O inenarrável prazer de um carnaval

Nesta semana, nosso adorável viajante mandou pedir suas mais sinceras desculpas, mas decidiu não publicar nada de sua autoria, nenhuma resposta às cartas de seus leitores. "I'm very sorry, my friends, mas, no momento em que ia postar a coluna habitual, recebi um e-mail de meu leitor Alberto Rhesus que julguei justo compartilhar com vocês. Com um humor quase britânico, Albert conta-me (e agora, a nós) a sua experiência de passar o carnaval em um destino que não tem tradição carnavalesca. O título do e-mail é 'A inenarrável alegria de passar o carnaval em Maceió'."

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2015 | 02h06

"Querido mr. Miles: sou paulistano e li, diversas vezes, que Maceió e suas praias vizinhas são um lugar de sonhos. Melhor ainda: que lá, pierrôs e colombinas passam longe, assim como blocos, escolas e qualquer outro tipo de associação de samba. Gosto de samba. O que não gosto é de multidões. Eis que, nos últimos dias que antecederam o evento, telefonei para uma dessas operadoras grandes e encomendei duas vagas nas não-folias de Momo das Alagoas. O fato de que havia lugar - e com escolhas de hotel - deu-me uma forte injeção de ânimo. Partimos, portanto, no sábado, ouvindo o repenique das baterias do sambódromo paulistano. O voo pousou à noitinha em Maceió e fomos levados a um hotel quatro-estrelas cuja recepção lembrava uma rodoviária em véspera de Dia das Mães. 'Acontece', pensei. 'Muita gente chegando junta...' Cansados, comemos em uma barraca de praia lotada. Havia acabado o camarão e a carne de sol. Mas tinha pizza. Bom, fazer o quê: fomos de pizza, a mais competente que um alagoano é capaz de fazer.

E fomos para a cama, porque tínhamos de tomar café às 6 da manhã para pegar o passeio (incluso) para a Praia do Francês.

Seis em ponto, vi, preocupado, um empurra-empurra beligerante. 'Eu vi primeiro!', berrou alguém. 'Mas eu cheguei antes', gritou o outro, com o último pedaço de mamão entre os dedos. Não havia mais pratos e as crianças eram orientadas pelos mais velhos para que se esgueirassem na frente do bufê à caça do que quer que fosse. A fila da tapioca (aquela farinha disgusting com gosto de guardanapo, não é, mr. Miles?) descia pelo hall do hotel. Deviam dar senhas aos que chegassem mais cedo, não acha? Quarenta minutos depois, em jejum, e já atrasado para o ônibus, só me restou usar o lamentável recurso de dar uma cotovelada em uma senhora de provecta idade. Rendeu-me meia fatia de queijo!

O senhor sempre reclama de franceses em suas crônicas, isn't it, mr. Miles? Pois está enganado: quando chegamos à Praia do Francês, vimos uma estreita faixa de areia e um lindo mar verde, daqueles de anúncio de revista. Nosso guia nos indicou que usássemos o serviço da barraca conveniada e logo fomos encaminhados para duas cadeiras de praia e um guarda-sol. 'Agora', pensei, 'enfim o justo descanso'. Na verdade, não concluí a reflexão. Num átimo de tempo, que me pareceu menor que as Alagoas no contexto do Brasil, minha mulher e eu fomos cercados, envolvidos, encaixotados pelo maior acampamento de praia jamais visto. O mar simplesmente desapareceu, embora soubéssemos que ele estava menos de 5 metros à nossa frente. Mas houve um consolo: a barraca começou a emitir, no volume que alcançava, um som irritante que não consegui definir. Tudo bem: a barraca ao lado fez o mesmo com outro tipo de som. Ainda assim, de novo tendo de usar de certa violência, encontrei o mar. Manso, tranquilo, sem ondas. Precisei andar cerca de 20 metros Atlântico adentro para conseguir abaixar a cabeça. E, believe me, mr. Miles. Não gostei nada do que vi.

No final dessa torturante jornada - que assim prosseguiu até que uma massa climática trouxesse dias de chuvas intermitentes -, um rapaz, com mulher e cinco filhos, proveniente de Salvador, perguntou-me se eu estava gostando. Lamentei, mas disse que esperava escapar do carnaval. E ele: 'Pois não é que a gente veio fazer o mesmo? Todo nordestino que não gosta de carnaval passa o carnaval em Maceió, não sabe?'."

*Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele esteve em 183 países e 16 territórios ultramarinos 

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