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O incrível Hulk

Em tempos de pandemia, estamos todos com o emocional por um triz, todos verdes de raiva e a ponto de rasgar as próprias calças

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2020 | 03h00

Acho que todo mundo conhece a história do pacato cientista Bruce Banner que, quando colocado em alguma situação de pressão, acaba se transformando no gigante verde, o Hulk. Conhecem, não é?

Em tempos de pandemia, estamos todos com o emocional por um triz, todos verdes de raiva e a ponto de rasgar as próprias calças, como o já citado Hulk (não confundir com Huck, o Luciano). Quer um exemplo? Dia desses, me peguei tentando segurar o choro enquanto assistia a um programa de viagem apresentado pelo Bruno de Luca. Se chorar com Bruno de Luca em Ibiza não é o retrato de um ser humano perturbado e vivendo no seu limite, eu não digo mais nada.

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Agora, se o Bruno de Luca já me faz chorar, imagina uma mensagem da minha irmã listando as palavras que o meu sobrinho de 1 ano e meio já aprendeu a falar nesse período de isolamento social: “Bolo, colo, cocô, acabou, pera, água, tá bom, panela, bola, gol, baleia, leão, uva, melão, pão...” Certeza que quando o isolamento acabar, e eu puder encontrar meu sobrinho outra vez, ele já vai estar falando três idiomas e comandando sua própria startup. 

Além do choro e das emoções fora de lugar, também tenho perdido a calma com mais facilidade. Já bati boca com um sujeito no supermercado porque ele estava usando a máscara no queixo:

- Desculpe, o senhor por acaso é o Noel Rosa?

- Não. 

- Pois parece, só é admissível usar máscara no queixo em duas hipóteses: ou você é o Noel Rosa (o genial compositor de sambas clássicos que não tinha queixo – na verdade, ele tinha um defeito no maxilar) ou é um idiota.

O sujeito me olhou de um jeito estranho, grunhiu alguma coisa e pediu para que “eu cuidasse da minha vida”.

- Amigo, é isso que eu estou fazendo, cuidando da MINHA VIDA. Usa essa máscara direito...

O sujeito deu de ombros. E eu larguei minha compra no chão e fui embora.

Minha indignação com quem usa máscara no queixo me deixa verde, me transforma em Hulk. Uma pessoa que usa máscara no queixo não passaria em um psicotécnico simples para tirar carta de motorista (ok, eu também não dirijo e quase fui reprovado no psicotécnico quando tentei tirar carta de motorista. Mas não uso, e jamais usarei, minha máscara no queixo).

Essa raiva me transformou naquilo que eu mais criticava: a pessoa que briga com serviços de entrega pela internet. O que vou contar agora é totalmente real, apenas vou subtrair o nome da companhia para não ter dor de cabeça ou qualquer outro sintoma que possa vir a ser confundido com covid-19.

Comprei um produto xis pela internet. O prazo de entrega era de 8 dias. Óbvio, passadas duas semanas da previsão de entrega, lá estava eu discutindo em um chat de atendimento ao cliente. Depois da promessa de uma ligação de uma agente de vendas para esclarecer meu caso, comecei a perder a paciência e a falar sozinho:

15h25 - Aguardo o contato então...

19h46 - São 19h46 e continuo aguardando o contato prometido para hoje sobre a entrega que não chegou.

20h17 - 20h17 e nada.

20h19 - A gravação no telefone de vocês insiste que alguém vai me ligar ainda hoje.

21h41 - Até agora o retorno prometido por vocês não aconteceu. Devo abrir um vinho e esperar mais?

21h44 - Claro, felizmente o vinho não foi pedido pelo @#%&*&. Se fosse, nunca teria chegado. Bom, mas abri aqui o vinho e estou aguardando. 

23h52 - 23h52. Dormi tonto de tanto vinho e no dia seguinte escrevi no mesmo chat de atendimento ao cliente: “Sonhei que o #@%&%# tinha entregue o produto. Acordei e, claro, nada. Acordei para o pesadelo que é o serviço de vocês.”

No fim das contas, desisti e cancelei a compra. Tinha razão de reclamar, mas o tanto de energia que desperdicei falando sozinho em um chat disfuncional é reflexo do meu isolamento. Era o meu Hulk interior pedindo atenção, meu Hulk interior querendo alguém para brigar.

Aliás, também pirei com um serviço de compras de passagem aéreas. Ligava para o atendimento ao cliente mesmo sabendo que dificilmente uma voz humana atenderia o telefone. Meu objetivo era bater o meu próprio recorde de espera. Meu melhor resultado até agora é 1 hora e 23 minutos de espera (sem atendimento). Acho que já tenho índice olímpico para o Japão 2021.

O que eu quero dizer é que estamos todos no limite, à flor da pele. Emoção, choro, raiva e loucurinhas são normais nesse período. Haja terapia, bar, aglomeração e abraços para nos restituir a normalidade. Isso vai passar, mas por ora, quem manda é o Hulk. E Hulk quer esmagar!!! 

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