Bernd Hildebrandt/Pixabay
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O homem que comprou a Groenlândia

Em um bloco, ele anotava as providências: definir feriados nacionais, mudar os nomes dos dias da semana e da moeda, proibir o consumo de álcool nos dias ímpares

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 05h00

Ele desembarcou no aeroporto que em breve teria o seu nome. A recepção fria ou a falta de um cerimonial adequado foi um tanto decepcionante. Consolou-se com o fato de que a notícia ainda não era de conhecimento público. Melhor assim, pensou. Um pronunciamento em cadeia de rádio e TV seria o ideal. Em poucos dias, todos saberiam da novidade.

Apesar disso, esperar a própria bagagem aparecer na esteira era humilhante demais para um homem em sua posição. Se alguém se prontificasse a ajudá-lo, decerto teria o currículo considerado para a composição de um futuro ministério ou algo de igual valor e status.

A ajuda veio apenas na hora de pegar o táxi. O motorista mostrou-se prestativo e muito educado. Então, satisfeito, ele sentou-se no banco de trás e puxou um bloco de notas. “Um representante de uma minoria étnica é fundamental para a formação de uma equipe trabalho”, escreveu.

Outras anotações foram feitas durante o trajeto: “Definir feriados nacionais. Mudar os nomes dos dias da semana. Seguir o calendário gregoriano é realmente necessário? Tirar foto para o pôster oficial e para a nota de 100... como chama mesmo a moeda do país? Talvez mudar o nome da moeda. Pintar a neve com uma cor mais viva”.

Conforme o táxi ia avançado pela ilha, as anotações do homem ficavam mais frenéticas. “Os telhados devem ser padronizados para criar um sentimento de ordem. As crianças devem usar uniformes até os 16 anos – idade em que devem servir o exército. Fica proibido o consumo de álcool nos dias ímpares. Para fins sanitários, o uso do toalete (para necessidades de nível 2) só será permitido em dias pares. O governo irá distribuir cupons com autorização para a prática do sexo. O uso de redes sociais será proibido.”

Ao chegar ao hotel mais luxuoso da cidade, pediu que o simpático motorista pegasse suas malas. Sem olhar para trás, seguiu em marcha para a recepção. Lá, anunciou-se: “Amigos, a suíte presidencial, por gentileza”. Os funcionários se entreolharam. Uma mulher afirmou que o aposento não estava disponível. “Como assim? Quem mais, se não eu, pode ocupar a suíte presidencial?”, perguntou. “Quero a suíte e quero agora.”

Nesse momento, o motorista de táxi entrou no saguão empurrando as malas. “Pronto, senhor”, repetiu com gentileza, mas esperando a justa recompensa pelo seu trabalho. Dirigindo-se aos funcionários do hotel, o homem disse: “E por favor, providencie um aposento simples, porém, digno, para o meu secretário de governo”. 

A balbúrdia instalou-se no ambiente – e só piorou com a chegada da polícia. O homem ordenou que eles prendessem os funcionários do hotel. Óbvio, pedido esse que não foi atendido.

Com a negativa dos policiais, o homem tirou do bolso da calça um papel amassado em que estava escrito que ele havia comprado a Groenlândia. “Leiam, sou o dono desse país”, bradou.

Depois de 5 minutos de risadas e piadinhas, o homem foi preso. Na delegacia, ele contou que havia comprado a Groenlândia de um dinamarquês “mui digno” por dois cavalos, uma pequena propriedade no sul de Londres e uma filha de 18 anos “também mui digna”. Com piedade, os policiais liberaram o homem – que saiu da delegacia com suas malas e aquele pedaço de papel, o seu recibo de compra da Groenlândia.

Desde então, o homem tem percorrido as ruas da ilha com o seu recibo de compra em punho. Na maioria das vezes, ele se faz acompanhar de seu secretário de governo e motorista particular – que acredita fielmente na história da compra do país e no seu importante cargo. Um dia, o homem diz, eles irão transformar aquela ilha em uma nação. Ele transformou-se em uma atração turística da Groenlândia – tão importante quanto o sol da meia-noite e a carne de baleia. Hoje, vive de moedas e da generosidade do povo, do seu povo.

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