O lado certo de Hispaniola

Do computador pessoal do sultão Hassanal Bolkiah, no Brunei, nosso estimado viajante manda a correspondência da semana. E avisa: vai dedicar alguns dias a praticar birdwatching nas vizinhas florestas de Bornéu.

O Estado de S.Paulo

07 Maio 2013 | 07h15

Prezado mr. Miles: sou um fã de suas crônicas já há algum tempo e motivos para isso nunca faltaram. Além de sua cultura adquirida ao longo dos anos de contato com as pessoas dos mais variados cantos do mundo, de seu senso de observação, elegância e precisão, admiro-o mais pelo estilo de sua comunicação, a ponto de assumir a posição de que, para mim, tanto faz que mr. Miles seja um personagem real ou uma criação. (…) O fato é que, comentando sobre viagens com meu irmão, discordei dele em um ponto. Para mim, é prioridade visitar lugares aprazíveis e ricos em história, cultura, arte, monumentos naturais e construídos pelo gênio humano. Já ele gostaria de visitar lugares pobres, convulsionados, para entrar em contato com seus povos sofridos e sua cultura em estado bruto. Em síntese, se o senhor tivesse pouco tempo para conhecer as belezas do mundo e o que a nossa civilização já nele construiu, o senhor, por exemplo, marcaria como prioridade uma visita ao Haiti?

Pascoal Marmo, por e-mail

"Well, my friend: deixe-me, primeiro, agradecer aos fartos elogios, que decidi cortar de sua longa missiva. Minha segunda observação diz respeito à passagem de sua correspondência em que o prezado amigo faz uma suposição ligeiramente ofensiva.

'Se o senhor tivesse pouco tempo para conhecer…' Well, Pascoal: o que é o tempo? Não tenho ideia do que me reserva o futuro, mas, for sure, eu vou preenchê-lo, a cada momento, de novas descobertas e novos amigos com os quais possa compartilhá-las. O tempo, my friend, não tem fim; já o nosso planeta é mensurável. Quem sabe eu chegue a visitá-lo por completo sem, however, ter a menor pretensão de conhecê-lo.

Ir para algum lugar significa fazer um retrato instantâneo do que ali se encontra. Os aromas do dia, os ventos da estação, os humores da política e as flores da temporada. É passar pelo lugar e deixar que ele passe por você do jeito que está - nunca do jeito que foi ou será novamente. O próprio juízo que cada viajante faz de seu destino depende exatamente disso. Eles se tornam mais tristes quando têm conflitos, mais felizes quando têm harmonia, mais mobilizados quando passam por traumas e, of course, mais encharcados e escuros quando estão sob efeito de chuvas.

Eis que, dear Pascoal, meu raciocínio aproxima-se da questão que existe entre você e seu irmão. Lugares em guerra ou em situação de extrema miséria não serão sempre o que são. Se a curiosidade compele seu irmão a visitar, for instance, o Haiti, não há por que não fazê-lo. É um belo país, com formosas praias caribenhas e natureza embriagante.

Há que se saber, of course, que ele vai encontrar um povo sem sorrisos na rua. Um povo obrigado a pedir e pedir de novo, porque tudo lhes foi negado por seus governantes corruptos e pelo impiedoso poder dos terremotos. Do outro lado da fronteira, na mesma linda ilha chamada Hispaniola, a paisagem é semelhante, mas o povo está mais feliz, dança merengue e, por toda parte, vicejam hotéis para turistas. Trata-se da República Dominicana, um destino ora mais fácil e menos triste. Seu irmão, I presume, iria para o Haiti. Você tem mais o jeito da República Dominicana. As for me, dear Pascoal, sou um pouco mais guloso: prefiro visitar os dois."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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