O grande viajante e o tempo

Nosso solerte viajante voltou à Inglaterra e lastimou que não existam mais verões como os de antigamente – frios, lúgubres e chuvosos – em seu arquipélago natal. Como se sabe, Mr. Miles gosta muito do calor, mas “jamais na Grã-Bretanha. É o mesmo que aceitar uma nevasca na Polinésia, isn’t it?”. A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

14 Julho 2015 | 00h00

Querido Mr. Miles: em sua coluna semanal, o senhor diz que esteve em Petrogrado no ano de 1917 e acompanhou a revolução bolchevique, o que me fez deduzir que tinha uma determinada idade que possibilitava o entendimento dos acontecimentos. A partir deste pressuposto, poderia eu deduzir que o senhor tem uma idade aproximada de 115 anos. Qual a receita para tal longevidade, só o extremo prazer de viajar? - Carlos Eduardo Belchior, por e-mail.

 

Well, well, dear Charles: o bom dos leitores é que eles se renovam e, à medida em que o tempo passa, algumas questões sobre a minha existência – já sobejamente debatidas – voltam à tona. I’m not sure, mas julgo que outra das confissões que fiz na semana passada é ainda mais fabulosa. Como disse, arrependo-me de ter perdido o embarque na primeira (e unfortunately, na única) viagem do Titanic, porque meu carro atolou nas charnecas do Condado de Sussex. Isso ocorreu therefore, em 1912 e, como eu já estava habilitado para conduzir, teria, no mínimo, dezoito anos de idade. Ou seja: baseado em seu próprio raciocínio, nasci ao redor de 1894 – o que me daria um mínimo de 121 anos de vida.

A pergunta que não quer calar é se sou um embusteiro sem remorsos ou um fenômeno da longevidade. Costumo dizer que não sou tão jovem a ponto de gostar de festas rave e nem tão velho a ponto de aceitar que perdi o encanto por esse formidável, surpreendente, traiçoeiro planeta em que vivemos – e que, esquecidas as fronteiras, os interesses econômicos, as falácias nacionalistas e as ideologias utópicas, é, sempre, com toda a certeza, o quintal de nossa casa. 

Tive de viver mais de um século – e, talvez, tenha a dádiva de ir ainda mais longe –, comandando minha cruzada individual em favor de que as pessoas não se apequenem e conheçam, como já dizia my dear friend João Cabral de Melo Neto, a parte que lhes cabe nesse latifúndio. E que grande parte é essa, porque inclui as montanhas, os oceanos, as culturas, os idiomas, os sabores e os aromas, as geleiras e os desertos, tudo nosso, tudo feito para que nossos horizontes sejam sempre infinitos e nossos sonhos não tenham grilhões.

E, se vivo tanto, é porque preciso de tempo para lhes contar, necessito do passado para impulsionar o futuro, relativizar as certezas e garantir que nada do que hoje é sinônimo de virtude não vai voltar a ser vício e fraqueza e vice-versa.

É com esse tempo – tão pouco, afinal – que fui brindado para poder avaliar que o conhecimento e o progresso não são, unfortunately, sinônimos de que evoluímos e, por isso, somos mais felizes. E tampouco o contrário é verdadeiro.

A ironia disso tudo, dear Charles, é que você está certo em duvidar de minha implausível longevidade. Mas se ela, de fato, for apenas uma fantasia, seria uma pena se passássemos a não aceitar que elas existem – e delas precisamos.

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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