melhor se encaixa com o seu perfil.

Os casos acima têm o preço como desvantagem – não são necessariamente caros, mas tampouco podem ser considerados baratos. Algumas cidades têm tours grátis (ou por preços convidativos) oferecidos pela própria prefeitura. É o caso de Buenos Aires, onde é possível fazer um passeio de bike pela cidade sem custo. Esses tours podem ser concorridos, então pesquise com antecedência.

Tudo o que sabemos sobre:
turismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.