O fim e o começo do Brasil

Roraima pode ser o fim do País ou o começo: tudo depende do seu ponto de vista

FELIPE MORTARA / BOA VISTA, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2014 | 02h07

É longe. Noutro hemisfério. Até o fuso horário é diferente. Sabemos pouco, muito menos do que deveríamos, sobre esse Estado. Eu imaginava que, por estar tão ao norte, veria muita floresta. E não vi. Pensava ainda que veria muitos índios. Mas também não vi. Porém, a bem da verdade, isso foi incrível: Roraima é daqueles lugares que vai além dos clichês.

Os 2.500 quilômetros de distância em linha reta de Boa Vista a Brasília podem fazer você pensar que o Brasil termina em Roraima. Mas, para o roraimense, é ali que começa o País - mais precisamente, na Serra do Caburaí, 84 quilômetros ao norte do Cabo Orange, no Rio Oiapoque, no Amapá. Sob essa lógica, a expressão correta deveria ser "do Caburaí ao Chuí" para designar esse Brasilzão de meu Deus.

Tudo bem, algumas coisas são mesmo como você imagina: faz calor o ano todo. Numa madrugada de junho (verão por lá, já que estamos no Hemisfério Norte), os termômetros marcavam 27 graus às três da manhã - e dizem que em agosto é ainda pior.

Assim como em outros Estados da região Norte, Roraima também é regido por um grande rio que o corta. Mas, ao contrário do que a lógica supõe, o Rio Branco não foi batizado por sua tonalidade e muito menos por ser afluente do Rio Negro (a 580 quilômetros), mas em homenagem ao diplomata Barão do Rio Branco (1845- 1912).

O Rio Branco - o de nadar e navegar, não o barão - talvez seja o parâmetro mais claro para entender as duas estações que dão as caras nesse trecho tão particular do Brasil. Entre abril e setembro, o verão traz chuvas que enchem os rio e alagam os campos. Enquanto de outubro a março, no inverno, os temporais cessam e as águas baixam, formando lindas praias de rio, com um calor de fazer passarinho voar com uma asa e se abanar com a outra, como se diz por lá.

Mais da metade dos 224 mil quilômetros quadrados de Roraima, vale dizer, são compostos de rios e lagos. E se o leitor pensa que o restante é basicamente selva, está enganado. Há sim uma enorme área de floresta amazônica - entretanto, um tipo de relevo pouco falado no Sudeste domina o norte do Estado: o lavrado. Trata-se de uma região de savana (não, não é só na África que tem) de quase 70 mil quilômetros quadrados que compõe um ecossistema único, sem correspondente em outra parte do Brasil. Exatamente como Roraima.

Nossa tribo. Mas, afinal, quem são os 490 mil habitantes desta Roraima tão desconhecida? O Estado menos populoso do Brasil guarda traços indígenas, que se misturam a negros e europeus, caboclos e gente de todo o Brasil. Conheci pessoas da Bahia, do Rio Grande do Sul e de Brasília. Até mesmo a prefeita de Boa Vista, Teresa Surita, em seu quarto mandato, é paulista. Uma mistura tão retumbante que todo 27 de junho celebra-se o Dia do Mestiço, feriado estadual.

Por outro lado, a Funai estima que haja cerca de 55 mil índios vivendo em 10.381.926 hectares de terras demarcadas, o que representa 46% da área do Estado, fazendo de Roraima o segundo com maior população indígena, atrás apenas do Amazonas. Uma parcela pequena vive nas cidades. As etnias wapichana e macuxi são majoritárias entre as nove presentes no Estado.

É comum, aliás, pessoas nascidas em Roraima se apresentarem como macuxis (ainda que não sejam indígenas), como um sinônimo de roraimense. Também fica em Roraima - mas bem longe de Boa Vista - a terra dos ianomâmis e outras reservas cujos nomes ecoaram no noticiário nacional, como Raposa Serra do Sol. Conhecer aldeias indígenas, contudo, não é tarefa fácil, não apenas porque boa parte delas está distante de Boa Vista, mas principalmente porque seus moradores não estão interessados em receber visitantes e entrar na nossa lógica de fazer turismo.

Por isso mesmo, é bom ter em mente que visitar Roraima foge do trivial, do preestabelecido, do milimetricamente organizado. Depende muito do empenho e dos interesses de cada visitante. De trekking a pesca esportiva, de observação de pássaros a paraquedismo. Como você verá nas próximas páginas, as atrações naturais e as opções de atividades ao ar livre são inúmeras. Dá até para cruzar a fronteira e conhecer a vizinhança: Guiana inglesa e Venezuela. Mas para chegar - e aproveitar - o lugar onde o Brasil começa é preciso desafiar o senso comum. Eu achei que valeu a pena.

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