O fino do barroco e da arquitetura colonial

Pelas ladeiras sofridas e ruas de pedras que contam histórias. Pelo casario conservado cuja pintura parece ter sido retocada ontem. Pelo ouro que forjou sua fama encravada entre tantas outras pedras. Pelos museus e pela obstinação de seus personagens na Inconfidência Mineira. Pela delicadeza e capricho dentro e de fora das igrejas. Pelo conjunto da obra e pela profusão de detalhes peculiares, Ouro Preto cativa.

OURO PRETO, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2014 | 02h06

Seja no começo ou no fim da Estrada Real, é sempre bom e enriquecedor parar por aqui. Se já não brota ouro nos leitos de seus rios, estudantes e turistas ocupam as ruas íngremes, mas nada intimidadoras. Pelo contrário, Ouro Preto convida a caminhar, a procurar por seus ângulos e mirantes - eu mesmo fui parar em um impressionante, o do Morro de São Sebastião. Mas, cá entre nós, vista e morro é o que não falta.

Não demora muito para entender por que a cidade é Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. A Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, a das torres redondas e mais onipresentes nos cartões-postais, foi construída entre 1766 e 1812. Sua fachada é uma obra-prima da arquitetura colonial mineira. No forro de sua nave, Manuel da Costa Athayde, o Mestre Athayde, estampou com esmero a imagem de Nossa Senhora Rainha dos Anjos. Já o altar e o frontal são dominados por trabalhos de Aleijadinho. A entrada custa R$ 10.

Do outro lado da Praça Tiradentes, o coração da cidade, a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar chega a assustar pela quantidade de ouro - são mais de 400 quilos - espalhado por seus altares, exemplos máximos do barroco brasileiro. Preste atenção no efeito ótico da figura do Cordeiro de Deus no teto: à medida que o visitante caminha, os lados da cruz parecem se mover. Inusitado, ainda mais em se tratando de uma igreja concluída em 1733. O mesmo ingresso (R$ 10) também dá acesso ao Museu de Arte Sacra, no subsolo da sacristia, com esculturas preciosas do século 18.

Só para concluir a trinca dos templos fundamentais de Ouro Preto, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição tem projeto de Manuel Francisco Lisboa, pai de Aleijadinho, cuja construção foi concluída em 1746. O altar-mor exibe belos entalhes de símbolos eucarísticos. Pai e filho artistas estão sepultados ali. Para visitar todas igrejas, vale contratar um guia - em média, R$ 20 por igreja por uma hora de visita (31-3559-3269).

Haja passado. Em uma cidade onde até a mais singela das casinhas tem história para contar, não é de se espantar que uma série de museus seja outro eixo forte de uma visita a Ouro Preto. A Casa dos Contos (R$ 5; 31-3551-1444) era uma residência que se tornou ponto de pesagem e fundição do ouro extraído na região. Hoje, exibe documentos e livros antigos, mobiliários bicentenários, sem falar no forno onde era fundido o metal. Pelo valor histórico, vale conferir o painel com as cédulas (contos) que o Banco Central mantém para mostrar a evolução das moedas brasileiras.

O Museu da Inconfidência (R$ 10; 31-3551-1121) abriga as lápides de 13 dos principais inconfidentes e também as traves onde supostamente Tiradentes foi enforcado. Entretanto, não há dúvidas de que o livro - também no local - com a declaração de condenação à morte é mais que autêntico. Recomenda-se o uso de audioguia (R$ 8) para conhecer detalhes de cada ambiente e também da rotina dos antigos moradores de Vila Rica.

A delicadeza e a conservação da Casa da Ópera (entrada R$ 3) são capazes de fazer o visitante se imaginar em 1770, ano de sua abertura, no auge da teatralidade barroca mineira. A mais antiga casa de espetáculos em funcionamento do País já teve figuras do quilate de d. Pedro I e d. Pedro II aplaudindo peças do camarote destinado à Família Real entre os mais de 300 lugares. Ao chegar à cidade, vale telefonar (31-3559-3224) ou passar por lá para se informar sobre a programação.

Maria-fumaça. Por fim, viaje - literalmente - no tempo, a bordo do Trem da Vale, uma maria-fumaça que liga Ouro Preto à vizinha Mariana. O percurso de 20 quilômetros é percorrido em uma hora, cruzando cachoeiras e vales verdinhos. Tente ir numa manhã ensolarada - o que não foi o meu caso. Ainda assim, o passeio vale a pena. Cada trecho custa a partir de R$ 56 nos vagões convencionais e R$ 80 no panorâmico (tremdavale.org).

Conheça também a Sala das Memórias, na estação de Ouro Preto, com depoimentos multimídia de antigos moradores sobre sua relação com a ferrovia. Relatos comoventes, a ponto de o visitante criar, ele mesmo, sentimentos pela ferrovia, pela cidade e por Minas Gerais, como um todo. / FELIPE MORTARA

Mesmo com totens já espalhados, a rota peregrina de 1.032 quilômetros do Caminho Religioso da Estrada Real (Crer), entre os santuários de Piedade, em Caeté (MG), e o de Aparecida (SP) não tem data de lançamento prevista

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