O grande doutor Nelson

Mr. Miles foi à África para praticar um pouco de birdwatching. Os que o conhecem sabem que, quando procura refúgio entre pássaros, nosso correspondente está entristecido. E não é pouca coisa dessa vez. O homem mais viajado do mundo perdeu, há dias, um dos seus melhores amigos, o sempre intenso Nelson Montag. Entre tantas pessoas que tinham prazer em ouvir os relatos de viagem de mr. Miles, ninguém o fazia com a avidez daquele amigo especialmente grande e interessado.

O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2011 | 03h09

Nelson podia ouvi-lo por horas, com os olhos distantes e um sorriso nos lábios, como se estivesse, ele mesmo, viajando a viagem de mr. Miles, saboreando os pratos que nosso correspondente provou e conhecendo, ao lado dele, os amigos que mr. Miles costumava fazer. Durante os saraus, Nelson parecia sonhar, mas seu silêncio era cortado, subitamente, por questões pertinentes, sempre com o sentido de fazer aflorar as minúcias, de modo a situá-lo nos cenários com fartura de detalhes.

De certa forma, Nelson, ou o doutor Nelson, como chamavam-no outros (por conta de seu diploma em medicina) era um ser excêntrico em sua ânsia de sorver a vida com intensidade inaudita. Um homem que comia dois pedaços de pizza de uma só vez, para que ambos estivessem igualmente quentes ao serem provados; que ia ao cinema em duas sessões consecutivas para ver filmes diferentes e sentir sensações distintas; que impedia os amigos de levar qualquer assunto adiante se, porventura, tivesse que se ausentar do recinto por alguns instantes - porque sofria se perdesse um comentário ou informação.

Nelson, que também viajava com intensidade, muitas vezes seguindo sugestões de mr. Miles. Mas que tinha tanta volúpia de conhecer que, muitas vezes suas jornadas tornavam-se maratonas cansativas.

"Miles", reclamou Nelson certa vez, "eu não sabia que a Nova Zelândia era tão grande". Frase que voltou a repetir depois de viajar, sempre de carro, pela Finlândia, pela Alemanha e outros destinos.

Já sob o efeito das drogas que tentavam amenizar as dores da doença que o consumia, o grande Nelson pediu a mr. Miles que lhe falasse de Rapa Nui, a mística Ilha de Páscoa, onde ele também já havia estado. O viajante britânico, com seu linguajar repleto de anglicismos, ficou horas divagando sobre os moais e os vulcões da ilha mais isolada do mundo, reclamou (of course), do preço local do single malt e depois de numerosos "conte mais, amigo!", foi recompensado por um "agora estou me sentindo muito melhor", acompanhado de um leve sorriso e de um olhar que ainda permanecia no meio do Pacífico.

Não há como confirmar, mas tudo indica que, por trás dos binóculos de mr. Miles, que ora vasculham as árvores africanas, há um par de olhos úmidos de tristeza.

A seguir, a pergunta da semana:

Dear Sir Miles, há anos leio no Estado que V. Sa. já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos. Considerando que existem cerca de 200 países no mundo, pergunto: nunca se interessou pelos países restantes? Quando os visitará? Quais deles gostaria de conhecer?Seu leitor semanal,

Hans Freudenthal, por e-mail

"Dear Hans: obrigado pelo Sir, mas ainda não fiz jus a essa honraria. Já esclareci, several times, que essa contagem data de 1965 e foi feita apenas a pedido de uma pretty girl do San Francisco Chronicle a quem desejava rever. Não sou um colecionador de destinos, mas, ainda outro dia, instado por outro leitor, cheguei à conclusão de que, in fact, já estive em todos os países do mundo, o que dá um número gigantesco porque muitos deles mudaram de nome e, well, passaram a valer por dois… Don't you agree? Peço, portanto, ao pessoal da redação que dê um upgrade em meu curriculo, para evitar justas reclamações como a do querido Hans Freudenthal."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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