O homem que falava por seus silêncios

Ainda da Itália, mas agora já nas Dolomitas, onde o calor é menos inclemente, nosso insuperável viajante mandou-nos a crônica da semana.

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO., ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES, 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2013 | 02h12

Mr. Miles: um amigo meu ocidental, praticante de aikidô, foi, há alguns anos, treinar com os senseis no Japão. Lá contaram que o fundador da modalidade, Morihei Ueshiba, ficara impressionado com a habilidade de um aluno inglês que, coincidentemente, usava bigodinho e estava sempre de chapéu coco. Ueshiba Sensei, sempre tão comedido como geralmente são os grandes mestres, ficava horas ouvindo as peripécias pelas quais passara esse aluno, agora amigo, em suas andanças pelo mundo… É apenas uma coincidência, mr. Miles?

Kansabulo Sato, por e-mail

"Well, Sato San, eis uma faceta de minha vida que sempre tentei manter em segredo, porque as pessoas comuns confundem o conhecimento de uma arte marcial com agressividade. As you know, o aikidô não é um esporte de competição, mas o caminho para o espírito harmonioso.

Yes, my friend: tive a inenarrável alegria de conhecer Morihei Ueshiba, quase sempre chamado apenas de O-Sensei (Grande Mestre). Durante um período de minha vida - curto, I must say - fui ao Japão para tentar entender a obstinação, a obediência e, why not, a alma guerreira daquele povo. Conheci diversos sábios e um tipo de lógica que nós, ocidentais, desconhecemos. Entre todos, o que mais me encantou foi O-Sensei, o homem que falava por seus silêncios. De alguma forma que nunca compreendi, o simples ato de respirar já emanava a energia de Morihei Ueshiba.

Aprendi muito com ele: as nuances da beleza, o favor da reverência e, mais que tudo, o espírito da ética. Além de, by the way, ter me tornado um modesto aikidoka. Fico muito surpreso que, após todos esses anos, ainda seja lembrado entre os senseis dessa arte. Deve ter sido pelo tipo de roupa que eu usava (e ainda uso), I presume. O Grande Mestre começou a me chamar de Savirô, que é o nome que os japoneses dão aos ternos ocidentais. E eu lhe disse, em meu ainda precário japonês, que savirô era um substantivo derivado de Saville Row, a rua dos alfaiates em Londres.

Morihei Ueshiba achou muita graça naquela explicação e, desde então, pediu-me que contasse mais histórias sobre o mundo. Foi uma imensa honra para um modesto viajante como eu poder passar alguns ensinamentos para o legítimo Grande Mestre.

Para dizer a verdade, Sato San, ainda hoje pratico, esporadicamente, o aikidô em alguns templos e escolas ao redor do mundo. Exercito, assim, a energia que tenho e que me conduz a viajar - o que, as you know, é a minha perspectiva de harmonia. E sinto falta do Grande Mestre. Aprendi, também, que, em qualquer circunstância, o bem-estar do oponente tem de ser preservado. As I see, mais do que uma arte marcial, essa última definição transforma o aikidô em poesia.

Estive em Tanabe, na província de Yakayama, para acompanhar a partida do Grande Mestre no final dos anos 60. E ainda hoje sinto-me como um padrinho do bom Moriteru Ueshiba, seu segundo sucessor e meu companheiro em deliciosos jantares no Japão. Foi Moriteru, by the way, que cometeu a heresia de me informar que o melhor blended whisky do mundo era japonês (e não, my God, o nosso, feito na Escócia!). Pois quando eu provei o Hibiki 21 anos fiquei astonished. O mesmo ocorreu com minha mascote Trashie. E vejam só: os mestres japoneses acabaram ganhando, com essa marca, todos os prêmios mais importantes na categoria blended whisky. Felizmente, my friend, ainda temos o melhor single malt, que é o Galileo, produzido pela Ardbeg Distillery, na Ilha de Islay, no Reino Unido.

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